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Um Marcos na presidência das Filipinas: uma história que se repete

Os pais deixaram um legado de corrupção, repressão e extravagância; agora, o filho promete que vai melhorar o país - e eleitores acreditam

Por Vilma Gryzinski 6 Maio 2022, 07h39

No Brasil, o fenômeno é conhecido como “filhotismo”. É o que está acontecendo, em dose dupla, nas Filipinas. Com eleição garantida, Ferdinand Marcos Jr, filho do casal que instaurou uma “ditadura conjugal”, deve ser o novo presidente. Sua vice é Sara, filha do atual presidente, Rodrigo Duterte, um expoente da escola de líderes grotescos, nas palavras e no comportamento.

O casal Marcos, Ferdinand e Imelda, tem o desconfortável recorde, registrado no Guinness, de maior roubalheira política individual do mundo, uns dez bilhões de dólares. A fuga da família, em 25 de fevereiro de 1986, em quatro helicópteros militares americanos encarregados de encerrar um capítulo complicado, tornou-se um clássico das ditaduras.

O povo entrou no palácio dos Marcos e foi descobrindo um estilo inacreditavelmente luxuoso de vida, simbolizado pelos três mil pares de sapato de Imelda, uma extravagância legendária (na verdade, segundo uma contagem posterior, eram “apenas” 1 060 pares. Desses, 720 foram para um Museu do Sapato, em Manilha, dos quais 253 acabaram expostos).

Agora, aos 92 anos, com os cabelos arrumados no mesmo formato de carapaça que celebrizou, sempre negros como as asas da graúna, Imelda Marcos poderá voltar ao palácio presidencial pelo braço do filho. Seu estilo de vida é até modesto, comparado aos tempos em que colecionava diamantes amarelos – um prazer que largou depois que esta se tornou a cor da oposição, exibida em demonstrações sucessivas da Revolução do Poder Popular, uma das primeiras a usar o “modelo” da cores.

As Filipinas, diferentes dos outros países orientais por causa da herança deixada pela colonização espanhola, incluindo o catolicismo, perderam o bonde dos tigres asiáticos e não tiraram o pé da pobreza, sob Marcos ou seus sucessores, uma linha de calamidades que culminou com os dois mandatos de Rodrigo Duterte. Uma de suas principais fontes de renda continua a ser as remessas feitas por filipinos que trabalham no exterior, geralmente no serviço doméstico. Numa população de 109 milhões de pessoas, são doze milhões fora do país, mais do que 10%.

As ilhas que levam um nome em homenagem ao rei Felipe II da Espanha eram importantes para os Estados Unidos, na época da Guerra Fria e da expansão do comunismo pela Ásia. Agora, são cobiçadas como parceiras estratégicas da China, com quem Duterte andou flertando.

A popularidade de Marcos Junior, conhecido universalmente pelo apelido de Bongbong ou pelas iniciais BBM, é atribuída a uma “nostalgia da ditadura”, uma visão distorcida de tempos melhores – ou pelo menos não tão dominados pela criminalidade que Duterte se comprometeu a combater. Depois de mais de oito mil mortos, a coisa não melhorou muito.

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A eleição de Duterte foi prenunciada como praticamente o início do apocalipse, mas na verdade, mesmo com a repressão indiscriminada – e apoiada pela opinião pública -, não mudou muita coisa.

As Filipinas continuam a ser um país incrivelmente pobre e com poucas chances de progresso. Marcos Jr, que fez carreira política no curral eleitoral da família,  não tem a personalidade forte do pai nem o carisma da mãe, que conseguiu voltar do exílio e ser eleita deputada.

O caso Marcos virou um exemplo do manual do ditador corrupto – e também inaugurou novas práticas de investigação e recuperação de dinheiro público desviado e colocado em bancos do exterior. Ficou mais difícil lavar e esconder dinheiro depois do casal filipino, uma honra dúbia para expoentes da roubalheira.

“Entraram nos meus armários procurando esqueletos e, graças a Deus, tudo o que descobriram foram sapatos, sapatos lindos”, dizia Imelda. Ela também acreditava que o povão pobre adorava suas roupas e joias luxuosas, como uma espécie de Eva Perón oriental (mas não gostava da comparação por causa do início de carreira da argentina no ramo do entretenimento noturno).

Bongbong vai fazer um governo honesto, voltado para o bem comum, orientado para o progresso e respeitador do estado de direito? 

As probabilidades são extremamente baixas. 

Pela idade, sua mãe não tem mais muito o que aconselhar, mas o sangue fala alto nos casos de “filhotismo”. Se ele tiver, ao menos, aprendido que não existe impunidade total para os poderosos já será um avanço.

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