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Tsunami Trump: brigas, boicotes e batalhas culturais

Loja de departamentos corta a linha de roupas de Ivanka Trump, presidente esperneia, clientes picam cartões e os ataques gerais de nervos aumentam

Por Vilma Gryzinski 9 fev 2017, 16h34

A vida não está fácil para os americanos que não gostam de Donald Trump. E esta categoria abrange imprensa, artistas, intelectuais, indústria de alta tecnologia e todo o espectro político que vai da centro-direita em direção à esquerda.
É tanta gente que parece um mistério: onde estão os 51% de americanos, com variações para menos, dependendo das pesquisas, que aprovam a maioria dos decretos assinados por ele em ritmo frenético nas últimas três semanas?

Em alguns casos, pelo menos, articulando contraboicotes às campanhas de sabotagem econômica promovidas pela oposição.

O caso mais recente foi o da rede de lojas de roupas femininas Nordstrom. A rede é tradicional e parece atender a um público com idade média de 120 anos, do tipo que ainda compra casacos de pele. Seriam eleitoras republicanas típicas. Nem assim a Nordstrom escapou de ser tragada pelo tsunami Trump, no atual clima de confronto crescente, alimentado por extremismo tolo da parte contrária, como xingamentos e até insinuações de assassinato político.

Alegando que a linha de roupas assinada por Ivanka Trump, a favorita do pai, não estava vendendo bem, a Nordstrom anunciou que não iria renovar o contrato com ela. Logo circulou uma comunicação interna da empresa, fundada por um sueco que chegou aos Estados Unidos em 1887 e hoje avaliada em 7,7 bilhões de dólares, falando do constrangimento de funcionários e clientes afetados, na prática ou na imaginação, pelas mudanças na política de imigração.

Em novembro, a empresa havia declarado que as roupas, sapatos e acessórios estavam vendendo bem e este era o único critério que orientaria a Nordstrom.

A campanha de boicote à marca de Ivanka – da qual ela se afastou, teoricamente, depois da eleição do pai – é liderada por uma empresária de San Francisco, Shannon Coulter, com o lema #GrabYourWallet – agarre sua carteira, uma referência a um antigo e infame comentário de Trump sobre o que homens famosos podem fazer com mulheres seduzidas pela celebridade. Os produtos de Ivanka também sumiram dos sites da Neiman Marcus, outra rede voltada para mulheres de certa idade e algum dinheiro, e do shoes.com.

Clientes iradas da Nordstrom fizeram comentários críticos e algumas até queimaram cartões da rede. Num mundo normal, o assunto refluiria e seria debitado na conta de perdas da marca de Ivanka. Mas no planeta Trump nada é normal, ainda mais quando ele agarra o celular para escrever os tuítes que deixam oposicionistas – e aliados também – em estado constante de alta ansiedade.

“Minha filha Ivanka foi tratada de maneira injusta”, reclamou o presidente dos Estados Unidos, citando a rede de lojas pelo nome. “Ela é uma grande pessoa, sempre me levando para o lado certo”. As ações da Nordstrom caíram. E subiram no dia seguinte – caprichos pontuais da bolsa não podem ser levados muito a sério.

Boicotes e contraboicotes por causa de assuntos ligados a Tump são desfechados com rapidez cada vez maior. Depois do decreto suspendendo a entrada de pessoas procedentes de sete países com alta incidência de terrorismo, a rede de cafeterias Starbucks anunciou que estava contratando 10 mil imigrantes.

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Trumpistas propuseram um boicote à Starbucks e um distribuidor de cafés especiais, de estatura infinitamente menor, disse que iria contratar 10 mil veteranos de guerra. O nome da empresa é Black Rifles Coffee Company, referência aos fuzis tipo AR15. Um de seus slogans; “Coffee and Country”. Outros são mais divertidos, embora impublicáveis.

A influência cultural e o poder econômico dos anti-trumpistas são incomparavelmente superiores. Só para dar uma ideia: as medidas judiciais contra o decreto de imigração são apoiadas por Apple, Google, Microsoft, Facebook e Uber.

Inclusive porque todas têm grande quantidade de funcionários estrangeiros, geralmente especialistas em computação, que entram no país com vistos de trabalho do tipo H-1B, cujos termos podem ser alterados pelo governo Trump. Na indústria high tech, são cerca de 85 mil funcionários estrangeiros, que geralmente trabalham mais e ganham menos que os locais.

O boicote a Ivanka está funcionando para as massas, mas no mundo da elite de Washington a filha de Trump vai muito bem. Ao contrário do marido, Jared Kushner, que Trump colocou como assessor especial com direito até a participar de sessões do Conselho de Segurança Nacional, Ivanka não tem cargo oficial – só uma influência incomparável.

Ela toma café da manhã, almoça e dá jantares na casa para onde se mudou com a família em Washington, pertinho da nova mansão do casal Obama, para a nata do mundo político e empresarial.

O site Politico descreveu hoje um café da manhã de Ivanka num dos centros de poder da capital, o Four Seasons, em que a filha do presidente deslizou como uma profissional altamente gabaritada. Além da convidada, Indra Nooyi, presidente da Pepsi, ela falou até com Nancy Pelosi, a veteraníssima líder democrata que quer tocar fogo no governo Trump. Políticos e lobistas ligados à oposição não pareciam nada interessados em boicotá-la.

Colocar o genro na Casa Branca e a filha como sua mais gabaritada representante nos salões do poder é, evidentemente, um risco enorme – um dos muitos que Trump corre sem preocupações aparentes.

Duas coisas, pelo menos, são positivas. Os americanos nunca ficarão sabendo como Chelsea Clinton e o marido, Marc Mezvinsky, se sairiam nas imediações familiares do poder, mas podem ter uma ideia. Poucas semanas depois da derrota de Hillary Clinton, o genro Mezvinsky fechou um banco de investimentos que captava clientes apostando na recuperação econômica da Grécia. Levantou 25 milhões de dólares, mas o pessoal se desinteressou diante da performance decepcionante – da Grécia e de Hillary.

O segundo aspecto positivo do tsunami Trump é o interesse renovado por 1984, o livro de George Orwell que descrevia o mundo dominado por uma distopia autoritária. Orwell não falava de populistas autoritários e destemperados, mas de um sistema que pretendia fazer o bem nem que fosse à força, mais à maneira dos abusos e loucuras impetrantes na época na União Soviética.

Talvez procurando por Trump no Ministério da Verdade (encarregado de só propagar mentiras) e outras magníficas criações do livro, os novos leitores de Orwell encontrem um pouco das distorções politicamente corretas que contribuíram para a eleição de Trump. Ou mais motivos para ficar apavorados. Os insones de Washington não devem esperar alívio em uma perturbadora obra prima como 1984.

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