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Só para quem pode: Biden promete o impossível em questão climática

Reduzir em 50% a emissão de gases do efeito estufa e ao mesmo tempo bombar a economia americana são promessas excludentes

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 23 abr 2021, 08h49 - Publicado em 23 abr 2021, 08h39

Menos para quem tem – ou conta ter – 2,3 trilhões de dólares nos cofres. É com esse Everest de dinheiro que Joe Biden pretende fazer o impossível.

Donald Trump não tirou os Estados Unidos dos Acordos de Paris porque é malvado, embora muita gente prefira esta versão simplificada da realidade.

O ex-presidente via um ônus enorme para as empresas americanas, que precisariam passar por uma gigantesca e custosa adaptação, enquanto a China, o maior emissor de gases malignos do planeta, se aproveitava de mais esta vantagem competitiva.

A proposta de Biden é fazer as duas coisas: remodelar a infraestrutura e custear a “limpeza”geral, em termos ambientais, e, nesse processo, criar milhões de “empregos bem pagos” – palavras-chave de qualquer discurso sobre o assunto, considerando-se que todos têm perfeito conhecimento de que a economia verde implica em desemprego nos setores de carvão, gás e petróleo.

Esse é o New Deal de Biden. O governo solta a dinheirama, a emissão de gases diminui e milhões de americanos ficam agradecidos pelos novos e bons empregos nessa indústria de reformatação da economia. 

As empresas também ficam contentes com o aluvião de contratos públicos e nem reclamam  muito de pagar a conta com o aumento de 21% para 28% de impostos. Com a economia bombando, o endividamento passa de catastrófico para absorvível.

No papel, é uma maravilha. O megapacote ainda precisa ser aprovado pelo Congresso, mas é difícil imaginar que mesmo o mais fiscalmente comedido dos democratas vote contra o presidente.

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As críticas têm motivos óbvios. “É a politica fiscal mais irresponsável dos últimos quarenta anos”, resumiu Larry Summers, secretário do Tesouro no governo Clinton, sobre a gastança que começou com o pacote anti-Covid de 1,9 trilhão de dólares.

Faz parte da tática de Joe Biden “fazer o mal de uma vez só”, como aconselhava Maquiavel. Mal, obviamente, na visão dos adversários republicanos.

As dimensões tremendamente ambiciosas de seu plano para a redução, até 2030, de 50% das emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa são mais uma demonstração de como Biden tem pressa em ocupar todos os espaços.

Eleito como político centrista e centrado, um tipo confiável para eleitores que não queriam mais Trump, mas também preferiam não agitar muito as coisas, Biden está surpreendendo pelas opções à esquerda, deixando bem para trás o homem do qual foi vice durante oito anos, o presidente da “esperança e mudança”, Barack Obama.

“Para seus admiradores, Biden está encontrando uma terceira via entre o velho centro e a nova esquerda. Tendo feito campanha como  moderado, dizem eles, pode governar como radical”, analisou o comentarista Freddy Gray na Spectator.

O colunista acha que Biden vai moderar o tom quando começar a campanha para as eleições legislativas, no ano que vem, para não correr o risco de perder a maioria na Câmara e no Senado.

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Por enquanto, o veterano de 78 anos está cuspindo fogo. Chamou Vladimir Putin de “assassino”; usou a expressão mais frequente do atual vocabulário esquerdista, “racismo sistêmico”, para qualificar as relações raciais em seu país, abriu na prática a fronteira a imigrantes irregulares e aparentemente encontrou a árvore que produz dinheiro, através da qual promete um mundo melhor e mais verde. 

Também criou uma comissão para aumentar o número de juízes na Suprema Corte e está transitando o projeto que transforma o distrito federal em estado, duas iniciativas que favorecem escandalosamente o Partido Democrata.

Biden mostrou ousadia até num assunto que costuma ser tratado, infelizmente, como nota de pé de página: seu governo vai reconhecer que o massacre de armênios na transição do império otomano para a república turca, no começo do século passado, foi um genocídio. É o tipo de coisa que faz surtar governos turcos de qualquer natureza, ainda mais um como o de Recep Erdogan.

A esquerdização de Joe Biden é um dos fenômenos políticos mais interessantes do momento. Deve ser também a explicação para que tantos esquerdistas nativos clamem e torçam para que o presidente americano dite a política ambiental do governo brasileiro e ponha todo mundo sabe quem ajoelhado no milho. 

Quem diria que um imperialista das antigas viraria ídolo progressista?

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