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Revolta contra responsável pela economia? Acontece, nos Estados Unidos

Janet Yellen reconheceu que estava errada sobre inflação - é um gesto político exigido pelo chefe, Joe Biden, apavorado com o tamanho do desastre

Por Vilma Gryzinski 2 jun 2022, 07h51

Será que Janet Yellen realmente se arrepende de ter errado “sobre o caminho que a inflação iria tomar”?

Dificilmente. Ela foi escolhida por Joe Biden como secretária do Tesouro justamente por ser da turma que admite um “pouquinho” de inflação em nome do crescimento econômico. 

Isso no distante ano de 2020. Depois, ainda sustentou que a inflação representava um “risco pequeno”. Desde então, “houve grandes e imprevisíveis choques na economia que insuflaram os preços da economia e dos alimentos e gargalos no abastecimento que afetaram pessimamente nossa economia que eu – na época – não compreendi completamente, mas que agora reconhecemos”.

Yellen foi muito criticada por suas previsões erradas e pela “política do silêncio”, a aparente falta de engajamento e de empatia face aos estragos da inflação.

O mea-culpa não é espontâneo. Faz parte da tentativa de Biden de se mostrar ativo em relação à maior preocupação dos americanos – e não só deles -, o custo de vida. A inflação está em 8,5%, mas os preços que mais pesam no bolso subiram muito mais. Só um exemplo que os brasileiros compreendem muito bem: a carne de frango subiu 49,7% em relação há um ao.

A gasolina a 1,41 dólar o litro e as prateleiras dos supermercados incendiadas pelas altas de preços como não acontecia há quarenta anos corroem os índices de aprovação ao presidente, mesmo entre o eleitorado democrata. Nos onze principais institutos de pesquisas, a desaprovação a Biden vai de 51% a 59%. 

Em relação especificamente à condução da economia, a desaprovação vai de 52% a 65%. É tão flagrante que a grande imprensa, que continuou a culpar Donald Trump por todos os males imagináveis mesmo com Biden já no meio do mandato, começou a espetar o presidente.

Desse jeito, vai ficando cada vez mais impiedosa a surra nas urnas prevista para os democratas nas eleições legislativas de novembro.

Biden exigiu o mea-culpa de Yellen porque “acredita que seus assessores não estão correspondendo e é culpa deles que se tornou tão popular quanto erva venenosa”, espetou Michael Goodwin no New York Post.

Imaginem só um presidente que põe a culpa nos ministros…

“Relançar” a imagem do governo é o tipo de iniciativa que assessores aconselham nos momentos em que a coisa vai mal. O primeiro passo foi a reunião de Biden com Yellen e Jeremy Powell, o presidente do Fed – depois de passar um tempão “evitando escrupulosamente” se encontrar com ele, para não passar a imagem de interferência.

“Biden está ficando sem opções”, anotou a agência AP – onde o antitrumpismo militante também está dando lugar à nova realidade. 

“As tentativas anteriores – liberar petróleo da reserva estratégica, melhorar as operações portuárias e clamar por investigação de aumentos abusivos de preços – ficaram aquém de resultados satisfatórios”.

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Declarar-se vítima de circunstâncias imprevisíveis, como argumentou Janet Yellen, também não ajuda muito quando a máquina de fazer dinheiro injetou 1,9 trilhão de dólares na economia, já numa situação em que os efeitos inflacionários eram perfeitamente prognosticáveis.

Isso não significa ignorar que estas circunstâncias realmente pesaram, como testemunham países com aversão a risco, como a Alemanha (inflação de 8,7%, empatada com os Estados Unidos).

No Reino Unido, onde se combinam a inflação de 9% e o desgaste político de Boris Johnson no caso das festinhas proibidas durante a pandemia, o governo conservador – repetindo, conservador – apelou ao aumento de impostos para as empresas energéticas e a distribuição de dinheiro. Cada família vai receber, no mínimo, um checão de 400 libras. As aposentadorias terão o maior aumento real em 32 anos.

“Nenhum governo pode resolver todos os problemas, especialmente um problema tão complexo como a inflação”, disse o ministro da Fazenda, Rishi Sunak, ao anunciar que estava tentando exatamente isso.

Parlamentares conservadores de raiz revoltaram-se com medidas que contradizem os princípios mais elementares dos tories, como são chamados. 

Boris, obviamente, está pensando naquilo: o ano eleitoral de 2024.

“A economia é o campo de batalha onde a maioria das eleições são disputadas e 2024 não será diferente, dando ao governo apenas dois anos para convencer a população de que está melhor com os tories”, anotou o Telegraph.

Conservadores que aumentam impostos, como fez Rishi Sunak, e liberais que reconhecem o caráter intrinsecamente deletério da inflação, como Janet Yellen, são resultado da situação emergencial que tantos países vivem agora, sob o duplo impacto da covid e da guerra na Ucrânia – sem contar as decisões erradas.

“Biden está abalado pela queda em parafuso de seus índices de aprovação e procurando recuperar a confiança dos eleitores em sua capacidade de prover a liderança firme que prometeu durante a campanha, dizem pessoas próximas do presidente”, anotou uma reportagem da NBC.

Um indicador de que vai ter mais gente fazendo mea-culpa,  um fato raro em qualquer universo político e mais inesperado ainda por envolver alguém com a tonelagem intelectual de Janet Yellen.

“Apertem os cintos”, alertou um dos gurus mais respeitados pelo mercado, Jamie Dimon, do JPMorgan, avisando que ainda vem aí um “furacão”.

A dupla tempestade virá, segundo ele, porque o Fed vai começar a enxugar liquidez do mercado e o petróleo pode chegar a 150, até 175 dólares o barril. 

Nada menos que uma catástrofe.

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