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Raposas do deserto em crise: boicote e muita falação. Ação?

No confronto entre Arábia Saudita e Catar, com respectivos aliados, o mais bobo ali vende areia para beduínos; a tendência é à acomodação

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 13 jun 2017, 08h28 - Publicado em 13 jun 2017, 08h27

Todos os líderes no poder do Oriente Médio árabe, com a exceção libanesa de sempre, saíram do Exército ou das tribos dominantes nas áreas desérticas. Toda a oposição está nas mesquitas.

No Grande Oriente Médio não-árabe, a situação é o oposto. No Irã, persa e xiita, as mesquitas tomaram o poder em 1979 e continuam firmes. Na Turquia, sunita e multiétnica, mas predominantemente túrquica, um líder político que fala em nome do establishment religioso fundamentalista, Recep Erdogan, conseguiu inverter quase cem anos de secularismo encabeçado pelos militares.

Esta contextualização a jato é útil para entender o quadro histórico dos últimos cem anos e a crise atual entre Arábia Saudita e Catar.

Estes dois países têm exatamente a mesma matriz, as mesmas práticas religiosas e métodos muito parecidos. Por isso, seu confronto não é orgânico e, com todas as ressalvas que a experiência impõe, tende a ser resolvido.

Sobre a origem comum. Arábia Saudita e países do Golfo Pérsico (para eles, árabe) nasceram na decadência final do império otomano, sob cujo domínio viveram durante séculos.

Por intervenção dos ingleses – e dos franceses, em menor medida -, que seguiam seus interesses nacionais à época, tornaram-se gradativamente independentes.

SACO DE SERPENTES

Para agradar os chefes tribais, receberam da potência colonial a designação de monarquias. Sob esta fina fachada, estabeleceram-se como estados-nação com fronteiras, forças armadas, bandeiras, medalhas e identidades nacionais movidas, rapidamente, a quantidades estonteantes de petróleo.

Assumiram títulos e aparatos que não faziam parte de sua cultura, mas continuaram sendo o que são: sociedades dirigidas por um sistema em que uma família dominante, escolhida por chefes tribais, governa por consenso entre seus integrantes, com a chancela dos líderes religiosos.

Um saco de serpentes, evidentemente, inclusive pelo enorme número de “príncipes” gerados pelo sistema de múltiplas e sucessivas esposas, com o teto temporário de quatro, e concubinas. Só para dar um exemplo: Osama Bin Laden tinha mais de 50 irmãos por parte de pai, milionário do ramo da construção.

O dinheiro gerado pelo petróleo, desproporcional por qualquer medida que se tenha, alimentou um impulso modernizador misturado a práticas sociais e religiosas extremamente conservadoras, nascidas na dureza e no extremo isolamento da vida no deserto.

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA

É essa tensão intrínseca que ameaça os poderes estabelecidos, sistemicamente. E é ela que impulsiona o método dos monarcas e suas enormes tribos, escoladas raposas do deserto, de investir em diversas apostas, muitas delas conflitantes.

Reis, príncipes, emires, xeques e milionários em geral, tanto da Arábia Saudita quanto do Catar, apoiam e financiam diferentes correntes religiosas e políticas. Inclusive, misteriosamente para olhos estrangeiros, aquelas que pedem suas próprias cabeças.

Ter clientes no bolso é um dos mais antigos ardis do manual de sobrevivência no deserto. Desprezados, estupidamente, como brucutus, os grandes players sauditas são mestres nisso. Mas os primos do Catar são mais ousados ainda.

Tradicionalmente, o emir do Catar, da tribo Al-Thani, apoia a Irmandade Muçulmana, a mais tradicional e sistemática organização islamista. Seus princípios são, fundamentalmente, contra todas as monarquias do Golfo, consideradas traidoras da religião – por mais que promovam sua própria e fundamentalista prática do Islã.

O Hamas, que é o braço palestino e nacionalista da Irmandade, também desfruta da generosidade monetária e ideológica do Catar. O pai do atual emir, que abdicou em circunstâncias opacas em favor do filho, sempre se declarou nasserista. Ou seja, identificado com o nacionalismo pan-arabista de Gamal Abdel Nasser.

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Militares como Nasser foram os lideres da modernização nacionalista conduzida por oficiais que se tornaram ditadores nos principais países da região: Egito, Síria, Iraque, magrebinos (com exceção do Marrocos). Nos países com populações sunitas, seus principais inimigos são a Irmandade Muçulmana.

Para dar uma ideia da duplicidade reinante: depois de ser o país árabe que mais apoiou a Irmandade Muçulmana durante o breve e convulsionado período em que esteve no poder no Egito, o Catar deu 3 bilhões de dólares ao novo governo militar de Abdel Fatah Al-Sissi e prometeu mais 18 bilhões em investimentos na infraestrutura.

A coisa ficou tão feia que Sissi devolveu 2 bilhões. O Egito é um dos países que agora se alinhou contra o Catar, junto com Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos.

CLUBE DO TERROR

Rios de dinheiro, subterrâneos ou ostensivos, também irrigam instituições ocidentais. Universidades, projetos arquitetônicos, museus, artistas e, em especial, centros de estudos estratégicos. Os que adoram uma verba gorda se curvam em salamaleques e maluquices como o núcleo de finanças islâmicas do Centro de Estudos Islâmicos de Oxford.

O mais importante braço, não só de propaganda como de formulação de política externa, do Catar é a Al Jazeera. A rede de televisão que os Idiotas Sem Fronteiras admiram – até sem nem receber um dinheirinho por isso – adota, em outra bizarrice, uma linha “progressista”, que mistura apoio ao Hamas, à Irmandade Muçulmana e a partidos de esquerda ocidentais.

O alinhamento com o Irã é uma carta que muda de mão conforme a conveniência do momento. Ora é da Arábia Saudita; ora é do Catar. O regime dos aiatolás também é bom no jogo duplo, triplo, quádruplo e o que mais for preciso.

Donald Trump conheceu bem o pessoal do Golfo durante sua encarnação no ramo dos imóveis e, principalmente, na venda da própria marca. Mármores, dourados, fontes cascatas, grifes e exageros similares são o tipo de coisa que faz sucesso na região.

Sabe das jogadas do Catar, descrito por um diplomata israelenses como “o Club Med do terrorismo”. Sabe das jogadas da Arábia Saudita, que apoia os movimentos sunitas mais extremos, inclusive os que só não são Estado Islâmico no nome. Reuniu todo mundo na cúpula  de Riad  há menos de um mês para “tirar uma posição” comum.

E insuflou uma condenação coletiva ao Irã – uma forma de pressionar o país a fazer concessões na mais infernal das questões: a guerra na Síria. O emir Al-Thani fez o amigo na cúpula de Riad. Chegou em casa e mandou sua agência de notícias soltar a língua em defesa do Irã. Produziu a reação furiosa da Arábia Saudita e seus minions, a mais séria das muitas crises símilares anteriores.

O SEQUESTRO DOS FALCÕES

Um incidente específico tem sido mencionado como o catalizador da encrenca catariana: o pagamento de 1 bilhão de dólares a título de resgate por 26 de seus cidadãos, entre os quais membros da família real, sequestrados quando praticavam o nobre esporte da falcoaria numa região do Sul do Iraque.

Beneficiados: um grupo extremista que segue a linha Al Qaeda e o próprio Irã, que praticamente é  dono da casa da região iraquiana de maior concentração xiita.

Saberá Trump o que está fazendo ao apoiar e insuflar os sauditas contra os catarianos?  Almas bondosas que têm o presidente na conta de boçal alertaram que ele sequer tinha conhecimento do enorme interesse estratégico dos Estados Unidos com sua base militar no Catar, o coração do poder bélico americano no Golfo. Esse Trump deve ser um bobão mesmo.

O sentimento anti-Trump também levou muitos incautos a se tornarem fãs do Catar e do Irã, um dos mais bizarros desenvolvimentos da atualidade. A bobagem contrária é achar que Catar e Irã são adversários permanentes e imutáveis dos Estados Unidos.

Os cameleiros com petrodólares e diplomas de Oxford devem dar risada dos amigos/inimigos ocidentais que invejam, detestam, imitam ou compram – só em Londres, o governo do Catar tem 550 mil de metros quadrados em propriedades imobiliárias. Quase um terço a mais do que os imóveis pertencentes ao município e “três vezes mais do que a rainha”, anotou o Telegraph.

Qualquer que seja o presidente americano, eles vão continuar com suas infinitas maquinações. Se houver abertura, se entenderão entre si. No momento, isso seria extremamente conveniente para começar a tentar uma solução para a Síria, cujas negociações ainda estão num estágio preliminar, envolvendo Rússia e Irã, de um lado, e Estados Unidos, do outro, com mediação da Jordânia.

O nome do jogo, de novo, é sobrevivência.

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