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Racha interno na Rússia: briga entre força mercenária e exército regular

Até que ponto Putin vai permitir que seu protegido do Grupo Wagner continue a acusar a cúpula militar até de “traição à pátria”?

Por Vilma Gryzinski
Atualizado em 23 fev 2023, 08h05 - Publicado em 23 fev 2023, 08h05

Quem está fora, custa a entender o culto à hierarquia em todas as forças armadas. Quantos filmes de guerra já foram feitos mostrando combatentes se rebelando contra ordens absurdas ou autodestrutivas?

Quem vê por dentro o complexo funcionamento de uma máquina de guerra, entende melhor a necessidade de parâmetros rígidos para ordenar situações em que a vida de seres humanos e até o destino de nações inteiras dependem de ordens bem formuladas, bem transmitidas e bem executadas – na medida de possível, considerando-se o efeito da famosa névoa que envolve os combates, multiplicando por muitos milhares a máxima suprema de Mike Tyson (“Todo mundo tem um plano até que leva um soco na boca”).

O que está acontecendo agora entre as forças russas em combate na Ucrânia é uma quebra de hierarquia. Ou melhor, o levante da hierarquia paralela incentivada por Vladimir Putin quando permitiu que Ievgueni Prigozhin, um ex-dono de restaurante transformado em íntimo do poder criasse uma força militar própria, o Grupo Wagner.

Da Síria ao Mali, os wagneristas, como são chamados, prestaram bom serviços, recompensados por bons salários e pelos frutos da exploração de poços de petróleo que “liberassem” ou do ouro extraído nas mais torpes condições, com métodos de tortura tão brutais que impressionaram até militantes do ISIS.

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Prigozhin, que tem ambições muito mais amplas do que as de um homem que fez fortuna ganhando contratos camaradas para fornecer refeições ao exército russo, viu na Ucrânia a chance de ser coroado um salvador da pátria. Agora, está falando a linguagem dos traidores, em ataques furiosos contra os dois principais cabeças da guerra de agressão, o chefe do estado-maior das Forças Armadas, general Valeri Gerasimov, e o civil Serguei Shoigu. No último ataque de nervos, mostrou corpos empilhados de wagneristas e pegou pesado no discurso.

“O chefe do estado-maior e o ministro da Defesa estão dando ordens a torto e a direito para que o Wagner não apenas não receba munição, mas também transporte aéreo”, trovejou, aos berros. “Isso pode ser comparado a traição à pátria, num momento em que o Wagner está lutando por Bakhmut e perdendo centenas de combatentes todos os dias”.

Indiretamente, Prigozhin confirmou informações dos militares ucranianos sobre o inacreditável número de mortos provocado por uma batalha sem grande valor estratégico. Confirmando o desprezo pela vida de seus próprios combatentes, uma triste característica russa, os comandantes de Prigozhin mandam uma primeira onda de convocados nas prisões. Inevitavelmente, são todos mortos. Daí vem a segunda onda. Todos mortos. Eventualmente, conseguem cansar a defesa ucraniana e avançar, em alguns casos distâncias tão ridículas, considerando-se as baixas, como um metro ou até 50 centímetros.

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Conquistar Bakhmut virou questão de honra para Prigozhin – e agora também questão de sobrevivência política. Ele só pode se safar dos ataques aos dois homens mais importantes da estrutura militar se tiver algo muito bom para mostrar.

Manter a cúpula militar em estado de insegurança é uma antiga tática comunista, do período em que comissários políticos vigiavam e controlavam todos os oficiais, por mais estrelas vermelhas que tivessem nos ombros. Mas chamar de traidores Gerasimov, deslocado para o comando direto da guerra na Ucrânia, e Shoigu, um raro amigo de Putin, companheiro de pescarias pela imensidão siberiana em tempos menos complicados, é demais até pelos velhos padrões stalinistas.

Se os dois principais responsáveis pelo comando da guerra são “traidores”, o que os russos comuns podem pensar? Que o mundo construído por Putin obviamente está desmoronando.

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O racha público e notório acontece num momento de alta volatilidade da guerra que completa um ano amanhã. Putin quer passar a imagem de que tudo vai bem na “operação especial” e a Rússia não está nem aí para as sanções ocidentais. Para o público estrangeiro, quer foco na mensagem – puramente chantagista – de que o apoio à Ucrânia pode desandar para uma guerra nuclear.

Como conciliar isso com imagens de pilhas de corpos e um homem furibundo falando insanidades?

Todos os militares, de qualquer país ou qualquer filiação, simplesmente abominam as chamadas interferências externas. Ouvir xingamentos de um ex-presidiário e ex-cozinheiro não melhora muito esse estado de espírito.

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Prigozhin não pode terminar bem, pois nesse caso a cúpula militar russa terá terminado mal.

Vários blogueiros militares, que são todos de linha duríssima, apoiam o chefe do Wagner e acham que as forças regulares estão mal comandadas.

“A alta cúpula está sabotando a ofensiva russa (em Bakhmut)”, escreveu um deles. “A missão de todo blogueiro russo agora é levantar esta questão da forma mais estrondosa possível, para lhe dar prioridade máxima. Caso contrário, seremos todos cúmplices nesse processo diabólico que tem por intuito exterminar a vitória russa”.

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A coisa está feia. E a existência de uma hierarquia paralela só a torna pior. 

Se não for controlada, quanto tempo demoraria para que wagneristas desesperados começassem a trocar balaços com soldados regulares, brigando por material bélico que julgam estar sendo sonegado a eles?

Não seria uma briga fácil. Calcula-se que os wagneristas têm de 20 mil a até 50 mil homens na Ucrânia, incluindo os ex-militares que são contratados para formar o grosso do grupo e os infelizes recrutados nas prisões que se dispõem seis meses na frente de combate em troca de um indulto.

O grupo se chama Wagner por causa do nome de guerra de seu fundador original, Dimitri Utkin, um admirador do compositor alemão e da ideologia ultranacionalista no espectro da eslavofilia. Estará seu líder atual ouvindo a quarta parte da mais estrondosa ópera de Wagner, sobre o crepúsculo dos deuses?

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