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Quem perde com o acordo do Irã? Para começar, os próprios iranianos

Para Israel, é um ‘pesadelo’, na definição de senador americano, mas o preço realmente pesado recai sobre os que ousaram esperar mudanças

Por Vilma Gryzinski 25 Maio 2026, 06h45 | Atualizado em 25 Maio 2026, 06h57
Quem perde com o acordo do Irã? Para começar, os próprios iranianos Priorize VEJA no Google

“Não temos mais esperança em Trump, vamos ter que derrubar a República Islâmica nós mesmos”. Esta foi uma das reações que conseguiram driblar o bloqueio de internet e chegar ao exterior, indicando uma resposta unânime: os iranianos que ansiavam pela queda do regime são os maiores derrotados pelo acordo com os Estados Unidos, ainda em fase de finalização, mas com as bases amplamente divulgadas.

“Nós, o povo do Irã, não queremos um cessar-fogo de 60 dias”, disse outro cidadão comum. Mais um desiludido: “A notícia sobre o acordo mostra que o povo se tornou vítima da política”.

O site The Times of Israel também encontrou reações similares, através de contatos feitos via exilados com anônimos dentro do paˆs. “A guerra não chegou a sua conclusão final”, disse um homem identificado apenas como Arash. “Selar a paz com esses criminosos significa entregar o futuro de volta a eles. Eles vão recompor forças e voltar a nos massacrar”.

Outro depoimento: “Só 10% dos iranianos ainda apoiam o regime. Se você andar pela rua, vai ver como as pessoas comuns estão revoltadas com os que continuam no poder. Espero que Trump e Netanyahu façam alguma coisa por elas”.

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‘TUDO POR NADA’

Donald Trump, obviamente, não vai fazer: optou por um acordo fraco que, em alguns aspectos, recompensa os opressores do povo iraniano em troca da abertura do Estreito de Ormuz (que não estava fechado antes da guerra) e de uma futura solução para o urânio enriquecido. Benjamim Netanyahu, se pudesse, jamais endossaria um acordo assim, mas o fato é que não pode. O acordo é prejudicial para Israel, segundo o senador Lindsey Graham. Aliadíssimo de Trump e defensor dos bombardeios contra o Irã, o senador fez uma análise brutal:

“Se foi feito um acordo para terminar o conflito iraniano porque se acredita que o Estreito de Ormuz não pode ser protegido do terrorismo iraniano e o Irã ainda tem capacidade de destruir importantes infraestruturas petrolíferas do Golfo, então o Irã será visto como uma força dominante”.

“Esta combinação entre o Irã ser visto como detentor da capacidade de aterrorizar o Estreito perpetuamente e a de causar danos à infraestrutura petrolífera do Golfo representa uma grande mudança no equilíbrio de poder na região e, ao longo do tempo, seria um pesadelo para Israel”.

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Outro senador republicano, Roger Wicker, concordou que o acordo é “um desastre” e acrescentou: “Tudo o que a Operação Fúria Épica conseguiu terá sido por nada”.

CÁLICE DE VENENO

O senador Ted Cruz levou adiante o racha interno com outra análise inclemente, dizendo que se o resultado da campanha de bombardeios for “um regime iraniano – ainda dominado por islamistas que entoam ‘Morte à América’ – recebendo bilhões de dólares, sendo capazes de enriquecer urânio e desenvolver armas nucleares, além de ter o controle efetivo sobre o Estreito de Ormuz, então tudo terá sido um erro desastroso”.

É possível argumentar que Trump foi corajoso ao desafiar a linha mais dura de seu próprio partido, sem contar a base, onde estão acontecendo muitas manifestações de revolta, mas os pontos do acordo favoráveis ao regime iraniano não endossam uma visão otimista. Tudo terá outra perspectiva de realmente o Irã realmente concordar em entregar o urânio enriquecido com o qual poderia fazer armas nucleares, mas ainda faltam garantias elementares de que isso acontecerá.

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Como tática de negociação, aceitável, a questão do urânio foi isolada numa espécie de caixa à parte, ainda a ser discutida. A posição do Irã tem sido a de total recusa em abrir mão do material físsil. Irá mudar?

Por enquanto, pelo que se conhece do acordo, os Estados Unidos saem enfraquecidos, os países árabes do Golfo têm motivos para confiar menos na proteção americana, Israel tem que engolir um cálice de veneno – como, ironicamente, disse o aiatolá Khomeini ao encerrar a guerra com o Iraque nos anos oitenta – e os milhões de iranianos que ansiavam por uma nova forma de governo terão que continuar a esconder a cara e assistir em silêncio a execução na forca dos manifestantes acusados de atos violentos, uma barbárie que não parou nem no auge da guerra, sinal da brutalidade e opressão do regime.

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