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Quando a política envenena famílias: uma história de tristes confrontos

Dos Kennedy aos Fujimori, disputas entre cônjuges e outros familiares romperam o pacto de sangue que deveria imperar em relações familiares

Por Vilma Gryzinski 14 jul 2026, 07h13 | Atualizado em 14 jul 2026, 07h13
Quando a política envenena famílias: uma história de tristes confrontos Priorizar nos meus resultados Google

“Se ele não tivesse sido presidente, teríamos tido um casamento e uma família modelo”, disse certa vez Susana Higuchi sobre o mais conturbado relacionamento entre marido e mulher da história política recente. Como Alberto Fujimori foi presidente, incluindo período de autocracia, nada foi modelo no relacionamento familiar.

Ela rompeu escandalosamente com o marido e tentou enfrentá-lo nas urnas, embora nunca tenha chegado a concorrer. Os filhos Kenji e Keiko, que toma posse como presidente no próximo dia 28, também brigaram muito, ampliando o paradigma de família dividida pela política, com a mistura de ambição e ressentimento que costuma evocar duas comparações, com Shakespeare e com os reality shows baseados em conflitos como só parentes podem ter.

O motivo da ruptura, em 1992, foi aparentemente banal: Susana disse que irmãos e cunhadas do presidente estavam desviando donativos do Japão aos peruanos necessitados. “Só deixam os trapos”, queixou-se ela.

Os acontecimentos se precipitaram a partir daí. Susana passou a dar entrevistas constantes, Alberto substituiu-a como primeira-dama pela filha Keiko, na época com 19 anos. Num dado momento, ela fundou um partido político e pretendeu se candidatar a presidente, tal como todos os outros Fujimori mencionados. Fez greve de forme e denunciou ter sido presa e torturada pela polícia secreta chefiada pelo sinistro Vladimiro Montesinos, depois que o ex-marido fechou o Congresso, onde havia uma tentativa de investigar a corrupção denunciada por Susana, e deu um autogolpe. Só deixou o poder no ano 2000, forçado a renunciar pelo escândalo do vídeo em que Montesinos aparecia subornando um deputado de oposição.

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Com a mistura de tragédia e farsa, os Fujimori viraram sinônimo de família tóxica, aquelas que não resistem ao estrago que a tentação do poder provoca em tantos corações.

LIVRO DA VINGANÇA

Outro caso na história recente envolvendo marido e mulher brigando em público aconteceu durante a presidência de François Hollande – e até mesmo antes dela, pois ele quis disputar a presidência com sua ex-esposa, Ségolène Royal. Quando chegou sua vez, Hollande administrou o quanto deu a união com a jornalista Valérie Trierweiler e o caso secreto com a atriz Julie Gayet.

Quando não deu mais – ele foi fotografado na garupa de um segurança chegando na casa da amante –, o escândalo teve proporções de pastelão. Valérie tomou remédios, numa tentativa não muito convincente de “apagar” a humilhação em escala nacional. Depois, recorreu a um instrumento clássico: escreveu um livro para se vingar. Como Hollande, fora o estranho fascínio que exerce sobre mulheres que normalmente não estaria na sua liga, não é nenhum vilão, o pior que ela achou para dizer foi que ele chamava de “desdentados” os eleitores mais pobres aos quais, como socialista, deveria venerar.

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O que falta de tragédia shakespeariana para Hollande, que agora tenta um improvável retorno à política, sobra para os Kennedy. Mesmo quando se mostram mesquinhos e vingativos, sem nada do mito de grandeza criado em torno da família. A maior briga hoje coloca o clã quase que unanimemente em choque com Robert Kennedy Jr., secretário da Saúde e aliado de Donald Trump, para desgosto e revolta dos parentes completamente fieis ao Partido Democrata.

Caroline, filha de Jacqueline e John Kennedy, rompeu o silêncio político em que vive para apunhalar o primo de forma irreversível: quando a nomeação dele passava pelo crivo do Senado, ela escreveu uma carta pedindo que o endosso fosse rejeitado. Acusou Bobby Jr. de ser um “predador”, de lucrar com suas posições de comparativa relutância em relação a vacinas e de ser uma vergonha para a família.

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REAÇÕES TÓXICAS

Outros membros do clã, incluindo o filho dela, Jack Schlossberger, tão bonito quanto desequilibrado, criticam Bobby Jr. em termos mais violentos ainda.

A segunda mulher de Bobby Kennedy Jr., Mary Richardson, cometeu suicídio por enforcamento quando o nada amigável divórcio do casal estava em andamento. Existe vingança maior?

Famílias divididas pela política fazem parte da tradição americana desde que William, filho de Benjamin Franklin, um dos mais conhecidos patriarcas da república americana, além de inventor genial, manteve-se leal à coroa britânica e foi contra a independência. Chegou a ser preso e depois se mudou para a Inglaterra, sem nunca se reconciliar com o pai.

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Nem Benjamin Franklin escapou das reações químicas tóxicas que acontecem quando poder, ambição, ideologia e relações familiares estão envolvidas.

Keiko Fujimori se reconciliou com a mãe, morta em 2021. Tem o direito de deixar para trás o tumultuado passado familiar. E, acima de tudo, o dever de fazer um bom governo, depois de ser eleita, por uma pequena diferença, na quarta tentativa. Ou pelo menos de introduzir uma certa estabilidade no país, com seus oito presidentes nos últimos dez anos, numa espécie de autofagia constante e destruidora. Um pouco menos de drama, familiar e político, seria bom para o país.

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