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Qual o país latino-americano que está controlando a inflação? Venezuela

Pequenas aberturas na pior economia do mundo ocidental, inclusive a devolução de propriedades expropriadas, desaceleram desastre

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 24 Maio 2022, 21h31 - Publicado em 24 Maio 2022, 07h40

Encolhimento trágico da economia, hiperinflação, cortes de mais zeros na moeda nacional do que a maioria dos venezuelanos consegue lembrar (14, ao todo) e colapso na extração do ouro negro que deveria desenvolver o país produziram o desastre que transformou a Venezuela em sinônimo de catástrofe provocada pelo homem.

Ou, mais especificamente, por Hugo Chávez, o iniciador da trajetória rumo ao desastre histórico sem precedentes num país em tempo de paz. 

Seu seguidor e sucessor Nicolás Maduro fez tudo igualzinho – até que começou a perceber a raiz da desgraça. Não que tenha mudado de discurso, mas a introdução de pequenas reformas menos delirantes do que tudo o que foi feito durante o chavismo, incluindo a aceitação do dólar nas transações comerciais e algumas desregulamentações, tem dado resultados positivos.

Por exemplo, a inflação em 2021 foi de 686%; um resultado de apavorar qualquer mortal se não fosse medido contra os precedentes – 130.000% em 2018. Em abril, a inflação anualizada foi de 222%; a acumulada no ano, 16,3%, praticamente um milagre.

Até a produção de petróleo, destroçada pelo aparelhamento, a corrupção e a insanidade administrativa da PDVSA, voltou a passar de um milhão de barris diários no fim do ano passado. Ainda longe dos mais de três milhões do auge, mas muito melhor do que o buraco aparentemente sem fundo onde o regime. O Irã, outro pária, está recuperando refinarias no país.

O governo Biden, depois de aliviar algumas das sanções contra Venezuela e Cuba, disse que não vai comprar petróleo venezuelano de jeito nenhum. Mas a guerra na Ucrânia pode criar mais emergências ainda e tornar o madurismo, disposto a negociar, um pouco menos impalatável.

No amor e na guerra, vale tudo. Ou na luta pela sobrevivência. A própria, evidentemente.

Um dos sinais mais emblemáticos do reajuste de rumo aconteceu em março, quando o governo devolveu aos proprietários originais o Centro Comercial Sambil La Candelaria, expropriado por Chávez em 2008, pouco antes de sua inauguração.

“Não, não e não”, decretou Chávez ao mandar a prefeitura tomar o shopping para “não colapsar o centro de Caracas” .

“Como vamos fazer o socialismo entregando os espaços vitais do povo ao Sambil ou a esse comércio desmesurado, consumista?”.

Só faltou dizer que tinha gente querendo comprar mais de uma televisão por casa.

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É claro que, em vez de transformar o shopping em hospital ou universidade, como prometido, o espaço, usado eventualmente para acolher desabrigados por desastres naturais, deteriorou-se como todo o resto do país, desde o centro de Caracas – que entrou em colapso por obra do chavismo – até os rincões mais remotos, arrastados pelo cataclisma social que levou mais de seis milhões de venezuelanos a fugir para o exterior.

A família Cohen, proprietária do shopping, excepcionalmente não aderiu ao novo êxodo, embora tenha dirigido as obras de sua construtora para outros países durante o período mais profundo das trevas.

Outras devoluções de propriedades expropriadas, negociadas pela Comissão de Diálogo, Paz e Reconciliação da Assembleia Nacional (cuja eleição foi repudiada pela maioria da oposição), inclui hotéis e propriedades rurais.

O processo abrange proprietários originais ou investidores que se interessem pela reconstrução de bens deteriorados. O antigo Caracas Hilton, por exemplo, já está sendo recuperado. Treze empresas de alimentação pertencentes ao Estado, com os conhecidos resultados, estão sendo administradas pela iniciativa privada.

Em tom algo alarmado, o El País exagerou: “Uma nova realidade neoliberal surge em meio ao chavismo pelo uso do dólar, o relaxamento dos controles do Estado e a aproximação com os Estados Unidos”.

“Até há pouco, os venezuelanos escondiam os dólares porque era delito obtê-los fora da vigilância estatal. Era preciso fazer horas de fila para comprar comida racionada a preços regulados e faltava o bolívar, a moeda nacional. O panorama agora é outro. O uso do dólar como moeda corrente, a suspensão do controle de preços e as importações livres de impostos mudaram a realidade em que até agora os venezuelanos tentavam subsistir”.

A abertura está produzindo números surpreendentes. A Cepal prognosticou para a Venezuela o maior crescimento da América do Sul para este ano: 5%. É claro que o patamar do qual o país parte é profundamente deprimido. O PIB encolheu nada menos que 65% durante o chavismo.

Entre outros sinais de que talvez não seja tão delirantemente alienado da realidade, Maduro ao longo do último ano conversou com enviados do governo Biden, fez uma abertura para a Chevron explorar o petróleo que os bolivarianos não conseguem extrair e aceitou uma negociação com oposicionistas patrocinada pelo México.

Há indícios de uma renovação no próprio regime, com caras novas, como o presidente do Banco Central, Calixto Ortega, engenheiro de 38 anos com mestrado em Columbia. 

Como insanidade política é uma doença quase incurável, Maduro pode prejudicar a recuperação que ele mesmo impulsionou com um imposto sobre operações com dólar – um reforço de caixa do governo.

Nenhuma terapia de choque para recuperar a economia de um país que precisa ser reconstruído inteiramente está no horizonte, embora o choque da terapia usada até agora não seja desprezível.

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