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Príncipe enrascado: processo ligado a pedófilo vai espalhar mais lama

Andrew não tem mais reputação a perder, mas ainda pode prejudicar a mãe na comemoração de 70 anos de reinado e desmoralizar a monarquia

Por Vilma Gryzinski 13 jan 2022, 07h21

Se um republicano fervoroso quiser fazer campanha contra o regime monarquista no Reino Unido, não precisa fazer esforço nenhum. Basta dizer duas palavras: príncipe Andrew.

O filho favorito da rainha Elizabeth conseguiu ligar um regime que sobrevive contra todas as possibilidades, em pleno século XXI, ao que provavelmente é o pior crime de todos: a pedofilia.

Ao se relacionar com Jeffrey Epstein – ele interessado em dinheiro, o bilionário em prestígio e influência -, Andrew se colocou na situação onde está hoje: no centro de uma ação indenizatória movida nos Estados Unidos por Virginia Roberts Giuffre.

O juiz do caso, Lewis Kaplan, não aceitou a alegação dos advogados contratados por Andrew – e pagos pela rainha – de que Virginia havia feito, no passado, um acordo judicial com Epstein pelo qual o bilionário que gostava de meninas e adolescentes concordou em pagar 500 mil dólares a ela. Em troca, Virginia se comprometia a não processá-lo pelos anos em que passou sendo sua “namorada número 1”.

Os advogados alegavam que o acordo monetário se estendia a nomes do círculo de convivência de Epstein. O juiz não engoliu o argumento.

De todas as personalidades envolvidas na saga, Andrew talvez seja o menos interessante. Excetuando-se os privilégios conferidos por seu nascimento, ele chegou aos 61 anos vivendo da fama de ser filho de quem é e do breve período em que, como piloto da Marinha, participou de operações contra os argentinos na Guerra das Malvinas.

Foi dessa fase que tirou uma alegação inacreditável: o excesso de adrenalina despejado em seu organismo numa dessas missões o deixou incapacitado de transpirar.

A suposta anidrose, ou ausência de suor, tornou-se um tema relevante depois que Virginia, hoje com 38 anos, deu detalhes sobre a primeira vez em que foi levada por Epstein e sua cúmplice, Ghislaine Maxwell, a fazer sexo com o príncipe, em Londres (houve mais duas, segundo ela, uma em Nova York e outra na ilha particular do bilionário).

Virginia diz que saíram para jantar e dançar e se lembra que o príncipe “suava copiosamente em cima de mim” .Foi por esse detalhe que Andrew achou relevante evocar a suposta incapacidade de transpiração. A alegação foi feita numa entrevista à televisão em que ele se saiu tão catastroficamente mal que perdeu seu lugar nos compromissos oficiais da família real. 

O processo indenizatório nos Estados Unidos provavelmente vai fazer com que perca também os postos honoríficos que ainda mantém em corporações das forças armadas, uma tradição para os membros da realeza britânica que agora se torna altamente incômoda para os patrocinados.

Jeffrey Epstein, um ex-professor de matemática de segundo grau que ganhou sua fortuna como gestor de outros milionários, embora ninguém o conhecesse direito em Wall Street, era um “colecionador de famosos”. Usava as mordomias que podia proporcionar – além do harém de adolescentes do qual se cercava – e a carteira aberta para doações beneficentes como forma de atrair uma quantidade extraordinária de nomes do primeiríssimo time. Bill Clinton, Bill Gates, Stephen Hawking, o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak, são alguns exemplos.

A suspeita de que ele usava câmaras secretas para filmar convidados desfrutando os “serviços” das adolescentes a seu dispor inclui, apesar das provas zero, a suposição de que trabalhasse para a inteligência israelense.

Não seria uma novidade para Ghislaine (pronuncia-se Guisleine), a  mulher que usava para circular na sociedade, em público, e em particular para recrutar, treinar e controlar as meninas exploradas para massagens eróticas e outros serviços sexuais.

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Ghislaine, condenada no fim do ano por tráfico sexual e ofensas correlatas, é filha de Robert Maxwell, outro personagem que parece inventado. Nascido na antiga Checoslováquia, ele mudou o nome original judeu, Jan Hoch, quando fugiu do nazismo e iniciou na Inglaterra uma vida que o levou a combater na II Guerra, fazer fortuna no ramo das editoras e dos tablóides, ser membro do Parlamento e agente secreto a serviço de Israel, usar o fundo de aposentadoria de seus empregados para cobrir um rombo de 500 milhões de dólares nos negócios e declarar falência quando tudo deu errado. 

Em novembro de 1991, caiu, jogou-se ou foi jogado de seu iate, o Lady Ghislaine. Foi enterrado no Monte das Oliveiras, em Israel, com todas as honras – apesar da boataria que corre até hoje de que foi uma queima de arquivo do Mossad.

Maxwell era um monstro que surrava impiedosamente os filhos que não respondessem certo a suas perguntas sobre política e acontecimentos contemporâneos na hora do jantar. A caçula Ghislaine era a exceção. Com o status proporcionado pelo dinheiro e a influência do pai, ela estudou em Oxford, aprendeu a pilotar helicóptero e passou a circular no topo da sociedade. Daí os contatos com nomes coroados como Andrew, que Epstein explorou habilmente quando Ghislaine foi morar em Nova York, já sob a sombra da falência e da morte/suicídio do pai.

Numa coincidência que nenhum psicólogo de boletim deixa passar, ela se apaixonou por um homem manipulador, milionário e pervertido. 

Andrew entrou na história por um motivo mais banal: dinheiro. Quem vê a família real acha que tem uma fortuna infinita, mas Andrew, sem um patrimônio pessoal como o do irmão mais velho e herdeiro do trono, Charles, não tem recursos próprios. Fora a pensãozinha da Marinha, até hoje é sustentado pela mãe. Ganha, de recursos privados da rainha, o equivalente a 320 mil dólares por ano, muito para os mortais comuns, pouco para se acostumou com privilégios caríssimos.

“Morder” milionários que se deslumbram com a linhagem e o título do duque de York, um filho da rainha, virou um hábito, através de empréstimos em dinheiro ou mordomias como jatinhos e mansões para férias. Além de suas próprias necessidades, Andrew carrega o carma da ex-mulher, Sarah, uma gastadora compulsiva com quem ele se entende bem a ponto de continuar a morar na mesma casa, um palacete de 30 cômodos num anexo do Castelo de Windsor.

Dizem que foi para cobrir um empréstimo que Sarah não podia pagar que foi a Nova York se encontrar com Jeffrey Epstein mesmo depois que o milionário americano já havia sido exposto – e condenado – como explorador de menores.

Dizem também que Epstein não fez nada para impedir os fotógrafos que faziam campana em frente a sua mansão de Nova York – a maior da cidade. E que não ficou nada aborrecido com a foto de dezembro de 2010 em que aparece conversando animadamente com o príncipe no Central Park. Se não armou a foto, teve tudo a ganhar com ela. Andrew, em compensação, teve tudo a perder.

Não só sua capacidade de discernimento como sua posição na família real começar a ruir a partir daí. Outra foto, em que aparece enlaçando pela cintura uma Virginia Roberts de 17 anos, com Ghislaine Maxwell rindo ao fundo, se tornou praticamente uma prova do crime quando ela passou a acusá-lo de abuso.

Quando Epstein foi preso de novo e, dramaticamente, se suicidou na cadeia, em agosto de 2019, Andrew voltou a ser assunto do pior jeito possível. Incentivadas pela possibilidade de ganhar indenização tirada da fortuna que ele deixou para o irmão, jovens de vários pontos dos Estados Unidos e até de outros países surgiram com novas denúncias contra o abusador e Ghislaine Maxwell.

Receber indenização também é uma forma de justiça. Os advogados de Andrew insinuam que Virginia Roberts Giuffre está interessada apenas em “mais um pagamento”. Mesmo se fosse verdade, ela teria esse direito. Dos 14 aos 18 anos, segundo seus relatos, foi cooptada como parceira sexual de Epstein, de Ghislaine e de uma série de homens que frequentavam o bilionário pervertido.

Isso tudo deve ser exposto em detalhes se o processo contra Andrew for adiante, coincidindo com o ano em que a rainha festejará sete décadas de reinado, uma espécie de despedida em grande estilo – não fossem os problemas criados pelo filho.

Andrew, obviamente, não irá aos Estados Unidos, mas continuará a criar um foco de notícias negativas e constrangedoras para toda a família e a própria monarquia, um sistema arcaico que sobrevive porque a opinião pública valoriza uma tradição de mil anos e se considera bem representada pela família real. 

A única alternativa seria um acordo entre as partes para o pagamento de uma indenização (Cinco milhões? Dez milhões?), sem que o caso tivesse que ir adiante. Nos Estados Unidos, 95% desses processos terminam assim. Mesmo que não seja verdade, equivale praticamente a uma confissão de culpa. O príncipe continuará encrencado com qualquer alternativa.

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