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Vilma Gryzinski Mundialista Por Vilma Gryzinski Se está no mapa, é interessante. Notícias comentadas sobre países, povos e personagens que interessam a participantes curiosos da comunidade global. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Praga: o lugar onde 1968 acabou para sempre, graças aos céus

Apesar das celebrações o maoísmo derrotado há 50 anos em Paris e adjacências, o que conta é que a reprimida Checoslováquia venceu em 1989

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 4 jun 2018, 12h26 - Publicado em 4 jun 2018, 07h10

Demonstrando que a idade nem sempre traz juízo, septuagenários do tipo que não tira a boina da cabeça comemoram os cinquenta anos das manifestações de maio de 1968 em Paris, além de diferentes tipos de protestos em outros lugares do mundo, como se tivessem sido uma vitória revolucionária.

Como é típico do pessoal de boina, passam correndo, quando passam, pelo mais amplo, emocionante, perigoso, massacrado e,  numa fenomenal guinada histórica, finalmente vingado movimento daquele ano: a liberalização da Checoslováquia durante os sete primeiros e embriagantes meses de 1968.

A ideia de que um país comunista pudesse ser reformado, inclusive ou principalmente para melhor, comprovou-se totalmente errada.

Qualquer mínima alteração no edifício ao autoritarismo, à infernal e burocrática máquina do estado, ao imobilismo, à ineficiência e à vigilância policialesca de todos os desvãos da sociedade criada pelo império soviético, em suas fronteiras e seus satélites, desabaria o prédio inteiro.

Mikhail Gorbachev viu isso aconteceu quando tentou “melhorar” o comunismo e os primeiros a saltar fora do barco foram os estados-vassalos.

A derrubada do Muro de Berlim foi o símbolo mais poderoso dessa derrocada, mas em nenhum outro país o grito de liberdade e independência teve nome mais bonito do que na Checoslováquia.

A revolução de veludo, ou sametová revoluce, completou o arco histórico iniciado em janeiro de 1968, com a eleição de um comunista convicto e idealista, Alexander Dubcek, e uma nova leva de dirigentes dispostos a eliminar a censura, liberar a imprensa, permitir a livre expressão e, em meio às eternas e ingênuas discussões do gênero, debater como dinamizar a economia para competir com o capitalismo.

Dubcek era ideologicamente tão puro que Leonid Brejnev, o poderoso manda-chuva e raios soviético, permitiu que a experiência avançasse durante alguns meses, contra promessas de que os dogmas não seriam minimamente alterados.

Filho de pais eslovacos tão comunistas que, dos Estados Unidos, para onde haviam emigrado, foram para a União Soviética, nas lonjuras do Quirguistão, construir o socialismo, Dubcek foi criado desde pequeno como um autêntico “homem novo”.

Era, para os russos da cúpula comunista, o “nosso Sacha”. Por isso, Brejnev tinha lágrimas nos olhos quando o viu em Moscou, depois de ser preso pela polícia política soviética em Praga, levando uma coronhada de fuzil, e embarcado no mesmo avião que havia trazido 100 agentes secretos para desmantelar o coração político e intelectual da experiência de abertura.

“Eu confiei em você. Como pode nos trair?”, gritou o homem que, com a invasão da Checoslováquia, deixaria o próprio nome para sempre ligado à “doutrina Brejnev”: o vassalo que saísse da linha no cinturão de satélites da Europa Oriental, seria devidamente trazido de volta a ela.

A demonstração de poder dada por Brejnev foi avassaladora: 250 mil soldados soviéticos, de um total que chegaria a meio milhão, foram deslocados para a Checoslováquia em 20 de agosto.

Para dar a impressão de movimento unido, havia a participação simbólica de tropas de quatro “aliados” do Pacto de Varsóvia: Bulgária, Hungria, Polônia e Alemanha Oriental.

Na madrugada de 21 de agosto, o país estava dominado.

A resistência não foi pacífica, ao contrário da mitologia criada a respeito. Com os militares devidamente cercados em seus quartéis pelos invasores, a população civil saiu em massa às ruas, sem nada nas mãos a não ser a revolta.

Alguns atacaram os invasores assim, na raça; outros grupos aprenderam rapidamente a fazer coquetéis molotov, mas a dinâmica  gritos de protesto contra tanques tornou-se um clássico dos levantes populares.

Os ônibus estacionados às pressas nas ruas de Praga para tentar “segurar” os blindados acabaram esmagados como se fossem de brinquedo. A dramática foto acima mostra pessoas mortas debaixo de alguns desses ônibus.

Ao longo de toda a ocupação, 137 civis foram mortos. Entre os invasores, foram 110 mortes, na maioria provocadas pelo motivo mais comum de letalidade nos grandes deslocamentos motorizados contra populações desarmadas: acidentes entre veículos e blindados.

Houve também suicídios dos dois lados, o mais dramático do universitário Jan Palach, que se imolou no centro barroco de Praga em 19 de janeiro de 1969.

Oito – repetindo, oito – cidadãos soviéticos de uma coragem monumental fizeram a primeira manifestação de protesto da era comunista. Solitários em sua bravura, ergueram pequenos cartazes contra a invasão na Praça Vermelha. Alguns só foram soltos vinte anos depois.

Ao contrário dos septuagenários de boina, que passam batido pela hedionda subjugação da Checoslováquia porque acham que “nós perdemos”, jovens esquerdistas fizeram protestos em muitos países.

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Até partidos comunistas capachos, como os da Itália e da França, também protestaram.

Depois de uma semana de inferno em Moscou, Dubcek e os outros presos da cúpula foram embarcados de volta, com uma agenda a cumprir chamada “Protocolo de Moscou”: falar e fazer tudo o que, claro, Moscou mandava ou ver a Checoslováquia sofrer consequências piores ainda.

A jornalista da Rádio Praga que entrevistou Dubcek em 27 de agosto, Margita Kollarová, lembrou-se para sempre do homem alquebrado que falava em frases truncadas. A certa altura, ele travou.

“Houve um silêncio e eu não sabia o que fazer”, contou ela, anos depois. Ansiosa, fez sinal pedindo um copo d’água. O som do copo colocado na frente dele recuperou a compostura sofrida de Dubcek. “Depois de um tempo, ele recomeçou a falar. As lágrimas corriam pelo rosto dele.”

Esmagados, os checos e eslovacos, que depois se dividiriam em dois países,  passaram a praticar a usar alguns métodos de resistência pacífica. Uma das lendas urbanas mais propaladas foi a dos sinais de trânsito trocados e até de cidadezinhas inteiras que mudavam de nome – Dubcek e Svoboda, em homenagem ao presidente.

Batalhões inteiros de invasores se perdiam, numa era em que, acreditem, não existiam celulares nem navegação por satélite.

Viktor Suvorov, pseudônimo do historiador Vladimir Bogdanovich Rezun, tem uma explicação mais prosaica. A maioria dos soldados deslocados para a invasão era dos confins do império, muitos dos “lugares que criam renas”. Entendiam apenas dez palavras de comando em russo, “sendo que uma delas era ‘Hurra’”.

Ele sabe do que está falando: como oficial da inteligência militar, participou da operação Checoslováquia, exasperando-se com a ineficiência terminal de  reservistas “gordos, destreinados e indisciplinados, que tinham esquecido tudo o que sabiam”.

As tropas bem treinadas e equipadas era reservadas para o mais importante, vigiar e, se fosse o caso, “neutralizar” a massa de soldados. Quando o grosso dos invasores foi retirado, muitos foram levados direto para ser reeducados na fronteira com a China”.

O stalinismo havia acabado há vinte anos, mas não o conceito de que não existia coisa mais perigosa de que um soldado soviético “contaminado” pela experiência de conhecer  outro país, descobrindo que o paraíso operário estava na vanguarda do atraso.

Ainda mais um como a Checoslováquia, onde o gosto da liberdade havia reinado durante os sete meses da Primavera de Praga, até chegaram os “libertadores”, título de um dos livros de Suvorov, que fugiu para a Inglaterra em 1978.

“A triste lição da libertação tinha sido aprendida e todos nós entendemos que, pelos próximos dez anos, não importando o que acontecesse no mundo, ninguém ousaria nos mandar para libertar qualquer país com um padrão de vida mais alto do que o nosso.”

O movimento de renovação na Checoslováquia começou a dar os primeiros sinais há 51 anos, em junho de 1967, quando alguns escritores  que, claro, faziam parte do Sindicato dos Escritores, lançaram cautelosamente uma ideia heterodoxa.

A literatura, propunham, não devia ser subordinada aos interesses do Partido Comunista. Em outras palavras, não deveria ser censurada. Foram castigados, claro.

A revista literária da qual participavam foi transferida para o controle direto do Ministério da Cultura. Um ano depois, a onda libertária embriagava o país. Até o nome da revista literária foi mudado.

O maio de 68 na França também se originou de um pequeno protesto de intelectuais, especialmente cineastas, quando André Malraux demitiu o diretor da Cinemateca Francesa, Henri Langlois.

No primeiro protesto, em 9 de fevereiro, Jean-Luc Godard fez um discurso e no empurra-empurra, quebrou os óculos. “O discurso dele incluía a palavra ‘encriers’ (tinteiros), sabe deus por quê”, relembrou Stephen Frears, o diretor inglês que estava presente por acaso, sem entender nada do que estava acontecendo.

Godard virou um dos figurões de maio de 68, representando a confluência de maoístas, trotsquistas, anarquistas e outros istas que, num país livre de democrático como a França, pregavam uma revolução radical.

No conforto da Rive Gauche, cercados por tudo o que de melhor a civilização ocidental já produziu, os “soixantehuitards” viam na China da Revolução Cultural, o falso nome do movimento usado por Mao Tsé Tung para eliminar todas as lideranças comunistas e o mais mínimo sinal de vida intelectual, um paradigma.

Achavam, muitos sinceramente, que era um progresso, um levante das bases, dos jovens que colocavam chapéus de burro na cabeça de seus professores, contra a ordem instituída.

No esplendor barroco de Praga, sufocado pela tirania, os checos e eslovacos que aderiram à primavera da liberdade queriam simplesmente o que o pessoal da Rive Gauche sempre teve.

Colocar os dois movimentos como se fizessem parte do mesmo conjunto ideológico-cultural, porque aconteceram em 1968, é um ato de astrologia intelectual.

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