Poderá Nicolás Maduro ter um julgamento correto nos Estados Unidos?
A data está marcada – junho de 2027 –, o advogado é bom e os direitos básicos estão sendo preservados, como mostram as fotos do ex-tirano magrinho
Tudo é único no caso de Nicolás Maduro – inclusive o estranho resultado de sua captura, que não desmanchou o regime chavista, embora a sucessora legítima, Delcy Rodríguez, seja amplamente considerada uma colaboradora dos Estados Unidos. Nem o precedente de Manuel Noriega, o valentão panamenho expurgado do poder e levado para os Estados Unidos, se compara. Terá Maduro um julgamento aceitável, embora os métodos para levá-lo à penitenciária em Nova York sejam debatíveis? Irá virar uma celebridade com sinal invertido, como aconteceu com Luigi Mangione, o assassino de um executivo de plano de saúde? Poderá falar e defender sua tese de que é um chefe de Estado ilegitimamente apreendido?
Tudo isso pode acontecer a partir de junho do próximo ano, quando começa o julgamento, dele e da mulher, Cilia Flores, por transformar a Venezuela numa plataforma de tráfico de drogas para os Estados Unidos, inclusive com a colaboração das Farc, a guerrilha colombiana que virou especialista em movimentar grandes quantidades de narcóticos.
Maduro será representado por um dos mais conhecidos criminalistas dos Estados Unidos, Barry Pollack, que já defendeu Julian Assange no caso WikiLeaks. Quando um advogado do nível de Pollack entra em campo, é garantido que o caso será vasculhado microscopicamente em busca de fragilidades que poderiam produzir o impossível: a absolvição do réu.
As fotos divulgadas através de terceiros mostram que a vida no Centro Metropolitano de Detenção, no Brooklyn, não está sendo insuportável para Maduro. Ele está até mais magro, embora com aparência saudável, com um toque elegantemente grisalho no cabelo. Como não é incomum entre presos, também está apelando a um discurso fortemente influenciado por ideias religiosas.
“Quero que saibam que estamos firmes, com o coração cheio do amor de vocês, este amor que nos chega convertido em oração, em ação permanente, em solidariedade e em apoio verdadeiro. Agradecimentos infinitos por cada palavra, por cada gesto, por cada bênção”, escreveu ele na mensagem divulgada em sua conta. Indiretamente, através de visitantes ou das pessoas com quem tem direito a até 300 minutos de conversa por telefone por mês. Diretamente, não pode ter acesso a nenhum dispositivo.
MOLETOM FASHION
Apesar dos agradecimentos comovidos, o fato é que Maduro está cada vez mais esquecido, inclusive pelos partidários que continuam no poder. Delcy Rodríguez parou de pedir a libertação do “refém” e agradeceu os Estados Unidos pelo plano que investimentos que dará acesso a uma parte das prodigiosas reservas venezuelanas de petróleo. Ela manifestou “alta gratidão” a Trump e ao secretário de Estado, Marco Rubio, pelo “marco histórico nas relações bilaterais”.
Os investimentos na casa dos 100 bilhões de dólares representam o “renascimento” da Venezuela, elogiou.
Desdobra-se assim o estranho plano de Trump: a captura de Nicolás Maduro não foi seguida pelo desmanche do regime, este se refez à imagem de Delcy Rodríguez, a transição para a democracia não tem sequer um calendário e pontos positivos, como a libertação de presos políticos, não alteram o fato de que “os de sempre” continuam no poder, mesmo que com alguns reajustes, especialmente na esfera militar. Delcy se cercou de nomes mais fieis, em princípio. Maduro nem é mais mencionado.
Quando era o todo-poderoso, o venezuelano ironizava o emagrecimento em massa da população pela ineficiência terminal do governo em prover o abastecimento de comida. Usava até uma palavra de conotação sexual, sobre a “dieta de Maduro” e seus efeitos sobre o organismo masculino. Rima com o sobrenome dele.
Hoje, ele está mais saudável e seus conjuntos de moletom fornecidos pelo governo sempre são comemorados como itens fashion. A dieta de Maduro na cadeia do Brooklyn é melhor que Mounjaro.
Mas quando irão os venezuelanos ter o mínimo da justiça por que clamam?







