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Mundialista

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Poderá a Alemanha fraquejar com a Rússia por medo de ficar sem gás?

O novo primeiro-ministro, Olaf Sholtz, faz um esforço para parecer enérgico na questão da Ucrânia, mas é pouco convincente

Por Vilma Gryzinski 20 jan 2022, 07h24

“As fronteiras não podem ser mudadas pela força” e “ficar em silêncio não é uma opção sensata”. Isso foi o máximo que Olaf Sholz, o substituto de Angela Merkel na chefia do governo alemão, conseguiu dizer em relação aos 130 mil homens que Vladimir Putin colocou na fronteira com a Ucrânia para obrigar o país a não entrar para a aliança militar ocidental.

São obviedades quase desdentadas. Alguém minimamente civilizado suportaria fronteiras desmanchadas por intervenção militar em plena Europa? Ou não abriria a boca diante da escandalosa exibição de força da Rússia?

Putin está pagando para ver quem enfrenta o seu desafio. Tem bons motivos para achar que a Alemanha vai tremer e admitir concessões mascaradas como acordos diplomáticos.

Os bons motivos têm um nome: Nord Stream 2. É o gasoduto que, vindo pelo Mar Báltico, despejará diretamente na Alemanha o gás natural que o país precisa para continuar, literalmente, aceso e aquecido.

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Com um instrumento estratégico dessas dimensões, Putin aposta que a Alemanha vai vacilar na resistência diplomática e, caso o pior aconteça, militar. A Alemanha já depende do gás russo para pelo menos 35% de seu abastecimento (os números são deliberadamente opacos). Com o Nord Stream 2, a dependência vai aumentar.

A situação não é nada fácil para a Alemanha. Por que arriscar o desabastecimento de um produto vital por causa da Ucrânia e sua complicada relação com a Rússia? Por que não admitir, reservadamente, “eles que são russos que se entendam”?

O próprio Joe Biden, ainda no fim do governo Merkel, cedeu e recuou nas sanções que remetiam a 2014, quando a Rússia simplesmente anexou a Crimeia, um território ucraniano que os russos nunca deixaram de desejar que voltasse ao seio da mãe pátria.

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Angela Merkel também foi contra, discretamente e com a vantagem de sua estatura política, o fornecimento de armas para a Ucrânia, uma atitude agora repetida por Sholz ao proibir que aviões com material bélico enviado pela Inglaterra sobrevoassem o território alemão.

O Partido Social-Democrata alemão, de centro-esquerda, sempre foi muito inclinado, digamos, à aproximação com a Rússia. O próprio Sholz chegou a dizer que o gasoduto era apenas “um projeto econômico privado” – seria de rir, se o ambiente não estivesse tão rarefeito pela exibição de força da Rússia.

A “abertura” para a Rússia é defendida abertamente dentro do partido e ninguém pode se esquecer que o ex-primeiro-ministro Gerhard Schröder, um social-democrata, saiu do governo e foi para o conselho de acionistas do Nord Stream.

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Excepcionalmente, considerando-se as simpatias esquerdistas pela Rússia, o Partido Verde, que integra a coalizão de governo da Alemanha, sempre seguiu uma linha menos condescendente em relação ao regime de Putin, especialmente na questão das liberdades individuais.

A principal representante dos verdes no governo, Annalena Baerbock, ministra das Relações Exteriores, foi a Moscou esta semana apelar pelo bom senso. Até que conseguiu manter a compostura diante do escoladíssimo chanceler russo, Sergey Lavrov, falando não só da questão ucraniana como da prisão do dissidente Alexei Navalny. Mas tinha pouca munição na bagagem.

O gasoduto que abastece a Alemanha e o que ainda irá aumentar este fornecimento são instrumentos usados por Putin para plantar a hesitação no coração da aliança entre Estados Unidos e europeus.

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Irá Putin se aproveitar dessa vantagem e desfechar operações bélicas para se apropriar da faixa fronteiriça onde há sete anos já plantou um conflito separatista de baixa intensidade com a Ucrânia? Irá ele se arriscar a um confronto ainda maior, avançando mais sobre território ucraniano?

É bastante improvável. Mas se ele achar que tem uma boa chance de fazer isso sem incorrer em nada mais que sanções adicionais às que existem desde a anexação da Crimeia, não é impossível.

O governo Biden está respondendo com a tática do barulho: anunciar, com estridência, todos os dias que uma invasão russa pode acontecer a qualquer momento.

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A ideia é mobilizar aliados relutantes a pressionar Moscou para baixar a bola. Em outras palavras, levar a Alemanha a se mexer. É isso que tem acontecido nos últimos dias. As autoridades alemãs estão se mexendo, mas ainda muito longe de colocar na mesa a possibilidade de suspender o novo gasoduto. 

A vantagem estratégica continua do lado da Rússia. E blefar é uma especialidade de Putin até quando tem cartas menores na mão. Imaginem com um gasoduto inteiro. 

Restaurar a esfera de influência da Rússia, seja a da era czarista, seja a da soviética, é seu projeto permanente e só com uma Alemanha de mãos amarradas ele pode conseguir isso.

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