Pode governo de extrema direita se tornar moderado? Meloni mostra que sim
O que fez a primeira-ministra italiana nos quatro recordistas anos que completa semana que vem? Uma administração equilibrada - e isso é muito
Dia 4 de setembro será um marco: Giorgia Meloni completa quatro anos de governo, um recorde na Itália do pós-guerra. Quase todos os 69 governos que a antecederam desde 1945 duraram menos de um ano, transformando a Itália em sinônimo de eterna ebulição política.
Estabilidade, contra todas as expectativas, é o maior feito que Meloni tem a oferecer. Absolutamente ninguém dava nenhuma longevidade ao governo que formou com uma coalizão de partidos de direita, todos encrencados entre si, sendo ela mesma saída de uma sigla com zero tradição, os Irmãos da Itália, mas raízes muito complicadas, plantadas no neofascismo.
Uma frase dita na juventude, “Tudo o que Mussolini fez foi pelo bem da Itália”, a persegue até hoje, mas Giorgia Meloni vem fazendo um governo no máximo de centro-direita. Sua proposta principal para o assunto mais importante do país, a migração descontrolada, é processar os pedidos de asilo em outros países. A proposta entrou para o mainstream de uma Europa aturdida sobre a forma de enfrentar as torrentes humanas que chegam constantemente.
Mas nem a melhor ideia de Meloni, convencer a Albânia a aceitar receber migrantes enquanto seus pedidos de asilo são processados, tem dado muito certo.
DESVANTAGENS NATURAIS
Nada do que ela tem feito pode ser considerado de extrema direita. No campo da guerra cultural, sua medida mais extrema foi criminalizar a barriga de aluguel, tanto na Itália quanto no exterior. Curiosamente, uma ala esquerdista tem uma posição parecida: mulheres pobres, argumenta-se, são exploradas por casais ricos que não podem ou não querem assumir a gestação de um bebê.
As posições de Meloni são altamente discutíveis, mas estão longe de atitudes neofascistas que tantos prognosticaram.
No outro assunto vital para a Europa, o crescimento econômico pálido, que cria legiões de jovens desempregados vivendo às custas de benefícios, num processo caro, insustentável e desmoralizante, Giorgia Meloni não tem sido nenhum prodígio. O crescimento do PIB da Itália em 2026 é projetado para anêmicos 0,7%. A Itália também tem uma mortífera relação dívida-PIB de 139%.
Suas ideias sobre economia são relativamente desconhecidas. Meloni fala pouco e joga com as cartas grudadas no peito, cercando-se de um punhado de assessores de confiança, incluindo a irmã e companheiros do início da militância. Administra com sobriedade as desvantagens naturais — é mulher, loira e baixinha, o que exige mais esforço para ser levada a sério —, usando quase sempre ternos brancos ou rosa-clarinho de grifes italianas consagradas, como Armani e Ermano Scervino.
RECONHECIMENTO RECALCITRANTE
Numa rara entrevista a Roger Cohen, do New York Times, definiu assim sua integridade: “Eu sou uma pessoa que impõe regras a si mesma. A primeira regra é que nunca digo uma coisa que não penso. Não existe maneira de me fazer dizer algo que eu não acredito — meu cérebro entra em curto-circuito. ”
Com base nesse princípio, chamou de “inaceitáveis” as críticas de Donald Trump ao papa Leão XIV e azedou a relação com o presidente americano.
Ela também abraçou com entusiasmo a causa ucraniana, indo contra uma tendência que a ultradireita europeia compartilha com a esquerda, de ter ótimas relações com Vladimir Putin. Marine Le Pen, que em condições únicas da França também tenta fazer o processo de “desfascitização” do partido criado pelo pai, é bem menos entusiasmada.
Irá Giorgia Meloni ser reeleita no ano que vem (significando que seu partido terá algo na faixa dos 30% dos votos, habilitando-o a tentar uma nova coalizão)? Não é impossível. No ano passado, ela foi eleita a pessoa mais poderosa da Europa pelo site Politico, que não tem nenhuma simpatia pela italiana. Arrancar um reconhecimento bem recalcitrante já é uma vitória tremenda para a mulher tratada inicialmente de besta-fera da extrema direita, um desvio que desavisados continuam a cometer.
A baixinha obstinada vem provando que pode mudar, um dos maiores sinais de inteligência que um ser humano pode dar, ainda mais na política. Ideologicamente, é modesta, sem tentar assumir bandeiras europeias. Como principal líder europeia de direita, não está falando com Donald Trump e ninguém menciona mais um possível flerte com Elon Musk. Estabilidade pode ser muito pouco para colocar à mesa, mas é um valor que só sabemos como é importante quando o perdemos. Irão os italianos continuar a cultivá-lo?







