Clique e Assine a partir de R$ 19,90/mês
Vilma Gryzinski Mundialista Por Vilma Gryzinski Se está no mapa, é interessante. Notícias comentadas sobre países, povos e personagens que interessam a participantes curiosos da comunidade global. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Partidários de Trump que rejeitam as vacinas voltam-se contra ele

Ex-presidente disse que recebeu imunização e se orgulha de ter incentivado as descobertas, mas o movimento antivacinação não gosta disso

Por Vilma Gryzinski 29 dez 2021, 07h26

Republicanos e trumpistas estão majoritariamente na faixa da população americana que prefere não se vacinar contra a Covid-19 – uma proporção alta da população, cerca de 30%.

É tão grande a tendência que muita gente acha que Donald Trump é contra as vacinas. Ao contrário, seu governo liberou rios de dinheiro e de ideias no projeto Time Warp, ajudando a empurrar o esforço que redundou nas vacinas da Pfizer, em associação com a alemã BioNTech, da Moderna e da Jensen.

“Eu consegui a vacina, três vacinas, todas elas muito, muito boas. Consegui três delas em menos de nove meses”, orgulhou-se ele em entrevista a Candace Owens, jovem estrela negra do conservadorismo de raiz.

Candace rebateu que “mais pessoas morreram” este ano, já no governo Biden, com a administração das vacinas em larga escala, mas Trump não cedeu: “Os que ficam muito doentes e são hospitalizados são os que não tomaram a vacina”.

Candace pareceu escandalizada e, perguntada por Trump, disse que nunca, jamais se vacinará.

A entrevista deu o que falar e tirou o ultraconspiracionista Alex Jones da celebração do Natal (e do entrevero com a esposa, presa dias antes por agredi-lo em casa, um episódio de violência doméstica atribuído por ele a medicação controlada).

“Você é completamente ignorante”, apelou Jones em seu programa de rádio, transmitido também pelo site Infowars. “Ou você é o homem mais perverso que já existiu por empurrar esse veneno tóxico para o público e atacar seus eleitores quando eles simplesmente tentam salvar suas vidas.”

No universo Trump, a ruptura é espetacular. Alex Jones e suas maluquices conspiratórias têm uma influência nefanda sobre um público que já tende a desconfiar de tudo o que tem o selo oficial – e não só votou em massa em Trump como votaria de novo se ele se candidatasse em 2024.

Para dar uma ideia: toda vez que acontece um episódio de um desequilibrado atirando em pessoas inocentes, ele vem com a teoria de que é uma armação, uma operação de “bandeira falsa” para justificar controles sobre a posse de armas.

Agora, Jones pode se dar mal. Por não ter apresentado defesa, foi considerado culpado em quatro processos de difamação abertos por familiares de vítimas do massacre de Sandy Hook, de 2012, o maior já acontecido numa escola, quando o suicida Adam Lanza dizimou vinte crianças e seis educadores.

Por causa das sandices propagadas, famílias das criancinhas mortas são assediadas por pessoas que acreditam que participaram de uma encenação. Alguns precisam mudar constantemente de endereço para escapar a perseguições e ameaças.

Continua após a publicidade

Se for condenado em instâncias superiores, Alex Jones poderá ser afetado, via indenizações, no bolso.

Donald Trump precisa mais de Alex Jones ou vice-versa?

Mesmo caçado das redes sociais, Trump continua a ter uma enorme influência entre o eleitorado conservador. O governo capenga de Joe Biden também ajuda a impulsionar a ideia de que “Trump não era tão ruim assim” entre o público que ora se inclina pelos democratas, ora pelos republicanos.

Segundo uma pesquisa deste mês, 48% votariam em Trump em 2024, contra 45% para Biden. O número é mais acentuado entre homens: 50% contra 43%.

Trump será candidato? Absolutamente. Biden? Se estiver inteiro, com toda certeza – talvez até se continuarem faltando alguns pedaços de memória, como já acontece.

O vírus que não dá sossego a ninguém, a situação econômica desfavorável, com inflação e gasolina cara, e os projetos de investimentos gigantescos que não passam no Congresso criam atualmente um mau momento para Biden. Na média das pesquisas, ele está com 43% de aprovação e 53% de desaprovação.

Biden, obviamente, já não tem o eleitorado que é contra a vacinação. Quem sofre nessa faixa, se isso acontecer, é Trump.

O ex-presidente já havia sido vaiado por uma parte do público num programa que faz, juntamente com apresentador Bill O’Reilly, ex-Fox, nos estados onde continua muito popular, quando disse que tinha tomado a terceira dose.

Para defendê-lo depois da entrevista em que se chocaram, Candace Owens usou um argumento nada simpático.

“As pessoas muitas vezes esquecem de como Trump é velho. Já vi muita gente mais velha que tem exatamente essa perspectiva, vieram de um tempo antes da televisão, antes da internet, antes que fosse possível fazer pesquisas independentes”, disse a comentarista de 32 anos.

Ajudar, não ajudou. Mas também não causou um estrago muito grande. Os Estados Unidos estão, de novo, com dois quase octogenários como candidatos mais cotados à presidência num sinal da falta de renovação. Para sorte deles, ambos triplamente vacinados.

Continua após a publicidade

Publicidade