Papelão na saída: Petro tumultua transição para presidente de direita
Presidente não consegue engolir derrota e o eleito também não ajuda ao invocar uma suposta trama de golpe de Estado
Piadinha colombiana: “Não reconhecemos a vitória da Suíça”. A frase jocosa emula, em termos de Copa do Mundo, o tumulto que o presidente em fim de mandato, Gustavo Petro, está tentando criar ao contestar a vitória de Abelardo de la Espriella, alegando uma fraude no segundo turno que nenhum dos organismos eleitorais detectou.
O processo de transição foi interrompido e, em vez de uma civilizada transmissão de poder, está tudo em suspenso. Mais uma vez, um país da América Latina demonstra imaturidade democrática.
O próprio presidente eleito, um advogado milionário que surpreendeu o país ao se transformar numa alternativa de direita não convencional, não ajudou ao conclamar as Forças Armadas a resistir ao golpismo de Petro. Ameaçar o presidente de prisão e até extradição também não ajuda. Tudo jogo de cena. Os militares jamais apoiariam um esquerdista como o presidente em fim de mandato. Também está fora de questão uma “pueblada” – sempre que Petro tentou encenar uma mobilização popular para tentar passar sobre as instituições, se deu mal. Faltou povo.
Entusiasmo da vitória
Os colombianos estão demonstrando mais maturidade que seus governantes. Apostaram num nome novo para resolver problemas antigos, sendo o mais premente deles a questão da insegurança, num país em que a criminalidade comum, o gigantesco tráfico de drogas e a ação de grupos guerrilheiros de esquerda – embora dominados pelo poder supremo da cocaína – criam circunstâncias que levaram a maioria a cravar o nome do candidato de la Espriella.
Mas o adversário de esquerda, candidato endossado por Petro, Iván Cepeda, também foi bem votado, perdendo por uma diferença de 250 mil votos, menor até do que indicavam as pesquisas. Reconheceu a vitória do adversário, numa atitude elogiada até por quem não votou no professor de filosofia que não usa a retórica dramática, quando não ensandecida, do presidente em fim de mandato. Estaria Petro com ciúmes de Cepeda ou disputando antecipadamente com ele quem vai liderar a oposição a de la Espriella?
Oportunidades de oposição não faltarão. De la Espriella não tem experiência no jogo político e talvez esteja excessivamente entusiasmado com sua vitória. Por exemplo, não é politicamente prudente dar o ultimato que deu aos líderes dos dois grupos guerrilheiros em ação no país, do Exército de Libertação Nacional e da dissidência das Farc. “Têm um mês para se entregar. Do contrário, vamos atrás de vocês e vamos deixar cair todo o peso da lei e do Estado de Direito”, ameaçou.
Teoricamente, está certo. Na prática, a guerrilha, aliada ao narcotráfico, tem se mostrado resistente mesmo a governantes que efetivamente queiram combatê-la – o que não foi absolutamente o caso de Petro. Ele próprio um ex-guerrilheiro, fez concessões ignoradas pela luta armada, entre gestos tão grandiloqüentes quanto seu exótico figurino.
Petro é um homem inteligente, comutando falastrão e narcisista, que se apresenta como um humanista, mas as ideias carcomidas de esquerda sempre acabaram levando a melhor. Em muitas ocasiões, envergonhou a Colômbia com discursos desequilibrados, tentado chegado a dizer que o petróleo é pior do que a cocaína.
Vizinhos de direita
Agora, o inexperiente de la Espriella terá sua chance, favorecido pelo voto de confiança de metade dos colombianos e pela onda de direita que envolve vizinhos importantes como o Peru e até a Venezuela, tecnicamente ainda chavista, mas cooptada a colaborar com Donald Trump.
O caso venezuelano mostra que ser de direita não é tudo. Trump, por exemplo, impediu o retorno da corajosa María Corina Machado para se solidarizar com as vítimas do terremoto e fontes do Departamento de Estado espalharam que seria contraproducente o retorno dela. É um dado nada menos do que extraordinário, indicando que a vida não está ganha para ninguém.
Depois de conseguir um sucesso espetacular falando como outsider, o novo presidente colombiano terá que governar como um insider. Inclusive para criar um modo de relacionamento com um Trump imprevisível. E com Petro fazendo oposição.







