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“Papa” de Putin: patriarca dá sustentação religiosa ao expansionismo russo

Acusado de ter sido agente da KGB e de usar relógio de US$ 30 mil, Kirill, autoridade suprema da igreja ortodoxa russa, age em sintonia fina com o governo

Por Vilma Gryzinski 28 mar 2022, 06h08

Se nada na Rússia é simples, o que dizer da religião, com todos os fatores emocionais e espirituais que desperta?

A religião da Rússia é o cristianismo ortodoxo, que rompeu com a Igreja Católica há quase mil anos. Como não tem um papa, a autoridade máxima é o patriarca. No caso, o de Moscou, que assumiu o nome Kirill – ou Cirilo, o santo patrono que criou o alfabeto russo, o cirílico – quando foi eleito em 2009. Antes, tinha o nome de Vladimir Gundiaev.

O patriarca mantém uma extrema proximidade ideológica com seu xará, Vladimir Putin. Na história russa, esta afinidade entre igreja e estado tem uma designação própria, “sinfonia”.

A música tocada em conjunto por Kirill e Putin obviamente atingiu níveis altíssimos com a invasão da Ucrânia, apoiada incondicionalmente pelo patriarca. Quem discorda, disse ele, é apologista do consumismo e das paradas gay.

Kirill tem 75 anos e um histórico complexo. Segundo um dossiê que reproduz etapas importantes de sua vida, ele era da KGB durante a fase soviética. Não como simples informante, como milhões de outras pessoas cooptadas pelo estado policial, mas na condição de agente ativo, usado para infiltrar doutrinas favoráveis ao regime soviético em instituições como o Conselho Mundial da Paz e o Conselho Mundial de Igrejas.

Não existem provas categóricas de que o agente denominado “Mikhailov” tenha sido o religioso, embora historiadores vejam suas viagens ao exterior como indício de que tinha algum tipo de chancela da polícia política.

Outro dossiê aparentemente indica que o antecessor de Kirill, o patriarca Alexei II, também trabalhava para a KGB.

A infiltração nas fileiras da igreja ortodoxa, barbaramente perseguida depois da revolução bolchevique, é um fato histórico e há cristãos que preferem não julgar os religiosos que não tiveram condições de resistir.

Mais exótica é a teoria de Ion Mihai Pacepa, um general da polícia secreta da Romênia que desertou nos anos setenta. 

Pacepa sustenta que, antes de se tornar patriarca, o agente Mikhailov foi enviado ao Conselho Mundial de Igrejas para promover a disseminação da Teologia da Libertação na América Latina como forma de enfraquecer a Igreja Católica.

O romeno fugiu para os Estados Unidos em 1978 e, na época, circulou a versão de que Nicolae Ceausescu – o único líder comunista a resistir com violência à guinada tectônica provocada pela queda do Muro de Berlim, acabando fuzilado em dezembro de 1989 – ficou tão injuriado que tentou mobilizar o superterrorista Carlos, o Chacal, para assassiná-lo.

Também parece coisa de filme a fortuna de quatro bilhões de dólares atribuída pelo jornal oposicionista Novaia Gazeta ao patriarca Kirill. No balanço dele também foi colocada uma coleção de imóveis e um chalé na Suíça, para combinar com a conta.

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Parte da fortuna teria vindo da estranha concessão que vigorou durante os anos noventa, depois da queda do comunismo, que dava à igreja ortodoxa a exclusividade sobre a importação de cigarros de marcas estrangeiras para a Rússia.

Obviamente, tudo é negado. O dinheiro que o patriarca tem – ou não tem – virou notícia quando blogueiros russos descobriram uma foto dele, em reunião com o então ministro da Justiça, usando um relógio de ouro da marca suíça Breguet no valor de 34 mil dólares. Para desmentir, a igreja divulgou uma foto de Kirill sem o relógio, numa manipulação tão tosca que não tirou o reflexo do Breguet na mesa de madeira brilhante.

Kirill acabou declarando a um programa de televisão que tinha um Breguet, ganho de presente, mas o relógio nunca tinha saído da caixa.

Relógios que mudam de lugar são um dos mais conhecidos indícios de bandalheira.

A invasão da Ucrânia voltou a colocar em destaque o papel do patriarca Kirill como defensor da aliança inquebrantável com Putin. 

“Nós vemos isso (a Ucrânia) como uma ameaça e temos o direito de usar a força para garantir que a ameaça seja erradicada”, disse ele. “Entramos num conflito que tem importância não apenas física, mas metafísica. Estamos tratando da salvação da humanidade, muito mais importante do que política”.

Uma parte da igreja ortodoxa ucraniana já havia rompido com o patriarcado de Moscou em 2014 e agora, com a guerra, outras igrejas, no exterior, fizeram o mesmo.

Kirill já chamou Putin de “milagre de Deus” pela forma como incentivou a reconstituição da igreja ortodoxa, inclusive física. 

Igrejas históricas demolidas durante o stalinismo foram reconstruídas. Outras foram erguidas do nada, como a Igreja das Forças Armadas, que tem piso metálico feito de canhões e outras armas capturadas da Alemanha na II Guerra Mundial. 

É imponente, e até um pouco assustadora, mas sem a beleza das igrejas antigas. Tinha até um mosaico de Stalin, pintado num retrato levado por soldados num mural – mas foi tirado da versão final.

Putin e os ministros Serguei Lavrov, do Exterior, e Serguei Shogun, da Defesa (atualmente conspícuo pela ausência pública), também foram tirados do mural, por ordem do presidente.

Talvez ainda haja esperança de que o patriarca Kirill deixe seu coração ser tocado pela profunda injustiça da guerra e se compadeça do sofrimento dos ucranianos, que afinal ele ainda considera como seu rebanho.

Ou talvez seja mesmo um mau pastor.

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