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“Os traidores vão ver só”. Ainda resta esperança na Venezuela?

Sem adesão de militares, a cartada de Juan Guaidó volta para onde estava antes, as ruas, agora com garantia de que repressão será brutal

Por Vilma Gryzinski 1 Maio 2019, 09h02

Com Leopoldo López na embaixada da Espanha e a dispersão dos poucos elementos da Guarda Nacional que haviam trocado de lado, a oposição venezuelana parecia fadada ao pior dos mundos: o de uma insurreição fracassada contra uma tirania.

Desentocado quando sentiu estar suficientemente seguro, Nicolás Maduro prometeu vingança e não existe nenhum motivo para não acreditar, dessa vez, na sua palavra.

Entre os traidores que “vão ver só”, é possível que esteja o general Christopher Figuera, o “homem dos cubanos”, chefe da Abin, centro de inteligência, controle, torturas e poder do regime.

Foram agentes da Abin que liberaram Leopoldo López da prisão domiciliar, com ou sem o assentimento de Figuera, frito em qualquer uma das hipóteses.

O carismático líder da oposição fez um percurso glorioso ao lado de seu protegido, Juan Guaidó. Durante umas poucas horas, o destino parecia estar ao lado deles e contra o infernal regime que mata o povo de fome.

Quando Leopoldo López foi para a embaixada do Chile e depois a da Espanha, com a mulher e a filhinha, a esperança de um fim rápido para o pesadelo venezuelano desmoronou.

O imperturbável Guaidó agora só tem as manifestações de hoje, mas numa situação nova e perigosa.

O apoio interno e internacional não garante mais o arriscado jogo que lhe permitia sair às ruas e até do país, enviar representantes às nações que o consideram presidente interino e se comportar como se tivesse, de fato, algum poder, fora o moral.

Se o regime se consolidar, como parece, o que fará com Juan Guaidó? A melhor saída para o madurismo seria se o líder oposicionista seguisse Leopoldo López e pedisse asilo numa embaixada amiga.

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Solto, ele é uma encrenca. Preso, um problema maior ainda, mesmo sob a alegação de que comandou um golpe.

O direito à insurreição contra um regime tirânico é universal e os oposicionistas tomaram todos os cuidados para não parecer que era uma tentativa de golpe.

Mas os poucos tiros disparados pelos militares da Guarda Nacional que amarraram uma faixa azul no braço e aderiram ao movimento da oposição sustentarão uma repressão brutal.

Nenhum regime de força na América Latina caiu por pressão popular, como aconteceu no miraculoso desmantelamento do comunismo nos países da Europa Oriental.

São as altas patentes que avisam que o tempo acabou, do Paraguai de Alfredo Stroessner ao Peru de Alberto Fujimori.

A ruptura do general Figuera, que foi “sombra” de Hugo Chávez e se criou sob o total controle do regime cubano na estrutura de inteligência, deixou um recado importante, em toda sua obviedade.

Numa carta aos venezuelanos, disse que a insuportável deterioração do país o levou a uma conclusão: “Não se pode viver na miséria num país tão rico. Esta geração que está na infância crescerá com as sequelas da má alimentação e este dano é irreversível.”

Figuera foi substituído exatamente pelo general que estava na Abin antes dele, afastado depois da morte de um preso político.

Pobre Venezuela, pobres venezuelanos.

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