Os nadadores interceptados, o britânico assaltado e o francês vaiado
Três casos continuam a criar uma imagem negativa da Olimpíada que deveria ser celebração da alegria
Nada como o esporte para incentivar o ódio entre os povos. Atenção: isso é uma ironia. Todo mundo percebeu, mas no clima atual de espíritos olímpicos transformados em espíritos de porco, não custa esclarecer.
E que clima! Do ponto de vista dos americanos, a intercepção dos nadadores Gunnar Bentze e Jack Conger, quando já estavam dentro do avião que os levaria para longe do Rio e da encrenca do assalto a ser esclarecido, lembra as cenas finais de Argo.
É aquele filme com Ben Affleck sobre a saída clandestina dos americanos que haviam conseguido se esconder quando iranianos enfurecidos invadiram e ocuparam a embaixada dos Estados Unidos, em 1979.
Aliás, é incontável a quantidade de filmes em que os mocinhos escapam num avião perseguidos pelos bandidos que invadem a pista, mal encarados, barbudos e quase que inevitavelmente do Terceiro Mundo. Daí a facilidade da identificação emocional.
Os nadadores americanos não escaparam e ainda está por ser esclarecido se são os mocinhos. Mas dificilmente seriam os bandidos, mesmo que apareçam outros desdobramentos sobre a história do assalto sofrido por eles, mais James Feigen e Ryan Lochte.
Este é o mais conhecido e medalhado, daí o destaque maior ainda com que uma história dessas está sendo acompanhada. Desde que uma juíza pediu a apreensão dos passaportes dos quatro nadadores, até que o famoso “esclarecimento” mostrasse se houve mesmo assalto ou foi uma falsa comunicação de crime para encobrir alguma atividade do ramo “proibidão”, desencadeou-se na imprensa americana uma espécie de “onde está Lochte”.
O tablóide Daily News deu a resposta: está de volta aos Estados Unidos, na companhia da namorada, Kayla Reid, que já posou para a Playboy. Kayla veio com ele para o Rio, mas não foi identificada em nenhum momento da festa antes do assalto que deu tanto o que falar. Aquele pessoal que vive de insinuar escapadas, várias delas depois comprovadas, levantou a hipótese, ajudado pela entrevista de Renzo Gracie a Veja.
Os pais de Lochte também acompanharam o filho na viagem. A mãe dele, Ileana, de origem cubana, foi quem divulgou pela primeira vez a história do assalto, depois desmentida, depois confirmada, depois contada pelo nadador de cabelos descoloridos numa entrevista a um canal de televisão.
Formaram-se assim os campos em guerra. De um lado, na visão de muitos americanos, Lochte e os outros nadadores, vítimas de violência e depois de patriotadas. O jornal Los Angeles Times chegou a entrevistar um professor universitário que “estudou política latino-americana”, Lowell Gustafson. Disse ele: “Parece bastante comum que a polícia e a burocracia do Brasil contestem qualquer um que faça acusações. A ideia é dizer que essas coisas não acontecem no Brasil.” Ah, os professores universitários…
Do outro lado, está a turma dos brasileiros ofendidos pelas críticas e até pelos fatos, convencidos de que existe uma conspiração internacional para esculhambar com a Olimpíada. Como se o grande acontecimento esportivo não estivesse cercado de Brasil de todos os lados.
Para não ofender sensibilidade acirradas, os responsáveis pela equipe britânica sequer identificaram o atleta que sofreu um assalto a mão armada ao voltar de uma balada no Rio, num caso parecido com o de Lochte, se é que o nadador foi mesmo roubado. Mas avisaram a todos os integrantes da equipe que “não vale o risco” sair da Vila Olímpica para cair na night.
Quem, mesmo assim, insistir no que seria o melhor dos jogos fora das competições, a alegria e a farra da noite carioca, não deve usar roupas que os identifiquem como atletas, levar objetos de valor e nem tomar táxis. Ou seja, devem se comportar como brasileiros.
Aqueles que, mesmo assim, insistirem em incursões perigosas, deve avisar a direção da equipe antes de sair. Alguma dúvida? “O Rio não oferece um ambiente seguro e o nível de criminalidade subiu nos últimos dias”, acrescenta o comunicado. “E o atleta que foi assaltado deveria cair fora logo, antes que a polícia prenda a vítima em vez de ir atrás dos suspeitos”, comentou um leitor do Daily Mail, dando o tom das reações.
Ou seja, além dos franceses, os batalhões virtuais americanos e ingleses também estão em pé de guerra. O caso de Renaud Lavillenie, o campeão de salto com vara vaiado, continua a ser o mais comentado nos jornais europeus por envolver, de certa maneira, um choque de culturas.
Nas primeira reações ao comportamento inadequado dos torcedores, Lavillenie reclamou do “público de m•••” e se comparou a Jesse Owens. Uma comparação errada: o campeão americano negro que venceu na Alemanha nazista foi aplaudido e não vaiado. Lavillenie depois se desculpou. Suas lágrimas ao receber a medalha de prata deveriam comover o mais empatriotado dos corações brasileiros.
Incitar brigas xenófobas é um dos métodos clássicos dos tablóides. Se continuarem a ser alimentados com material negativo, os choques culturais vão azedar a imagem do Rio olímpico. Por enquanto, só nos resta esperar que Lochte tenha dado uma maquiada nos fatos. Uma perspectiva pouco animadora.








