Os antagonistas: Milei e Lula têm reeleição a ganhar e passarão o trator
Com seus estilos em tudo antípodas, os dois presidentes coincidem em não ter limites, principalmente se houver pontos eleitorais a faturar
Os dois erraram, quanto a isso não há nenhuma dúvida. Javier Milei não deveria desferir petardos verbais contra o presidente do Brasil, principalmente considerando-se que a Argentina tem no vizinho seu maior e mais fundamental parceiro comercial. Lula da Silva também não deveria ter mandado marqueteiros para atuar em favor do adversário de Milei, Sergio Massa, em 2023, numa flagrante intervenção. E o ministro que chamou Milei de palhaço não tem condições de ocupar o cargo.
Mas cultivar antagonismos faz parte fundamental do estilo dos envolvidos. E também de seu perfil político. Milei transformou-se no porta-voz internacional do ultraliberalismo, do ajuste de contas, do estado menos intervencionista, das relações de trabalho menos patrulhadas. Lula, obviamente, é o exato oposto.
Qual deles terá mais sucesso? Ainda não dá para cravar – e sempre é preciso levar em conta que Milei assumiu uma casa imensamente mais desarrumada do que a de Lula, apesar de todas as reclamações de herança maldita.
O mais interessante é que os dois modelos passarão pelo teste das urnas, pois ambos os presidentes disputam a reeleição. No momento, Lula está em posição mais confortável, com cerca de 50% de avaliação como ótimo ou regular. Também tem uma a posição consistente de vantagem em relação ao segundo colocado.
DESAPROVAÇÃO ALTÍSSIMA
Milei ocupa um lugar mais complicado. A mais recente pesquisa, da consultora QSocial, coloca-o em empate exato com o futuro adversário, o governador Axel Kicillof. Cada um tem exatamente 28% das preferências no momento. Considere-se que a esquerda peronista está mergulhada, para variar, numa briga interna entre a ala de Kicillof e os kirchneristas. Se conseguirem deixar de se detonar mutuamente, a vantagem do governador da província de Buenos Aires também deverá subir.
A desaprovação a Milei é altíssima, na casa dos 55%. Pode um presidente ser reeleito com um índice de rejeição de mais da metade do eleitorado?
Dificilmente. Mas isso considerando-se que fosse um presidente “normal”. Milei obviamente é tudo menos normal. O momento político instável ajuda a entender por que ele atravessou a fronteira para vir comprar briga com Lula: obviamente, quer explorar o sentimento antibrasileiro dos argentinos. E isso num momento em que os argentinos se sentem injustamente rejeitados por causa da onda que colocou o país na mira de uma avalanche de críticas durante a Copa do Mundo. Milei chegou a dizer que o Brasil de Lula bancou “25% da campanha anti-Argentina”.
É, obviamente, uma loucura, mas uma loucura que encontra terreno fértil, como tudo que apela a sentimentos ultranacionalistas, mesmo, ou talvez principalmente, os mais destemperados.
O maior desafio de Milei é traduzir bons resultados das reformas liberais em melhorias que os argentinos sintam no bolso. De que adianta dizer que as agências qualificadoras de risco melhoraram a qualificação do risco-país da Argentina, como fez o jornal Washington Post, se o povão ainda tem dificuldades para chegar ao fim do mês?
GUERRA DOS MODELOS
Ressalte-se que as palavras do Post foram muito positivas. “A mensagem das agências classificadoras de risco é que as reformas orientadas para o mercado do presidente Javier Milei estão funcionando”, disse o jornal americano. “Quando Milei chegou à Casa Rosada, em dezembro de 2023, a Argentina era considerada com um risco de descumprimento perigosamente alto. Em menos de três anos, a Argentina deixou para trás a qualificação de ‘alto nível de dificuldade’ e já não figura entre as dívidas mais arriscadas do mercado global. A ambição de Milei é alcançar uma qualificação de grau de investimento num prazo de cinco anos”.
Antes, obviamente, precisa ser reeleito. Entram aí a “campanha anti-Argentina” e todos os exageros verbais, incluindo os insultuosos, pelos quais o presidente é conhecido.
Terá ele a oportunidade de terminar o que começou? O combate à inflação “melhora a vida dos argentinos e também oferece um modelo para outras economias paralisadas que buscam se recuperar”.
Que resposta terá um melhor julgamento, o modelo Milei ou o modelo Lula?
A guerra dos modelos transcende os estilos antípodas dos dois presidentes e envolve basicamente os fundamentos de como conduzir políticas econômicas da melhor maneira para os principais interessados, os povos dos países que precisam de estabilidade e prosperidade. O que funciona melhor, política econômica de direita ou de esquerda? Quem será, no fim das contas, o palhaço? O futuro eleitoral de seus presidentes também depende disso.







