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O que são os túneis avistados sob escombros do porto de Beirute?

Mais um mistério sobre a explosão que arrasou a cidade e levou junto um chefe de governo que renunciou assim: “A corrupção é maior do que o Estado”

Por Vilma Gryzinski 13 ago 2020, 08h28

“No Líbano, há casas que têm a sala de visitas e a sala dos mísseis. Na mesma casa! Quando o míssil explode, a sala de visitas não fica intacta. E quem pagará o preço é a sociedade civil”.

Quem deu o aviso foi Benny Gantz, ex-chefe do estado maior das forças armadas israelenses e atual co-partícipe do governo de coalizão, como ministro da Defesa.

Gantz estava falando sobre o risco que implicaria para a população civil uma nova guerra com o Hezbollah, “o nosso maior inimigo ao Norte, e o maior perigo para o Líbano no Líbano”.

O discurso de Gantz coincidiu com escavações que mostraram abrigos subterrâneos ou sinais de uma rede de túneis debaixo dos escombros do porto que voou pelos ares na grande explosão do último dia 4.

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Um pedaço do que parecia ser a entrada subterrânea foi mostrado em vídeos que circularam intensamente, alimentando as piores suspeitas sobre a origem da explosão catastrófica.

Familiares de funcionários que trabalham no porto mantinham, no desespero, a esperança de que seus entes queridos que desapareceram estivessem ainda vivos em instalações subterrâneas.

Mesmo tendo interesse em aumentar as vilanias do inimigo, Gantz acertou ao mencionar a rede de esconderijos de armamentos que o Hezbollah espalhou pelo Líbano.

A tática de esconder os comandantes sob instalações como hospitais e escolas que, se bombardeadas, causam enorme repúdio internacional, e escavar uma rede de túneis para infiltrar terroristas em território israelense é amplamente usada pelos militantes palestinos do Hamas na Faixa de Gaza.

No sistema de partilha das fontes de renda, o Hezbollah também tinha sua fatia no porto, chamado sarcasticamente de “a caverna de Ali Babá e os Quarenta Ladrões”.

Quem mandava na caverna, e muito possivelmente continua a mandar, é Wafiq Safa, responsável pela coordenação da inteligência do Hezbollah com os outros serviços do gênero no Líbano.

Ele também é cunhado do todo-poderoso Hassan Nasrallah.

No ano passado, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos incluiu Safa e mais dois ‘nomões’ do Hezbollah na lista de integrantes ou testas de ferro de organização terrorista.

Assim foram descritas suas atividades:

“Como chefe da máquina de segurança do Hezbollah, Safa explorou os portos e as fronteiras terrestres do Líbano para passar contrabando e facilitar missões do Hezbollah”.

“Por exemplo, o Hezbollah usava Safa para facilitar a entrada de itens, incluindo drogas ilegais e armas, no porto de Beirute”.

“O Hezbollah dirigia especificamente certos carregamentos aos cuidados de Safa para evitar inspeções”.

O documento data de 9 de julho de 2019.

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Outro mistério: o destino declarado das 2 750 toneladas de nitrato de amônio, abandonadas durante sete anos no porto por falência do responsável russo pelo navio, era a Fábrica de Munições de Moçambique.

Mas a empresa que administra o porto da Beira no país africano diz que nunca recebeu nenhuma notificação sobre o carregamento no valor de um milhão de dólares, como aconteceria normalmente.

“Hoje, no Líbano, enquanto ministros alegam que são responsáveis por governar o país, todas as decisões importantes são tomadas pelo Hezbollah”, escreveu o jornalista Com Coughlin, ex-correspondente do Telegraph em Beirute.

“Ainda está para ser explicado exatamente por que o Hezbollah acharia uma boa idéia armazenar 2 750 toneladas de nitrato de amônio, um material que pode ser usado como fertilizante ou como explosivo improvisado, tão perto da região de maior concentração populacional do país”.

“Mas é tamanho o controle sobre o país do Hezbollah e de seus patrocinadores iranianos que nenhuma autoridade do Líbano tem condições de desafiar as vontades da organização”.

O único desafio a esse arranjo partiu dos manifestantes libaneses que reativaram a onda de protestos depois da explosão.

A revolta popular contra a negligência absurda ou o possível comprometimento do porto como depósito de armas provocou a renúncia coletiva do governo do primeiro-ministro Hassan Diab.

Com menos de um ano no governo e a incumbência impossível de ser um técnico, Diab tentou sair com dignidade. 

Denunciou a corrupção endêmica, “maior do que o Estado”, como a causa da explosão no porto. pediu que a voz do povo seja ouvida e clamou pela proteção de Deus para o Líbano.

A palavra de ordem nas manifestações era: “Renúncia ou forca”.

Diab foi uma baixa colateral. A raiva dos manifestantes se concentra nos dois homens que partilham uma aliança nada santa: Michel Aoun, o presidente cristão, e Hassan Nasrallah.

A explosão no porto atingiu predominantemente da parte cristã de Beirute, reconstruída depois da guerra civil no mesmo estilo otomano do século 19 – uma cópia duvidosa, mas que inspirou muita esperança.

Os dois parceiros, Aoun e Nasrallah, foram enforcados simbolicamente na praça central. A queda do tabu que protegia o Hezbollah está sendo estarrecedora.

A blogueira Dima Sadeq virou viral depois de se dirigir diretamente a Nasrallah nos seguintes termos: “Responda, se puder, uma coisa, o que Israel fez contra nós que é pior do que você fez?”.

Dima já havia sido demitida como apresentadora de um programa de televisão por criticar o Hezbollah.

O Exército libanês negou a existência de túneis no porto que, com diferença de poucas centenas de metros, é no mesmo lugar que começou a ser usado pelos fenícios há 4.500 anos.

Muita gente suspeita que sob ele existam mais do que vestígios arqueológicos.

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