Clique e Assine a partir de R$ 19,90/mês
Vilma Gryzinski Mundialista Por Vilma Gryzinski Se está no mapa, é interessante. Notícias comentadas sobre países, povos e personagens que interessam a participantes curiosos da comunidade global. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O que o passado de Hillary Clinton nos diz sobre o seu futuro

Ela não terá mais que passar por boazinha, mas precisará contar sempre com um bom administrador de crises

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 5 dez 2016, 11h20 - Publicado em 27 out 2016, 12h46
No tempo da tiara: em 1993, Hillary imitava mulheres do lar para abrir caminho ao marido

No tempo da tiara: em 1993, Hillary imitava mulheres do lar para abrir caminho ao marido

Eles já foram belos, jovens, ambiciosos e formidavelmente bem sucedidos. As duas últimas características estão levando Bill e Hillary Clinton, que fez 69 anos na quarta-feira, de volta à Casa Branca – exceto em caso de hecatombe ou da maior reviravolta eleitoral da história americana recente.

A natureza escandalosa do adversário dela, Donald Trump, conseguiu o que parecia impossível: ofuscar os longos e agitados anos de Hillary como figura pública.

Quase 100 dos 325 milhões de pessoas hoje vivendo nos Estados Unidos não tinham nem nascido quando Bill Clinton foi eleito presidente pela primeira vez, em 1992. Não têm, portanto, referência direta sobre a época em que Hillary ainda tinha cintura marcada e personalidade combativa quase sem filtros.

Não se lembram de detalhes como seus cabelos castanhos e crespos foram ficando mais loiros e lisos, até culminar com o uso de uma tiara ou travessa, como na foto acima. O acessório era considerado o símbolo máximo das mulheres de classe média mais acomodada que deixam de trabalhar para cuidar dos filhos. A categoria foi ofendida em massa quando Hillary disse que nunca poderia em ficar em casa “fazendo cookies e tomando chás”, sem seguir sua própria carreira como advogada.

A questão é que sua carreira profissional já estava umbilicalmente ligada à ascensão política do marido lá nos cafundós do Arkansas, onde ele foi secretário da Justiça e depois governador. Na mais distante das muitas iniciativas eticamente suspeitas de Hillary está o caso do investimento de 1 000 dólares que ela fez no mercado futuro.

Apostou em gado e, em um ano, conseguiu retorno de 100 mil dólares. Detalhe: ela foi aconselhada por um advogado amigo que, por incrível coincidência, prestava assessoria à Tyson Foods, o gigantesco frigorífico com sede em Arkansas. No começo, ela disse que havia estudado a bolsa de mercadorias e investido por conta própria. Depois, admitiu a orientação do amigo.

Foi mais um exemplo da incrível facilidade com que pessoas em posições politicamente importantes fazem amigos ricos. Até quando perdeu dinheiro o casal Clinton se enrolou. O escândalo de Whitewater foi investigado pelo Senado porque um banqueiro de Arkansas, depois levado para temporada no sistema prisional, disse ter sido pressionado por Bill Clinton para para fazer um empréstimo fraudulento de 300 mil dólares à incorporação imobiliária falida com nome perigosamente parecido com Watergate.

Os escândalos acompanharam o casal Clinton até o último dia na Casa Branca, quando um trambiqueiro das finanças chamado Marc Rich, procurado pelo FBI por 65 acusações de conduta criminosa, recebeu o perdão presidencial. Foi tão negativa a reação que Rich não se beneficiou da anistia e continuou morando na Suíça até morrer.

Por uma incrível coincidência, a mulher dele tinha feito uma contribuição de um milhão de dólares ao Partido Democrata, sendo 450 mil para a biblioteca presidencial e 100 mil para a campanha de Hillary ao Senado. Na mudança, o casal também levou móveis e objetos da Casa Branca e precisou, depois, pagar uma indenização.

Continua após a publicidade

A posição de Hillary frente a esses e muitos outros escândalos foi explicitada numa entrevista em 1999: tudo fazia parte de uma “vasta conspiração de direita”. Ele falava, especificamente, do caso de Monica Lewinsky a estagiária com quem Bill Clinton tinha tido um caso, exposto em minúcias mais constrangedoras ainda do que as atuais baixarias de Donald Trump.

O raciocínio não é estranho aos brasileiros: nobres e bondosos políticos querem fazer bem ao povo, mas reacionários malvados espalham escândalos como armadilhas para impedi-los. É claro que os adversários políticos do casal tentaram explorar seus pontos vulneráveis. Mas Clinton sobreviveu ao julgamento politico, também chamado de impeachment, e Hillary pode, finalmente, seguir carreira solo.

Em conjunto, aberta ou discretamente, tocaram a Fundação Clinton que tantas suspeitas de tráfico de influência provocou quando Hillary se tornou secretária de Estado, nomeada pelo homem que a havia derrotado como aspirante à Casa Branca, Barack Obama. Não há nada comprovado, mas qualquer teoria do domínio do fato indica que uma boa doação à Fundação Clinton abria portas no Departamento de Estado.

Uma futura presidência Hillary também sempre terá a sombra de novas revelações sobre mensagens eletrônicas dela, hackeadas com grande facilidade devido ao uso ilegítimo de um servidor particular na época em que era secretária de Estado.

Talvez seja por isso que o diretor da campanha de Hillary, John Podesta, apareça como principal candidato ao cargo de chefe de gabinete dela na Casa Branca. Nos Estados Unidos, isso equivale a ministro-chefe da Casa Civil, o encarregado do corpo-a-corpo diário.

Podesta, hábil gerenciador de crises que teve uma das mais antigas profissões do mundo – lobista -, já fez isso durante auge dos escândalos sexuais de Bill Clinton.

A certeza mais tranquilizadora em relação a uma futura presidente Hillary é que não haverá baixarias dessa natureza. Hillary tampouco precisará usar tiara ou dar uma de falsa boazinha. E em algum momento circularão histórias como a do segurança  do Departamento de Estado segundo o qual, quando Hillary escorregou e quebrou o cotovelo, os espezinhados guarda-costas caíram na risada. Ou será que isso também foi inventado pelo pessoal da vasta conspiração de direita?

Na enganadora ilusão da privacidade de uma conversa particular, Colin Powell, secretário de Estado do governo Bush segundo e general da vitoria da primeira guerra contra o Iraque na época de Bush primeiro, enumerou os motivos pelos quais preferiria não votar em Hillary, a quem descreve como amiga.

“Uma pessoa de 70 anos com um longo histórico, ambição desmedida, gananciosa, que não é uma agente transformadora, com um marido que continua transando com periguetes em casa”, escreveu ele. A palavra que usou não foi exatamente transando.

Na última terça-feira, ele anunciou que vai votar em Hillary. Como profissional da política, ela ignorou o e-mail das periguetes e se declarou “orgulhosa por ser endossada por um militar condecorado e estadista” como Powell. Esse profissionalismo deve ser a marca de sua presidência. Mas, para qualquer emergência, é sempre bom ter Podesta por perto. E o marido na rédea curta, evidentemente.

Continua após a publicidade

Publicidade