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O ‘morto’ muito vivo: como o esquerdista Mélenchon virou protagonista

De terceiro colocado na eleição presidencial - posição que os franceses chamam de ‘morto’ -, candidato a primeiro-ministro ganhou o lugar principal

Por Vilma Gryzinski 13 jun 2022, 08h24

Jean-Luc Mélenchon quer ser primeiro-ministro, o que criaria um dos mais desconfortáveis regimes de “coabitação” de todos os tempos e colocaria o presidente reeleito Emmanuel Macron numa posição simplesmente horrível, mais ou menos como a da esposa traída que continua a viver sob o mesmo teto com o marido infiel.

Não é uma novidade na política francesa, mas para um homem que definiu o seu próprio estilo de governar como “jupiteriano” significaria uma derrota insuportável.

O resultado do primeiro turno das eleições legislativas – um quase inacreditável empate, de 25,75% para o partido de Macron e a 25,66% para a frente de Mélenchon – antecipa a perda da maioria parlamentar absoluta para o presidente, mas o resultado final ainda está em aberto.

Mélenchon defende todas as propostas tradicionais de esquerda – e mais algumas francamente delirantes. Quer aumentar o salário mínimo e a base da aposentadoria, diminuir de 62 para 60 anos a passagem para ela, nacionalizar estradas e aeroportos, congelar preços, “convocar uma conferência nacional” para reduzir a jornada de trabalho, recriar a estabilidade no emprego, despoluir o Mediterrâneo. Ah, sim, e criar “pelo menos um milhão de empregos graças à bifurcação ecológica e social”.

Parece programa de grêmio estudantil, mas é o resultado dos esforços conjuntos dos partidos de esquerda que seu reuniram na Nova União Popular, Ecológica e Social, a Nupes. Com a implosão do Partido Socialista, um dos integrantes da coalizão, a França Insubmissa de Mélenchon passou a ocupar o centro do campo de esquerda. Outros participantes são o partido verde e o comunista.

Só para comparar a força de Mélenchon: Anne Hidalgo, a desastrosa prefeita de Paris, teve 1,5% dos votos no primeiro turno da eleição presidencial. Mélenchon teve 22%, o que o deixou a alguns décimos de ultrapassar Marine Le Pen.

Por causa desse desempenho, ele virou, aos 70 anos, um terceiro colocado excepcionalmente forte e o mais consolidado líder de esquerda de um país onde esse próprio conceito foi inventado.

Em comparação com antecessores históricos, Mélenchon dá vontade de chorar, com seu estilo populista, demagógico e histriônico, fora as ideias jurássicas, dignas de um “Chávez francês”, na definição do ministro da Economia, Bruno Le Maire.

No país de Léon Blum, o primeiro judeu a ser primeiro-ministro da França e criador de reformas como feriados pagos e semana de 40 horas, tendo sido deportado para a Alemanha durante a guerra, Mélenchon declarou que seu alter ego britânico, Jeremy Corbyn, foi obrigado a deixar a liderança do Partido Trabalhista não por dar rédeas livres ao antissemitismo, mas por causa de uma campanha orquestrada pelo rabino chefe do reino e “redes pró-Likud”.

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Todo mundo sabe o que significa isso.

A esquerda relevou e a direita tradicional preferiu manter os ataques a Éric Zemmour, como representante da extrema-direita. Aproveitando a excepcional condescendência que lhe é reservada, inclusive entre os meios de comunicação, Mélenchon se descolou do rótulo de extrema-esquerda.

“Uma das causas do sucesso de Mélenchon é a complacência com que foi tratado”, diz Gilles William Goldnadel, autor do autoexplicativo Manual de Resistência ao Fascismo de Extrema-esquerda.

Mas o fato é que Mélenchon é hoje o grande líder da esquerda na França. Durante a campanha para as eleições legislativas, ele ocupou o lugar central, inclusive na cobertura da imprensa, superando de longe o destaque habitual dado, contra a vontade,  a Marine Le Pen e o espaço conquistado por Éric Zemmour, quando disparou de desconhecido para ator político digno de nota, durante a campanha para o primeiro turno presidencial. \dessa vez, Zemmour sequer conseguiu ser eleito deputado.

O verdadeiro Mélenchon aflorou quando a polícia, cumprindo mandado judicial, fez uma busca em sua casa e na sede do partido em 2018.

“Eu sou a República”, gritou ele. “Eu é que sou parlamentar. Vocês são a polícia republicana ou uma gangue? Sabem quem eu sou?”.

O clássico “sabem que eu sou?” define o caráter de um homem em qualquer lugar do planeta.

Comemorando ontem o resultado, ele apelou para aos eleitores para quem lhe deem a vitória com que sonha no segundo turno e prometeu: “Dentro de dez dias, os preços serão congelados e o salário mínimo aumentado para 1 500 euros”.

Macron não vai dormir tranquilo até o próximo dia 19. Mesmo que não venha a ter a insuportável coabitação, como os franceses chamam as épocas em que o presidente é de um partido e o primeiro-ministro de outro, enfrentará um oposicionista de esquerda fortalecido pelo voto e louco para infernizar sua vida.

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