O melhor de tudo da Odisseia: todos falam de uma história de 2,8 mil anos
Helena negra e personagem vivido por trans são apenas detalhes, o importante é que o filme de Christopher Nolan mostra permanência de Homero
Vamos ser sinceros: ler a Odisseia exige esforço, dedicação e um conhecimento quase profissional do contexto para entender um relato oral da Grécia da era do bronze, codificado por Homero, ou vários autores reunidos sob esse nome, há quase três milênios. É a base da literatura e, portanto, da civilização ocidental, mas a atriz que vive a personagem da saga anterior, recordada através do moderno recurso do flashback, Helena de Tróia (originalmente, de Esparta), ignorava sua existência, mesmo tendo estudado teatro numa das melhores universidades do mundo, Yale.
Foi uma oportunidade para a atriz, Lupita Nyong’o, a beldade que interpreta a rainha pela qual dez mil barcos se lançaram ao mar para recuperar a honra dos gregos, desafiada pelo rapto da mais bela das mulheres do mundo cujo amor foi dado ao troiano Páris como compensação por ter privilegiado Vênus no concurso se beleza das deusas. (Ela também interpreta a irmã gêmea, a mariticida Clitemnestra).
É claro que a discussão maior deveria ser sobre o tropeço educacional de Lupita e é claro que todo mundo fala na verdade da escolha de uma beldade negra para interpretar Helena, de “braços brancos” e definida como “xanthos”, palavra para cabelos loiros ou loiros arruivados – a mesma, por final, usada para Aquiles.
E também muitos se horrorizam com a escolha de Elliot Page, chamado Ellen Paige numa encarnação anterior como mulher, para fazer o melífluo grego Sinon, que convence os troianos a levar para dentro de suas muralhas um certo cavalo de madeira (ele não aparece na Odisseia original, mas na Eneida de Virgílio, só para acalmar os especialistas).
Atenas, a deusa dos olhos claros, como a multirracial Zendaya? A civilização ocidental aguenta, embora dificilmente venhamos a ver um Nelson Mandela ruivo nas telas ou um Barack Obama asiático.
UM GREGO AMERICANO
Colocar atores negros para interpretar personagens brancos é um recurso da turma woke que virou modismo nos últimos anos, principalmente em séries britânicas como Bridgerton. Ajuda a aumentar a exposição das obras e fatura com a turma politicamente correta, como se os autores fossem valorosos guerreiros do combate aos preconceitos. Os adversários acham que é uma forma de solapar a cultura “branca” – entre aspas porque quem faz parte dela, inclusive Lupita Nyong’o, com sua história de filha de professores quenianos nascida no México, não precisa ter certificado de cor.
Obviamente, muitos já lembraram que Matt Damon, o intérprete do herói Odisseu, que chegou até nós como Ulisses, via latim, é um americano descendente de ingleses e escoceses por parte de pai e suecos e finlandeses por parte de mãe. Charlize Theron, a sedutora Calipso, é sul-africana, descendente de holandeses, franceses e alemães.
Nenhum deles tem nada de grego, nem dos contemporâneos nem dos antigos. E, obviamente, nenhum dos personagens gregos cujos traços chegaram até nós, através de estátuas e pinturas em vasos e ânforas, tem características africanas.
O que interessa realmente: o filme é bom? As opiniões dos principais críticos do mundo divergem. Em jornais importantes como o New York Times, o Telegraph e o Figaro, multiplicaram-se os elogios. A Economist fez picadinho.
Discutir Homero, mesmo que seja só para contestar o tom de pele de Helena, um assunto infinitamente menor diante da grandeza de seu legado, é um privilégio. Quem não tem forças para encarar o original, em suas diferentes traduções em português ou outras línguas, sairá do filme com um mínimo de conhecimento?
Vale a pena esperar para ver se o ardiloso Ulisses ainda nos surpreende. Ou pelo menos explica como demorou dez anos para fazer um trajeto, entre Tróia e Ítaca, que não levaria mais que duas semanas – consagrando o tema que se tornaria recorrente na literatura sobre a viagem, o percurso, a jornada, a travessia, a odisseia, enfim. “Conta-me, Musa…”







