O legendário Mossad passa por mudanças depois de plano fracassado
Usar curdos do Iraque e até o ex-presidente Ahmadinejad para derrubar o regime iraniano não deu certo e serviço de inteligência é remodulado
“Não havendo sábia direção, cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança”. Esse é o lema do Mossad, tirado do Livro dos Provérbios, uma ironia considerando-se que a “multidão de conselheiros” criou um plano de ambição quase alucinada para derrubar o regime iraniano no início da campanha militar conjunta com os Estados Unidos.
Não deu certo. O plano envolvia curdos iraquianos que entrariam no Irã e insuflariam seus irmãos locais a se rebelar. Mais delirantemente ainda, o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad foi incluído na trama depois de se encontrar em pessoa, em Budapeste, numa conferência de fachada, com o chefe do Mossad na época, David Barnea. Num país rebelado, ele seria colocado na presidência de novo, na inacreditável condição de agente israelense (não deu certo e não se sabe o que aconteceu com Ahmadinejad).
Se tivesse dado certo, seria a mais ousada operação de inteligência de todos os tempos. O Mossad sairia coberto de glórias. Como não deu, instaurou-se um clima de amargura e acusações em off, empurrando a culpa para os americanos.
“Explicação”: Donald Trump deu ouvidos ao presidente da Turquia, Recep Erdogan, e não autorizou o envolvimento dos curdos. A Turquia tem seus próprios problemas com a minoria étnica, que sonha com um território autônomo reunindo, num Curdistão independente, nacos dos três países onde se espalha, Turquia, Irã e Iraque. É obviamente uma heresia para os governos centrais desses países. Erdogan tem uma conhecida influência sobre Trump, que sempre o cobre de elogios.
INIMIGO DO MEU INIMIGO
A vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã: o plano obviamente foi aprovado pelo governo israelense. Como não deu certo, seus principais autores foram tirados dos cargos-topo do Diretório de Inteligência e da Divisão Iraniana logo depois da posse do novo diretor do Mossad, Roman Gofman.
Reportagens no New York Times e no site Ynetnews já deram detalhes sobre o plano, mas ainda não há explicações para os detalhes da tentativa de cooptação de Ahmadinejad, um dos maiores inimigos de Israel, tendo chegado a promover um repugnante concurso internacional de charges para negar o Holocausto. A possibilidade de voltar ao poder teria sido uma tentação grande demais para o ex-presidente? Israel seduziu um adversário desse nível?
O uso de combatentes curdos é menos misterioso. Israel cultiva boas relações com líderes da minoria étnica, principalmente no Iraque. Todas as partes são guiadas pelo princípio de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo.
O objetivo de mudar o regime iraniano “era tão vasto — alguns diriam megalomaníaco — que exigia a alocação de imensos recursos e envolvia graves implicações regionais”, segundo o Ynet.
PAGERS EXPLOSIVOS
Em vários sentidos, é possível dizer que tanto os Estados Unidos quanto Israel foram vítimas de seu próprio sucesso. Os americanos, por causa da sensação de vitória e invulnerabilidade que a fulminante captura de Nicolás Maduro propiciou. Os israelenses foram embalados por sentimentos semelhantes depois da “guerra dos doze dias”, no ano passado, quando uma enorme mobilização de inteligência, com agentes iranianos e israelenses, expôs a bombardeios muitos alvos que pareciam inexpugnáveis no Irã.
O Mossad também tem um histórico de operações legendárias, incluindo a captura do carrasco nazista Adolf Eichmann (abduzido em Buenos Aires, julgado e executado em Jerusalém); a caçada implacável aos terroristas que sequestraram e mataram integrantes da delegação israelense na Olimpíada de Munique, em 1972; e, mais recentemente, o incrível caso dos pagers especialmente fabricados que explodiram nas mãos de integrantes do Hezbollah no Líbano. Em julho de 2024, agentes a serviço do Mossad esconderam uma bomba debaixo da cama de Ismail Haniyeh, líder do Hamas que estava numa fortaleza destinada a hóspedes ilustres em Teerã para a posse do atual presidente, num assassinato quase inacreditável. Horas antes, havia compartilhado a fileira das autoridades com o vice-presidente Geraldo Alckmin.
O fracasso da operação para a mudança de regime no Irã aumenta a sensação de que muitas coisas deram errado para Israel. Até o Mossad, que cultiva a imagem de ousadia e desafio ao senso comum com suas ambiciosas operações, saiu mais do que chamuscado.
Irá o governo de Benjamin Netanyahu ser castigado nas urnas na eleição de 27 de outubro próximo? As pesquisas no momento ainda são inconclusivas e a fragmentação dos partidos não permite bater o martelo sobre o que pode acontecer. Mas a frustração do eleitorado só aumenta. Se até o Mossad, do qual tantos israelenses se orgulham pela aura de ousadia e implacável eficiência, pode fracassar rotundamente, é mais um motivo para o sentimento generalizado de que as coisas não vão bem para o país. A próxima crise é de tirar o fôlego: Israel no caminho de colisão com os Estados Unidos, nada menos do que isso, por causa da divergência total sobre a próxima fase em Gaza. Netanyahu já disse que o exército só sai das áreas que ocupa com a comprovação de que o Hamas está entregando as armas, não concomitantemente. É mais um momento de altíssimo risco para o país.







