O homem que pode raptar a Europa, de novo
Prefeito de Londres balança disputa pela permanência na União Europeia
As roupas amarfanhadas, o cabelo despenteado e o uso natural de palavras que deixam a plebe de queixo caído, incluindo citações em grego e latim, indicam: Boris Johnson, prefeito de Londres até maio e quem sabe mais, depois disso, é um representante clássico da classe alta. Não é verdade. No severo sistema de castas da Grã-Bretanha, ele se enquadra na alta classe média. Mas certamente faz uma perfeita imitação do aristocrata de hábitos peculiares e capacidade de conquistar corações entre o povão.
Pois esse político educado em Eton e Oxford, onde conheceu a verdadeira elite e seu agora ex-amigo David Cameron, exoticamente chamado Alexander Boris de Pfeffel Johnson, é o homem que pode dar um empurrão para tirar o Reino Unido da União Europeia, no referendo marcado para 23 de junho próximo.
A história começou com Cameron no ano passado. Para conseguir ser reeleito primeiro-ministro, ele prometeu fazer a consulta popular. Agora, tem que cumprir a promessa, em circunstâncias cada vez mais negativas para sua campanha em favor do sim à continuidade. No último dia 8, as preferências do eleitorado atingiram o empate exato: 50% para cada lado.
A turma do não está aumentando desde então. Numa decisão dramática anunciada ontem, Boris Johnson esfaqueou Cameron pela frente e disse que passa agora a defender a saída da União Europeia. Nove minutos antes, tinha avisado o primeiro-ministro por mensagem de texto.
Não está sozinho: seis ministros do governo, entre outros integrantes do Partido Conservador, favorecem a saída, apelidada de Brexit, uma contração das palavras Britain e exit.
Mas nenhum deles tem nem de longe o apelo populista de Boris, um caso raro de político inglês chamado pelo primeiro nome. A Moody’s, agência de avaliação de risco agora sinistramente conhecida pelos brasileiros, disse que a nota da Grã-Bretanha pode sair prejudicada.
O argumento de que a economia, um caso raro de crescimento perceptível entre os países avançados, pode ser extremamente prejudicada é o ponto forte da campanha pela continuidade. Do lado contrário, está o sentimento de que a União Europeia infringe a soberania nacional de maneira abusiva e que os contribuintes britânicos arcam injustamente com os custos sociais de milhões de estrangeiros, detentores de passaportes europeus que se instalam no país, na grande maioria para trabalhar, mas também para desfrutar dos benefícios locais.
Será Boris um Zeus reencarnado, o deus da mitologia grega que se transforma em touro branco para raptar a bela Europa e fazer todo mundo sabe o que mais com ela? Pelo aspecto folclórico, o prefeito de Londres não é avesso a estrepolias. A mulher dele, Marina, que é filha de mãe indiana e pai inglês, já o colocou para fora de casa duas vezes, por casos com a consultora de arte Helen Macintyre e com a jornalista Petronella Wight. Com a primeira, teve uma filha, Stephanie. Helen foi à justiça para tentar impedir a divulgação do caso, mas perdeu. Pelo menos para escolher amantes de caráter, Boris Johnson tem boa mão.






