Nova safra de radicais americanas: são as mulheres mais de esquerda
Políticas esquerdistas se destacam nas próximas eleições para o Congresso americano e onda favorece candidatura presidencial de Alexandria
“O país está à beira da revolução política pela qual lutamos durante tanto tempo”, comemorou o veterano senador Bernie Sanders, que nem se dá mais ao trabalho de disfarçar os ímpetos revolucionários. Aos 84 anos, ele vê motivos reais de euforia: uma nova safra de jovens mulheres que estão conquistando eleições primárias para se candidatar como deputadas pelo Partido Democrata, sigla que usam, embora todas sejam de extrema esquerda. O movimento pendular da política, com um Donald Trump bem à direita, pode acabar contribuindo para o que parecia impossível: a precursora do radicalismo feminino, Alexandria Ocasio-Cortez, ganhar a candidatura presidencial. Atualmente ela tem o apoio de 26% dos eleitores democratas, um número sólido, com espaço para crescer.
As outras políticas em ascensão têm todas um perfil parecido com o de AOC: estão na faixa dos 30 anos, falam como o mais radical líder de centro acadêmico – normal, pois foram doutrinadas nas universidades – e pertencem a minorias étnicas. São nomes novos que surgiram subitamente no universo político.
Darializa Avila Chevalier, descendente de dominicanos negros, deletou postagens antigas incentivando “tomar os meios de produção” e elogiando o fuzilamento da família imperial russa – “gente que os bolcheviques puseram no liquidificador tipo por 90 minutos”. Mas mantém o apoio à abolição não só da polícia, mas de toda e qualquer prisão.
Parece infantil, mas só para quem não conhecer a linguagem de alguém que está fazendo pós-graduação em sociologia há sete anos.
AS URNAS CONFIRMAM
Outra socialista democrática, Melat Kiros, que ganhou a candidatura pelo estado do Colorado, já disse que o massacre de 1,2 mil pessoas em Israel, em 7 de outubro de 2023, foi “a consequência inevitável do apartheid”. A família dela é da Etiópia, país que já teve um dos regimes comunistas mais radicais do mundo, responsável, entre outras desgraças, pela coletivização do campo que provocou uma fome de consequências catastróficas.
Quem acompanha os debates políticos pelas redes já conhece bem o perfil: mulheres jovens com ideias tão esquerdistas que parecem inventadas. Além de Alexandria, descendente de porto-riquenhos, jogam nesse campo atualmente, Ilhan Omar (Somália) e Rashida Tlaib (filha de palestinos). Em lugar de celebrarem o país onde tiveram tantas oportunidades, dedicam-se a abominá-lo e a promover a “revolução” de que falou Bernie Sanders.
As urnas confirmam a tendência esquerdista também entre o público. Em 2024, 54% dos homens votaram em Donald Trump, contra 44% para Kamala Harris (mãe indiana, pai jamaicano). O voto feminino foi exatamente o inverso. Entre as mulheres negras, o apoio a Kamala foi de 92%, contra 7% para Trump.
Uma pesquisa Datafolha da semana passada mostra resultados parecidos no Brasil: 50% dos homens se declaram de direita, contra 33% de esquerda. Entre as mulheres, os números são de 44% à esquerda e 37% à direita.
Tradicionalmente, a explicação para o voto mais à esquerda das mulheres é que estas, como mães, são mais vulneráveis e dependentes de benefícios sociais, enquanto os homens tendem a valorizar mais o trabalho e o esforço próprio. Obviamente, é uma explicação simplificadora, mas com vasos conectantes com a realidade.
MISÓGINOS E AGRESSIVOS
Acrescentem-se as questões comportamentais, como o desdobramento das ideias feministas contemporâneas, com a tendência a afastar e até discriminar os homens, o que empurra uma fatia dos jovens para os braços de influenciadores misóginos e agressivos.
Curiosamente, a ascensão das mulheres esquerdistas coincide com uma safra consolidada de líderes direitistas em países europeus, como a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, a presidenciável francesa Marine Le Pen (sua candidatura será definida esta semana), a alemã Alice Weidel, que concilia a vida assumida como lésbica com o partido mais à direita de todos, e a britânica Kemi Badenoch, a melhor porta-voz do pensamento conservador de raiz, sem nada de componentes fascistóides, atualmente em ação no mundo político.
Irá Alexandria Ocasio Cortez ser um contrapeso de esquerda nos Estados Unidos? Terá chances contra um candidato republicano? Como seria um debate entre ela e JD Vance, o possível candidato presidencial da direita? E iria Donald Trump transmitir o poder a ela, no caso de vitória? São questões que pareciam impensáveis há algum tempo atrás.
Bem pouco tempo, por sinal.







