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Nobel para os sequestradores, defende Ingrid, a estranha ex-refém

A mais famosa vítima das FARC fala sobre o prêmio da Paz e , como sempre, provoca reações extremadas

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 5 dez 2016, 11h21 - Publicado em 7 out 2016, 20h24
Martírio, celebridade e intrigas: a vida nada simples de Ingrid Betancourt

Martírio, celebridade e intrigas: a vida nada simples de Ingrid Betancourt

Ela foi saudada como uma santa ao sair da selva, em 2008, de cabelos longos e fala lúcida, depois de seis anos em condições indizíveis como refém das FARC. Dois anos depois, para muitos colombianos, virou uma bruxa. Entrou com um pedido de indenização de quase 7 milhões de dólares contra o estado. Alegava que não havia sido suficientemente alertada para evitar seu sequestro, apesar das muitas provas em contrário. Companheiros de martírio a acusaram de ser arrogante, manipuladora, insuportável.

Agora, Ingrid Betancourt deu mais uma prova de que é uma pessoa complexa, cheia de facetas luminosas e profundezas obscuras. Defendeu que o Prêmio Nobel da Paz dado ao presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, deveria ter sido dividido com Rodrigo Londoño, codinome Timochenko, o chefe do grupo guerrilheiro que tanto mal lhe causou.

Ingrid era candidata a presidente inviável, por um inexpressivo partido verde, quando foi sequestrada e perdeu as chances de retomar a carreira política pelo absurdo processo de indenização (do qual se arrependeu). Defende o acordo de paz e um Nobel dividido com base em sentimentos pessoais tortuosos e análise política do tipo que foi rejeitada, mesmo que por pequena minoria, no referendo de domingo passado.

Acha, por exemplo que é positivo que as FARC “passem a desempenhar um novo papel em Colômbia e tenham atuação na vida política”. Elogia o grupo narcoguerrilheiro por fazer “uma tentativa de modernização mental, de comunicar-se de outra maneira e isso é muito valioso”. Em termos pessoais, ela os perdoou “na medida da racionalidade com que consigo administrar o perdão. Emocionalmente, ainda tenho sofrimentos difíceis de administrar”.

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Os terríveis anos como refém a colocaram em confronto com tanto com os guerrilheiros quanto com companheiros de cativeiro. Ela rompeu com a amiga e assessora Clara Rojas, com quem dividia espaços minúsculos e disputava pedaços de queijo.

Clara teve sua própria e quase inacreditável história. Ficou grávida de um guerrilheiro, quase morreu no parto na selva e o filho foi entregue a um casal de camponeses muito pobres. Reencontrou o menino num orfanato anos depois, já livre.

Segundo a interpretação de Ingrid, Clara queria se adaptar para sobreviver ao tormento. Ela só pensava em fugir. Numa dessas tentativas, foi com outro refém, o senador Luis Eladio Pérez, flutuando na correnteza de um rio perto do acampamento guerrilheiro.

Ingrid teve um romance com o senador, conforme contou a própria mulher dele, que compreendeu as condições extremas vividas pelas vítimas. Depois de outra fracassada tentativa de fuga, Ingrid foi espancada e agredida sexualmente por três de seus carcereiros. Passou a viver acorrentada dia e noite.

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Separada por alguns metros, primeiro com palavras e, depois que estas foram proibidas, por bilhetes, Ingrid também se envolveu com outro refém, Marc Gonsalves, um dos três ex-militares americanos capturados pelas FARC depois da queda de um pequeno avião no qual levantavam informações sobre o tráfico e a guerrilha.

Outro americano, Keith Stansell, escreveu depois que Ingrid era “o ser humano mais desprezível” que já havia conhecido e, devido a sua condição social, se comportava como uma “princesa”. Disse também que ela e Gonsalves ficaram juntos depois de libertados, na espetacular Operação Xeque em que o Exército colombiano enganou os guerrilheiros e resgatou 14 reféns.

Ingrid fala apenas em um imenso afeto. Tanto ela quanto Gonsalves se divorciaram dos respectivos cônjuges depois da libertação. Ingrid foi criticada pela forma fria como tratou o marido ao reencontrá-lo. Em seu livro, conta que na verdade foi o oposto: a primeira coisa que ele falou foi se podia continuar morando no apartamento dela.

Ingrid foi morar com a mãe, que havia se aproximado de Hugo Chávez na campanha pela libertação da filha e se transformado em crítica do então presidente Álvaro Uribe. A confraternização entre todos, na euforia do sucesso da Operação Xeque, durou pouco. Logo Ingrid passou a criticar Uribe e continua a fazer isso, especialmente pela oposição dele ao acordo de paz.

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Tal como a vida, Ingrid Betancourt é uma mulher complicada. A experiência quase inimaginável que viveu, seguida de uma celebridade em escala mundial, aguçou suas qualidades admiráveis e seus muitos defeitos. Talvez não seja heroína, santa ou bruxa. Talvez seja uma mistura de tudo isso.

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