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Não sobrou espaço de manobra para Boris, mas ele teima: ‘Não vou sair’

A esquerda está exultante e a direita, aliviada: um primeiro-ministro ousado e hesitante, brilhante e patético, tem que deixar a política seguir seu curso

Por Vilma Gryzinski 6 jul 2022, 16h46

Como todo sistema político, o parlamentarismo tem vantagens e desvantagens. As vantagens estão sendo vistas agora na Inglaterra: quando um líder político se torna inviável, seu próprio partido se rebela e resolve o assunto internamente. Manter um corpo em putrefação se torna um
ônus insuportável quando os parlamentares constatam que não só o partido será varrido do poder quando houver eleição, como eles próprios estão com a cabeça a prêmio.

(As desvantagens são vistas em Israel: com a fragmentação partidária, ninguém consegue uma maioria sustentável e o país entra no modo Dia da Marmota, com eleição atrás de eleição, sempre repetindo o mesmo resultado inconclusivo).

O esfacelamento público de Boris Johnson segue o princípio parlamentarista: por mais que tente se agarrar ao cargo, acabou o terreno para manobrar, cooptar, teimar, desviar-se dos golpes e, na última hora, sobreviver. Como ele não é um presidente, escolhido pelo voto direto, fica mais fácil desacoplá-lo do cargo, apesar de toda a resistência.

Trinta e oito integrantes do governo já haviam pedido demissão desde ontem, quando o último escândalo menor virou um caso maior por revelar o maior problema de Boris: uma relação elástica com a verdade.

Sem nenhuma necessidade, ele disse que ignorava os problemas de assédio sexual que cercavam o vice-líder do Partido Conservador, Chris Pincher, que passou a mão em dois homens num clube fechado. Realidade fática: há dois anos e meio um relatório enviado ao primeiro-ministro relacionava os desvios de comportamento que deveriam ter encerrado a carreira de Pincher em qualquer governo.

O caso refletiu um conhecido modus operandi de Boris. Primeiro, alegar que nada aconteceu, depois dizer que foi uma escorregadela, uma falta de lembrança ou alguma outra desculpa esfarrapada. Terminar pedindo desculpas quando sua integridade, ou caráter, já se transformaram no centro da questão.

Imaginem um povo que exige integridade de seus governantes…

Ninguém jamais contestou a integridade de Margaret Thatcher, de Gordon Brown ou de Theresa May, chefes de governo que também caíram em desgraça em seus próprios partidos. Todos honestos, eles exemplificam o instinto de autopreservação que baixa nos parlamentares quando a coisa fica feia.

A eleição geral no Reino Unido será apenas em 2024, mas arrastar Boris até lá passou a ter um preço exorbitante. Obviamente, se a economia estivesse bombando, a gasolina barata e a inflação desprezível, tudo seria diferente. Como não estão, os defeitos de caráter de Boris ganharam um
peso insuportável.

As renúncias em massa foram simplesmente sem precedentes. As cartas de demissão dos dois principais ministros que caíram fora, Rishi Sunak, do Tesouro, e Sajid Rajiv, viraram granadas de mão que explodiram no colo de um Boris escoladíssimo em escapar de armadilhas políticas que
tentou disfarçar o aturdimento usando suas armas de sempre: eloquência, uma boa – embora desacreditada – imitação de sinceridade e até evocações dos grandes clássicos.

“Foi Cícero?Aristóteles? Ah, Montesquieu?”, fingiu não saber quando um parlamentar do comitê que planejava levá-lo à forca metafórica mencionou uma frase dele mesmo sobre o funcionamento do governo.

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Fazer citações em grego e outras exibições de erudição sempre foram parte do charme de Boris. Em vez de tentar disfarçar a educação mais elitista que existe – Eton e Harvard -, como fazem outros políticos conservadores, ele misturava seus arroubos retóricos com uma persona pública saída da Comedia Dell’Arte, um bufão despenteado que conquistou a simpatia do povão quando foi prefeito de Londres.

Não é qualquer um que é chamado pelo primeiro nome na política britânica, com uma sociedade onde a estratificação social é profundamente entranhada. Nem no Partido Trabalhista, que está em festa com a derrocada de um raro nome dos quadros conservadores capaz de ter um canal
direto com as camadas menos privilegiadas, isso é comum.

Até a vida amorosa complicada, com tantos casos extraconjugais que nem dá para cravar quantos filhos tem, não atrapalhou Boris. Seu terceiro casamento, com a jovem e politicamente ligada Carrie, louca para interferir no governo como – comparação inevitável – uma Lady Macbeth vegana, não foi exatamente um motivo de alegria para os dirigentes do partido, mas seria absorvido em condições diferentes.

Para os conservadores de raiz, que sempre desconfiaram das simpatias ideológicas de Boris, ele ganhou uma tremenda quantidade de crédito quando fez o que Theresa May não conseguiu e arrancou o complicado processo que finalmente selou o Brexit.

A ousadia para fazer o que a antecessora – devidamente esfaqueada – não havia conseguido foi uma exceção para um político ioiô, que vai e volta diante de decisões complicadas. E nenhuma foi mais difícil do que definir as políticas públicas quando o mundo foi assaltado pelo coronavírus de
uma forma sem precedentes na era contemporânea.

As hesitações aumentaram a ansiedade da população e só foram compensadas pela forma brilhante como o mundo científico, o empresarial e o político se combinaram para produzir uma vacina contra a praga e, pioneiramente, aplicá-la no braço de quem precisava.

O mesmo impulso arrebatador levou Boris a abraçar apaixonadamente a causa da Ucrânia – e a ser o primeiro líder da Europa Ocidental a ir faturar uns pontinhos ao lado de Volodimir Zelenski em Kiev. Boris virou nome de rua em Odessa e uma receita de croissant, com uma esguichada de
creme amarelo no topo, na capital ucraniana.

Boris ganhou a maior maioria parlamentar para os tories, como são chamados os conservadores, desde Margaret Thatcher, uma conquista tão formidável que se tornou um obstáculo na hora em que os correligionários se uniram para dizer: não dá mais, acabou.

Antes de Boris admitir a crua realidade dos fatos, os candidatos à sucessão já estavam enfileirando forças. A mulher de Rishi Sunak, a multimilionária Akshata Murty, saiu de cozinha com uma bandeja para servir chá e biscoitinhos aos repórteres que acampavam em frente a casa do
casal. Ela virou um problema para o marido quando foi revelado que continuava a ter domicílio fiscal na Índia, uma desmoralização para o chefe da economia, mas o jogo foi zerado.

Rishi é um dos três políticos de origem oriental que aspiram ao posto máximo. Seu sucessor, Nadhim Zahawi, curdo iraquiano que emigrou com a família quando criança, é outro, juntamente com Sajid Javid, de origem paquistanesa, que deixou a pasta da Saúde com palavras cortantes.

Uma série de eleições internas no Partido Conservador determinará quem será o sucessor: cada uma vai eliminando o menos votado, como na escolha dos papas ou do vencedor do Big Brother, até que sobrem os dois candidatos finais.

Os principais aspirantes não chegam nem perto de Boris em matéria de projeção ou de capacidade de criar controvérsias. Para o Partido Conservador, será um alívio e tanto. Depois de Boris Johnson, ter um primeiro-ministro “normal”, qualquer um, soa como um avanço.

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