“Não me acordaram”: Netanyahu sobre fraqueza contra ataque de Gaza
É uma desculpa mais do que esfarrapada, mas o primeiro-ministro tem uma base sólida e conta com ela para superar críticas e ganhar outra eleição
Todos os principais envolvidos, bem como os especialistas em segurança, concordam que as defesas de Israel falharam miseravelmente quando ondas sucessivas de combatentes e civis palestinos vindos de Gaza invadiram áreas fronteiriças em 7 de outubro de 2023. A falta de previsão e a reação relativamente demorada contribuíram para o estarrecedor número de 1,2 mil mortos num único dia. O responsável, em última instância, agora tem uma nova explicação: o alto escalão das forças de segurança deliberadamente não mandou acordá-lo na madrugada fatídica do ataque do Hamas.
É efetivamente uma insanidade, mas explicável pela conveniência política. “Se tivessem me acordado, tudo teria sido diferente”, alegou o primeiro-ministro. Toda a alta cúpula deixou passar os sinais de que o grande ataque estava sendo arquitetado, numa falha sistêmica espantosa num país mobilizado e equipado como Israel, mas até hoje não houve um inquérito incluindo todos os envolvidos – inclusive, e acima de todos, Netanyahu.
A responsabilidade pela catástrofe em matéria de prevenção e reação volta a ser discutida porque Israel está em período pré-eleitoral e Netanyahu quer continuar no poder, sabendo muito bem quais são suas maiores vulnerabilidades. A desculpa do “não me acordaram” faz parte desse processo.
O simples fato de que ele continue a ser um candidato viável a continuar no poder indica como é sólida a base disposta a relevar qualquer coisa no primeiro-ministro por considerar que é, mesmo com suas conhecidas falhas, o nome mais forte para defender Israel. Lembrando que os perigos que cercam o país estão longe de serem resolvidos.
A situação em Gaza é inconclusiva, com os Estados Unidos pressionando por uma retirada israelense em troca de um pouco promissor desarmamento do Hamas. Os fundamentalistas xiitas continuam no poder no Irã, mesmo com capacidade militar reduzida. E os árabes moderados que os americanos pretendiam atrair para um grande acordo com Israel estão fazendo suas próprias alianças, considerando que não foram adequadamente protegidos pelos Estados Unidos. Sem contar a mudança na opinião pública americana, talvez a frente mais importante de todas, com a deterioração do apoio a Israel.
EXTREMA VOLATILIDADE
Pode Netanyahu sobreviver a tantos desdobramentos negativos? Ele é um mestre nessa arte, embora enfrente um rival de peso na figura de Gadi Eisenkot, um ex-chefe do Estado-Maior que, como outros líderes militares, resolveu entrar na política. Criou um partido, o Yashar, que segundo as pesquisas elegeria 24 parlamentares, contra 23 para o Likud do primeiro-ministro.
Somando todas as respectivas alianças, o bloco anti-Netanyahu teria 59 deputados – dois a menos que o necessário para a maioria. Do lado do primeiro-ministro, seriam 50 deputados.
É muito cedo para cravar o que vai acontecer efetivamente em 27 de outubro. Numa situação de extrema volatilidade, não é nada impossível que algum dos múltiplos conflitos volte a entrar em ebulição. Poderia, em princípio, até ser uma situação favorável a Netanyahu, embora seja exagero e até má-fé afirmar, como fez o New York Times, que o primeiro-ministro está procurando briga para se beneficiar eleitoralmente.
Mas ele certamente explora a atitude dos múltiplos adversários de Israel. Diz uma propaganda eleitoral do primeiro-ministro: “Os aiatolás querem que eu perca essa eleição. Hamas e Hezbollah querem que eu perca. A Turquia também. Diz isso abertamente. Perguntem a si mesmos quem os inimigos de Israel querem que ganhe essa eleição? ”.
Para quem acha que o Brasil pré-eleitoral está pegando fogo, imaginem uma campanha política com um total de sete diferentes inimigos. Isso é Israel, onde as apostas são literalmente existenciais – o que só aumenta o ridículo de Netanyahu atribuir os erros de 7 de outubro ao fato de não ter sido acordado a tempo, uma teoria conspiracionista também insuflada por sua mulher, Sara. Para políticos escolados, evidentemente, o risco do ridículo já foi superado há muito tempo.







