Monarquia encrencada: um novo rei para Noruega, rainha consorte rejeitada
Uma transição que deveria ser tranquila é tumultuada pela imagem abalada da mulher que é a consorte do próximo monarca
A Noruega é um país sem drama, sem corrupção, sem desequilíbrios, com os problemas materiais resolvidos pelo pioneiro estado de bem-estar social e as finanças garantidas pelo petróleo do Mar do Norte. A transição na monarquia, puramente representativa, sem nenhum poder fora da esfera simbólica, deveria ser tranquila: o herdeiro, agora rei Haakon, passou seus 51 anos se preparando para ocupar o lugar do pai, o rei Harald V, que morreu esta manhã.
Na vida real, está tudo tumultuado. A mulher do novo rei, com nome diferente, Mette-Marit, está arrastando o prestígio da monarquia para baixo — e isso apesar de seu próprio drama pessoal, sendo afetada por uma doença grave, a fibrose pulmonar, com alto risco de vida.
Mette-Marit vivia no mundo alternativo de Oslo e já tinha um filho quando o príncipe herdeiro se apaixonou e bateu o pé para se casar com ela. Politicamente corretíssimos, os noruegueses não ousaram reclamar e a nova princesa consorte se integrou à família real, gerou dois herdeiros, inclusive a futura rainha Ingrid Alexandra.
Tudo resolvido? De jeito nenhum. O filho do primeiro relacionamento, Marius, se revelou um crápula, do tipo que bate em mulher. Foi condenado a quatro anos de prisão por estupro da namorada e outros delitos.
APOIO EM QUEDA
A própria Mette-Marit se enrolou com a revelação de um relacionamento pior do que estranho: durante anos, foi “amiga” de Jeffrey Epstein, o milionário abusador que gostava de se aproximar de pessoas importantes e membros de monarquias, como o agora rebaixado ex-príncipe Andrew. As investigações nos Estados Unidos revelaram extensa troca de e-mails da agora rainha com o americano que tinha um harém de adolescentes a seu dispor. São mensagens íntimas, algumas de teor sexual. Não há pedido de desculpas, como fez Mette-Marit, que dê jeito.
O efeito sobre a opinião pública foi péssimo. Segundo uma pesquisa de opinião, o apoio à monarquia caiu de 72% em 2024 para 54%, uma perda perto de catastrófica.
Existe possibilidade de recuperação? O drama de saúde de Mette-Marit, que fez transplante de pulmão como única alternativa de sobrevivência, pode amenizar a negatividade do público, mas o estrago está feito.
As vantagens do regime monárquico em democracias avançadas são que representam a continuidade histórica e garantem que reis e rainhas, como chefes de Estado, pairam acima de políticos eleitos e sua bagagem mundana.
ALTA INSTABILIDADE
Exceto quando eclodem os escândalos. O rei Juan Carlos da Espanha precisou abdicar em favor do filho quando vieram à tona suas transações corruptas — hoje vive informalmente exilado em Abu Dhabi. A princesa Diana chegou a contestar a continuidade da sucessão, ao dizer, numa malfadada entrevista, que seu ex-marido infiel não deveria assumir o trono. A ideia de que Diana havia sido injustiçada pela família real abalou seriamente a monarquia quando ela morreu num acidente em Paris aos 36 anos.
Hoje, Charles é rei e lida com a alta instabilidade criada pelo caçula, Harry, e a mulher Meghan, recém-regressados ao Reino Unido, uma garantia de que haverá muitos dramas pela frente.
Para a monarquia britânica, parece até normal. Anormal é a quantidade de eventos negativos na normalmente tranquila Noruega, onde a morte do rei desencadeia uma sucessão cheia de encrencas, com um meio-irmão dos príncipes da nova geração condenado à prisão, uma rainha consorte gravemente doente e enrolada no envolvimento com o milionário abusador que se suicidou na prisão e uma opinião pública ressabiada.
Até no reino da Noruega, com seus 105 mil dólares de PIB per capita e um ambiente social de extrema tolerância, algumas coisas não são bem toleradas.







