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Milei quer negociar reformas, sindicatos querem parar tudo: quem ganha?

Amanhã é um dia importante, com greve geral armada pela CGT apesar de concessões já feitas, como tirar petrolífera da lista de privatizações

Por Vilma Gryzinski
23 jan 2024, 07h13

Javier Milei, no fim das contas, não é tão maluco assim. Está fazendo concessões importantes na “lei ônibus”, uma espécie de lei do fim do mundo para transformar o contrato social na Argentina.

As concessões foram feitas para a “oposição dialoguista”, os partidos que aceitaram negociar as mudanças legislativa – obviamente, sem incluir os peronistas, com sua vasta rede política, sindical, social e cultural, toda mobilizada para acabar com a experiência reformista o mais depressa possível.

Uma amostra disso será dada amanhã, com a greve geral decretada pela CGT, um saco de gatos com várias tendências, mas todas elas unidas sob a bandeira peronista.

Tem que ser uma manifestação de força porque é contra um governo que tomou posse há apenas 44 dias, eleito com 56% dos votos. Sem contar que a CGT ficou quietinha durante quatro anos, enquanto o companheiro Alberto Fernández conduzia o país para o buraco sem fundo do qual Milei pretende tirá-lo a golpes de libertarianismo e lições nunca inteiramente aplicadas da Escola Austríaca.

As chances de que consiga são, obviamente, muito pequenas. Mas as concessões feitas na lei ônibus mostram uma disposição ao diálogo, não um messianismo impermeável. A concessão mais importante, considerando-se a essência antiestatista do presidente, foi tirar a YPF, a petrolífera argentina, da lista de privatizações. Também saíram da lista a Nucleoelétrica, o Banco Nación, equivalente ao Banco do Brasil, e a estatal de telecomunicações. Até o Fundo Nacional das Artes ganhou uma sobrevida.

Outras mudanças importantes abrangem o índice de reajuste das aposentadorias, o prazo e o alcance dos poderes emergenciais pedidos pelo Executivo, alterações na legislação eleitoral e nos repasses de recursos às províncias. Ao todo, foram retirados 141 artigos dos 664 da obra magna que o economista Federico Sturzenegger passou dois anos escrevendo, muito antes que um exótico economista transformado em personalidade de televisão chamado Javier Milei tivesse qualquer possibilidade de chegar a presidente.

FENÔMENO CULTURAL

Foi o desastre produzido durante o governo de Alberto Fernández que abriu caminho a Milei e a suas ideias antiestatizantes num país onde o populismo histórico iniciado por Juan Perón criou, a partir da metade do século passado, um verdadeiro culto ao “Estado indutor e protetor”. Na época, fazia sentido a criação de grandes indústrias estatais, transformadas com o tempo em estruturas ineficientes, custosas e permeáveis à corrupção.

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Milei se transformou num fenômeno cultural, tanto quanto político, defendendo a antítese extrema de tudo que o peronismo – e a esquerda, embora também tenha existido o peronismo de direita – prega.

Enquanto negocia no plano político, Milei leva avante a batalha cultural. Num abaixo assinado, praticamente todos os artistas argentinos de esquerda, incluindo o fenomenal ator Ricardo Darín e os roqueiros Charly García e Fito Páez, condenaram ao quinto dos infernos as reformas de Milei, nas instituições culturais e no país de forma geral.

Um dos signatários, o ator e produtor Adrián Suar, disse num programa de televisão que o novo governo “falava de cultura como se a cultura de um país fosse nada”. Respondeu Milei: “O que ele está fazendo é a defesa de um privilégio”.

“Acontece que não tem dinheiro e, se não tem dinheiro, eu tenho que escolher se colocamos recursos do Estado para financiar filmes que ninguém vê, mas que mantêm o alto nível de vida de certos atores de certo espaço político, ou colocamos esse dinheiro para dar de comer ao povo”.

SEXO TÂNTRICO

Para as manifestações de amanhã, estará em vigor o “protocolo antipiquetes”, a proibição de interrupção do trânsito, uma medida apoiada pela maioria da população. “Querem que coloque 40 mil caminhoneiros em fila indiana?”, ironizou Pablo Moyano, o líder sindical que tem um alto índice de rejeição, mas continua com o poder inabalável que o controle da máquina garante pela eternidade afora.

Moyano foi claro quanto ao objetivo da paralisação: “Exigir aos deputados, fundamentalmente do peronismo, que ainda estão dialogando ou duvidando, que digam na cara do povo se estão com os trabalhadores ou se estão com este projeto que fundamentalmente beneficia os grandes grupos econômicos”.

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Os grupos econômicos na verdade estão assustados com Milei. Davam-se melhor com seu adversário derrotado, o ex-ministro da Economia Sergio Massa.

O discurso de Milei em Davos, como se fosse uma Ayn Rand dos pampas, defendendo a essência do capitalismo e os empresários como heróis que criam riquezas para toda a sociedade, deixou a elite mundial na mesma posição que os equivalentes argentinos – de queixo caído.

Irá esta experiência sem precedentes de choque libertário, e ainda por cima num país já em desastre econômico, sobreviver ao estrago inevitável que precede as reformas? A disposição ao diálogo indica alguma possibilidade de governabilidade?

“Quando estamos juntos somos explosivos, explosivos, entende?”, disse a namorada do presidente, a comediante Fátima Florez, que a revista dominical do Times de Londres tentou ridicularizar num perfil de capa, com referências ao sexo tântrico que Milei diz praticar.

Se Milei for menos explosivo fora da intimidade das quatro paredes, pode aumentar suas chances de sobrevivência política ou virará mais um administrador do caos?

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