Mentiroso e plagiador, professor britânico é protegido por ser negro?
A pergunta é explosiva, mas também inevitável diante da complacência com Jason Arday, professor de Cambridge flagrado em rede de mentiras
O mundo acadêmico na Grã-Bretanha está pegando fogo e o incendiário é Jason Arday, professor de sociologia da educação em Cambridge, uma das mais prestigiosas universidades do planeta, cujas mentiras delirantes vão muito além das acusações de plágio, a encrenca mais comum nos meios universitários.
Arday é a realização dos sonhos woke: o mais jovem professor negro de Cambridge e uma figura imponente, com dreadlocks abaixo da cintura e olhos exoticamente maquiados. É também um mentiroso ao nível da mitomania, um caso até de dimensões médicas.
Não é ofensivo nem racista concluir que, se tivesse um tom de pele mais claro, já teria sido exposto como um impostor do tipo que poucas vezes se viu.
Além de 180 trechos de sua tese de doutorado plagiados do trabalho de uma colega (cheio de menções a Habermas, como é quase obrigatório nesse meio), ele já disse que tinha autismo e não falou até os 11 anos e só aprendeu a ler e a escrever aos 18; e que correu 960 quilômetros em seis dias para levantar dinheiro para obras benemerentes (no total, arrecadou impossíveis 5,5 milhões de libras). Também completou trinta maratonas em 35 dias, das quais seis com uma fissura na perna. Participou de um programa de televisão lançado em 1964, embora tenha nascido em 1985. E recebeu uma cabeça de porco em casa, num episódio sem registros policiais, embora afirme que os fez.
CULPA DO AUTISMO
Muitas pessoas se sentem desconfortáveis com o caso, pois qualquer crítica à condescendência com que as mentiras do professor foram tratadas parece implicar em motivação racial. Também não é certo ignorar o peso do preconceito real, principalmente quando minorias raciais contrariam os estereótipos das carreiras esperadas. Arday deve ser julgado exclusivamente pelo que fez. E o que fez é um escárnio. Até o Guardian, guardião implacável das regras do mundo woke, fez uma reportagem em que aponta, cautelosamente, as contradições do professor.
Acusações de plágio são comuns no meio universitário e no político também. Joe Biden copiou um discurso do líder trabalhista britânico Neil Kinnock e Melania Trump fez um discurso inteiramente tirado de uma fala de Michelle Obama. Foi um constrangimento daqueles.
Os recursos existentes hoje não deixam lugar a dúvidas sobre as cópias. Já renunciaram a seus cargos, por plágio nos tempos universitários, um ministro da Defesa da Alemanha, Karl-Theodor zu Gutternberg (o nome imponente foi ironizado na imprensa como barão de Googleberg) e um presidente da Hungria, Pál Schmitt. Branquíssimo e de direita, do mesmo partido do hoje derrotado Viktor Orbán, o ex-campeão olímpico de esgrima perdeu também o título universitário produzido pela tese – plagiada – sobre medicina esportiva.
Copiar o trabalho intelectual de outras pessoas é um abuso ético indicador de grave falha de caráter e nos meios universitários é alta a sensibilidade a esse tipo de deslize. Ninguém quer ser copiado – e menos ainda ver colegas prosperar à custa do trabalho de outros.
Mais do que um plagiador, Jason Arday criou um personagem que já foi comparado aos tipos satirizados por Sacha Baron Cohen. Cambridge tem que dar uma resposta convincente e profissional. E Arday deve ser julgado pelo que fez, não pelo que é, não obstante as previsíveis reações ideológicas (“Vítima do sistema”, na visão de esquerda; “São todos iguais”, na reação desproporcional da direita). Previsivelmente, ele já disse que “erros” em seus trabalhos devem ser debitados ao autismo – o que torna mais difícil sentir compaixão por um caso de extremo desequilíbrio, como o dele.
Os autistas, além de todas as pessoas decentes, não merecem ouvir isso.







