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Matou os três filhos e virou musa: o caso da glorificação de assassinos

Intoxicação social leva pessoas comuns a manifestar apoio à mãe que enforcou suas criancinhas e o jovem que matou executivo de plano de saúde

Por Vilma Gryzinski 25 ago 2026, 07h05
Matou os três filhos e virou musa: o caso da glorificação de assassinos Priorizar nos meus resultados Google

Se alguém andar entre as mulheres vestidas de cor-de-rosa que se reúnem em frente a um tribunal de Plymouth, Massachusetts, pode achar que está em meio a um culto. Terá uma parte de razão: as mulheres que fazem coraçãozinho com as mãos e, em alguns casos, levam seus próprios filhos, estão lá para defender, não condenar Lindsay Clancy, que enforcou os três filhos, uma menina e dois meninos, com idades de oito meses a cinco anos.

Lindsay, ao contrário do opróbrio absoluto que o infanticídio provoca, virou uma espécie de líder feminista. As mulheres que espontaneamente ficam na frente do tribunal levam camisetas e cartazes dizendo “Paz para Lindsay” e “Ela precisava de ajuda”. Nisso, têm razão. Os advogados alegam que ela sofria de psicose pós-parto e foi rejeitada em suas tentativas de receber atendimento médico.

Se o distúrbio realmente existia e se conturbou a mente de Lindsay a ponto de provocar o tríplice assassinato, a justiça decidirá. Mas o fanatismo das mulheres que a glorificam evoca os sentimentos provocados por Luigi Mangione, o jovem bonitão que matou a tiros numa rua de Nova York o executivo de um grande plano de saúde, Brian Thompson.

Mesmo antes de ser capturado, ele já havia provocado uma espécie de “culto a Luigi”, seguidores apaixonados – incluindo muitas mulheres – que torciam para que não fosse pego, apesar da incrível coleção de pistas deixadas, inclusive digitais, contrariando sua formação como engenheiro de computação.

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HIBRISTOFILIA

As etapas iniciais do julgamento de Mangione atraíram multidões, mas acabaram frustrando seus admiradores: o assassino fez um acordo com a promotoria, admitindo o crime em troca de uma pena menos dura do que a prisão perpétua. Acabou o show. Não haverá um julgamento daqueles de cinema, embora os admiradores do assassino continuem buscando desculpas – uma mulher disse que a vítima, como diretor de plano de saúde, havia “matado milhares com seu laptop” ao negar procedimentos e reembolsos.

Glorificar criminosos é típico do pensamento politicamente correto, que sempre procura identificar vítimas em lugar de perpetradores. O cinema e a literatura também contribuíram para dar uma aura de charme a grandes criminosos. Esse processo é ilustrado acima de tudo no Brasil pela forma como o cangaceiro Lampião, um assassino cruel e indiscriminado, foi promovido a líder de uma rebelião social de desvalidos. Mentira, ele queria mesmo era roubar, mas com um apelo sedutor.

É conhecida a atração que algumas mulheres sentem por criminosos, gerando o fenômeno das filas de candidatas a namorada dos condenados do corredor da morte. Na psicologia, existe até um nome para definir a atração por criminosos, a hibristofilia.

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TERRA DE BONNIE E CLYDE

Não é possível, claro, ignorar o contexto social em que se movimentam criminosos célebres. Luigi Mangione, além do apelo da bela estampa, mexeu num assunto de enorme interesse. Quem não sentiu raiva, frustração, desespero até ao lidar com planos de saúde? Nos Estados Unidos, é um assunto enorme e ajuda a entender, mas não a endossar, o impulso dos mangionistas – nome de um grupo de WhatsApp que defendia Luigi.

A tragédia pessoal de Lindsay Clancy também deve levar em consideração a deterioração mental que ela sofreu, sem nunca encontrar ajuda suficiente. Depois de enforcar os filhinhos, ela pulou do segundo andar da casa da família e ficou paraplégica. É um caso devastador. Mas também é errado defendê-la como heroína feminista, embora na terra de Bonnie e Clyde sempre haja candidatos a exaltar malfeitores.

O julgamento de Lindsay Clancy está chegando ao fim. Não haverá coraçõezinhos que mudem a cabeça dos que a julgam. Criminosa cruel, vítima de um sistema inclemente, doente mental sem condições de discernimento ou uma mistura disso tudo? A defesa diz que estava incapacitada pela psicose pós-parto, a acusação reconstituiu como ela tramou para afastar o marido de casa, mandando-o comprar comida e remédio, para ficar livre e esganar as crianças com a faixa elástica. Ao voltar, ele encontrou os filhos mortos.

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Lembra, obviamente, a tragédia grega de Medeia, que matou os dois filhos para se vingar do marido, Jasão, que se casou com outra (igualmente assassinada). “De todas as criaturas que podem sentir e pensar, nós, mulheres, somos as que mais sofrem”, diz ela na peça de Eurípedes. Estarão as mulheres de rosa ouvindo palavras escritas há 2,5 mil anos?

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