Marine agora pode ser candidata a presidente. Mas deveria?
Decisão da justiça favorece a líder da direita, embora haja um movimento para dar a vez ao mais popular Jordan Bardella
“Quando querem nos castigar, os deuses atendem às nossas preces”, disse famosamente Oscar Wilde, evocando uma situação recorrente em múltiplos aspectos da vida e, agora, ilustrativa do drama francês de Marine Le Pen: por decisão da justiça, ela ganhou uma janela de oportunidade para ser, pela quarta vez, candidata a presidente. Detalhe: teria que usar tornozeleira, mas acredita que isso cai até a campanha presidencial. Ou seja, a líder da direita viu uma brecha para não passar a missão para seu pupilo, o jovem Jordan Bardella.
Foi uma decisão shakespeariana. A trajetória de Marine se dedicou a limpar todos os empecilhos ideológicos que impossibilitavam uma vitória da direita populista. Isso incluiu tirar do seu universo a figura mais importante de todas, o pai, Jean-Marie Le Pen, por causa do ranço neofascista que o contaminava.
Agora, existe uma possibilidade real de que não se repita o quadro das eleições anteriores: esquerda e centro, além da direita tradicional, se uniam para impossibilitar uma vitória da Frente Nacional, rebatizada de Reagrupamento Nacional. O pessimamente avaliado governo de Emmanuel Macron e a questão infernal da imigração descontrolada abriram caminho para uma vitória da direita nacionalista, algo inconcebível até poucos anos atrás na França.
De repente, a faca e os 365 tipos de queijo (evocando a frase do general De Gaulle sobre as dificuldades de governar um país assim) se consolidaram na mão de Marine. Exceto por um detalhe: um processo em que é acusada de desvio de fundos, ou peculato, no exercício de seu mandato como deputada pelo Parlamento Europeu. Marine nem disfarça que efetivamente usou verbas decorrentes desse mandato para a sua atividade-fim, como líder política de um partido francês dedicado a conquistar o poder.
Criatura e criadora
Não foi a única que fez isso, mas pegou pela frente um sistema judiciário politizado que a condenou a cinco anos de prisão e à perda da elegibilidade, mesmo com uma decisão de primeira instância. Até elementos contrários a Marine Le Pen acharam que ela estava sendo penalizada por ser quem é – as ilações com os exemplos brasileiros são por conta e risco de quem quiser fazê-las.
Pelo recurso julgado ontem, a pena foi reduzida de cinco anos para 45 meses, o que coincidiria exatamente com a candidatura à eleição presidencial de abril do próximo ano. Exceto pelo detalhe da tornozeleira que a acompanharia durante a campanha. Marine já disse que considera incompatível o monitoramento eletrônico, e suas restrições, com a mobilidade exigida de um candidato presidencial. Agora, viu uma janela de mudança até a campanha.
Quem seria o candidato com mais chances, ela ou Jordan Bardella? As pesquisas dão alguns pontinhos a mais para o jovem formatado pela própria Marine, mas que desenvolveu vida própria e hoje aparece como mais qualificado a “tomar as decisões certas”e “entender os problemas cotidianos dos franceses”. Nas condições de hoje, qualquer um dos dois iria ao segundo turno, mas ambos perderiam se o candidato oposto fosse o ex-primeiro-ministro Edouard Philippe.
A criatura que se volta contra seu criador é um dos clássicos da política e as próximas etapas indicarão se o pacto entre Marine e Jordan Bardella se mantém. A candidata já antecipou que ele será primeiro-ministro caso seja eleita presidente.
Se perder, todo mundo já sabe quem será responsabilizada.







