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Mães do Moskva: “Por que comandantes se salvaram e recrutas morreram?”

A conformidade com a versão oficial da guerra na Ucrânia é quebrada por uma das mais poderosas forças da natureza, mães revoltadas

Por Vilma Gryzinski 22 abr 2022, 06h45

“Eu comprei passagem só de ida. Vou visitar todos os hospitais”. Assim Tatiana Efremenko resumiu o que pretende fazer em Moscou: procurar o filho, Nikita, de apenas 19 anos.

É uma procura dolorosamente inútil. Nikita está entre os tripulantes muito jovens, de 18 a 22 anos, que já foram dados por mortos no ataque com mísseis que provocou um incêndio e depois o naufrágio do cruzador Moskva, a maior perda russa desde que a guerra começou.

Esperança – e revolta – de mães e pais dos mortos do Moskva estão quebrando a fortíssima carapaça de conformidade com as explicações oficiais absurdas para a invasão da Ucrânia – descrita como um país dominado por neonazistas e drogados que perseguem brutalmente a população de origem russa e precisam ser “expurgados”.

Vladimir Putin pode ter 80% de aprovação, mas as vozes de mães desesperadas são fortes. “Como é que todos os comandantes escaparam, mas os meninos recrutas continuaram lá?”, pergunta Tamara Grudinia, que perdeu o filho de 21 anos, Seriozha.

Ela pelo menos recebeu um telefonema do oficial responsável e a informação de que o filho estava entre os desaparecidos.

Dmitri Shkrebets, pai do cozinheiro Yegor, de 20 anos, também não se conforma que jovens recrutados para o serviço militar obrigatório estejam entre as baixas, enquanto as patentes superiores escaparam.

“Vou dedicar minha vida inteira a garantir que a verdade venha à tona. Um pai que perdeu o filho de forma tão cruel não tem medo de nada”, avisou. “Os culpados têm que ser punidos pelo que fizeram. Ou melhor, pelo que não fizeram.”

“Esses meninos não deveriam estar lá durante estas operações. Deveriam ter sido desembarcados em Sebastopol.”

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A revolta de pais e mães evoca as reações de agosto do ano 2000, quando um recém-eleito presidente chamado Vladimir Putin rejeitou as ofertas de ajuda de especialistas britânicos e noruegueses para tentar resgatar submarinistas do Kursk, que havia explodido por causa de um vazamento de peróxido de hidrogênio de um de seus mísseis.

Quando os mergulhadores chegaram ao submarino, os sobreviventes haviam morrido. Um oficial havia deixado anotações pungentes sobre o drama: “Somos 23 aqui. Ninguém pode sair”.

As informações tiradas de redes sociais e de entrevistas com familiares apontam para cerca de 40 mortos e 200 hospitalizados com queimaduras entre os 510 tripulantes do Moskva, um navio de guerra do tamanho de dois campos de futebol que, oficialmente, sofreu um incêndio acidental., uma balela na qual nem putinistas convictos acreditam.

As reações de revolta contrastam com manifestações quase surrealistas interceptadas por militares ucranianos em conversas de soldados russos com familiares. Num desses contatos, a mulher de um soldado diz que ele está “autorizado” a estuprar ucranianas.

Em outro, um recruta diz para a mãe que não entende a missão na Ucrânia e que estão “matando mulheres e crianças”.

“Não diga isso, vocês não matam mulheres e crianças”, interrompe a mãe. “Vocês estão matando fascistas.”

Existe alguma esperança de que os próprios russos, em números significativos, venham a desconfiar das mentiras oficiais e entendam que seus jovens estão sendo mortos porque Vladimir Putin os enviou para uma guerra injusta e baseada em falsas premissas? E que é ele também o responsável final pela anarquia reinante nas fileiras militares, com a prática oficiosa de saques, estupros e assassinatos de civis?

Seria otimismo demais achar que isso vai acontecer num prazo razoável. Mas quando e se acontecer, as mães dos jovens mortos nos Moskva terão dado os primeiros sinais de alerta.

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