Lendo pesquisas em Teerã: Netanyahu é mais popular do que em Israel
Esta é uma das muitas surpresas do levantamento que mostra rejeição ao regime e desejo de mudança da maioria dos iranianos
Afinal, o que querem os iranianos? As imagens de apoio radical ao regime islâmico e ódio aos Estados Unidos e Israel ocultam uma realidade muito mais complexa e mesmo contraditória com os grandes protestos do começo do ano, segundo uma pesquisa feita por uma ONG que funciona na Holanda, o Grupo para Analisar e Mensurar Atitudes no Irã. Foram ouvidas 31.450 pessoas, uma amostra muito significativa. Surpresas: 40% dos iranianos acham que os ataques americanos e israelenses foram uma “intervenção humanitária” – ou seja, abominam tanto o regime que admitem bombardeios estrangeiros no país. Mais estarrecedor ainda: 51% têm uma imagem positiva de Benjamin Netanyahu – em seu próprio país, a aprovação ao primeiro-ministro israelense não passa de 40%. Obviamente, a avaliação positiva é vista à luz dos estrago causado entre os figurões da teocracia.
Embora 48% considerem que os ataques foram uma agressão militar, 60% se declararam satisfeitos com o enfraquecimento da república islâmica. Mais: 52% não ficaram tristes com a morte do aiatolá Ali Khamenei, o líder máximo bombardeado por Israel num bunker logo no começo da campanha. E 25% ficaram indiferentes. São números nada menos que impressionantes – inclusive considerando-se quantos órgão da mídia ocidental compraram a versão de um pais inteiro em luto pela morte de um venerado estadista. Nada menos que 79% dos iranianos apoiaram uma das palavras de ordem mais agressivas das manifestações de protesto de janeiro, “Morte ao ditador”.
As conclamações promovidas pelo regime são maciçamente rejeitadas: 66% são contra ao slogan dos ultrarradicais – “Sem compromisso, sem rendição; combate aos Estados Unidos”. E 62% não se identificam com “Morte a Israel”, mesmo depois de quase meio século de ódio oficial ao Estado judeu.
A pesquisa também indicou um apoio maior do que o senso comum indicaria ao regime monárquico derrubado pelos aiatolás. Apenas 13% querem continuar vivendo sob numa república islâmica. Ao todo, 34% preferem uma monarquia, 28% optariam por uma república comum, não teocrática.
NADA ABSURDO
Sobre os protestos de janeiro, tão brutalmente reprimidos, nada menos que 25% disseram ter participado (um número igual não respondeu, possível indicador de intimidação). Motivação: 71% estavam insatisfeitos com a república islâmica, 62% se mobilizaram por causa da inflação e da corrupção e 55% porque o herdeiro do trono no exílio, príncipe Reza Pahlavi, conclamou a população a participar.
Não são assim nada absurdas as hipóteses levantadas por Israel, que ajudaram a convencer Donald Trump a desfechar a campanha, sobre um clima de enorme insatisfação popular que poderia ter se traduzido numa verdadeira insurreição.
Não foi o que aconteceu, para grande frustração de Trump, mas a rejeição ao regime continua, obviamente, latente e muito disseminada. Não pode ser eliminada a hipótese de que ainda venha a acontecer. Os mais radicais parecem ter saído fortalecidos da dupla campanha israelense e americana, pelo simples fato de sobreviver, mas a pesquisa mostra que continua a existir um clima de extrema insatisfação.
Imaginem um Irã em que o governo não vivesse em função do ódio aos Estados Unidos e a Israel, sem imposição de princípios teocráticos e com o recuo dos radicais a seus nichos. Cada mulher se vestiria como quisesse, com ou sem véu cobrindo os cabelos. A religião seria uma escolha pessoal, não uma imposição oficial. Não haveria um líder supremo com a palavra final em tudo, mas uma democracia normal, adaptada às condições iranianas. Parece difícil, principalmente diante do aparente fortalecimento do regime, mas a maioria dos iranianos quer um futuro assim. E, em nome disso, até aprova o mais execrado dos israelenses.






