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Internação por vício da filha de Biden e questões jornalísticas envolvidas

É certo ou não divulgar que Ashley Biden escreveu diário quando estava na rehab e o material chegou às mãos do implacável Projeto Veritas?

Por Vilma Gryzinski 27 dez 2021, 07h30

Num mundo ideal, a imprensa de esquerda vigia governos de direita e vice versa. Na vida real, é mais complicado.

O caso do diário de Ashley Biden provoca reflexões. Enquanto seu pai estava em campanha contra Donald Trump, ela morava na Flórida, fazendo tratamento para vício. O caso nunca tinha sido explicitado e passou despercebido – ou foi ignorado deliberadamente. Inclusive porque o maior viciado da família, Hunter Biden, esgotava o assunto, incluindo no pacote suspeitas fundamentadas de que, quando não estava mergulhado na autodestruição de crack, vendia influência para quem quisesse faturar com seu pai, quando vice-presidente de Barack Obama.

A justiça americana está investigando se o caso do diário da filha do presidente se inclui na categoria associação ilícita para prática de crime.

O diário chegou às mãos do Projeto Veritas, uma organização especializada em vasculhar temas caros aos conservadores, usando a tática de apresentar seus jornalistas como profissionais de diferentes áreas. A investigação de maior repercussão do Veritas foi feita junto a clínicas de aborto. Os jornalistas se passaram por representantes de um centro de pesquisas com fetos e médicas envolvidas na clínica, filmadas secretamente, discutem com clareza chocante como tiram e vendem órgãos de fetos abortados.

No caso da filha do presidente, aparentemente ela deixou para trás o diário dentro de uma sacola de viagem na casa da Flórida onde morou temporariamente ao sair da clínica de recuperação, outra inquilina o encontrou e a partir daí o volume passou pelas mãos de “simpatizantes de Trump”, segundo reconstituição feita pelo New York Times. Se fosse um diário de Ivanka ou dos filhos de Trump, o jornal não mostraria tantos pruridos.

A questão fundamental desse caso envolve perguntas fundamentais sobre o exercício do jornalismo. Qual a fronteira entre reportagens investigativas e manipulações com objetivos políticos? Jornalistas podem ser culpados por ter posse de material obtido não legitimamente? Têm o direito profissional de divulgá-lo?

Qualquer bom repórter já se viu em situações parecidas: a origem de um furo sobre corrupção ou outro abuso de poder não é lá muito legítima. Um recurso comum é “lavar” a informação, entregando-a a um parlamentar que, por privilégio do cargo, pode divulgá-la.

Outro truque, amplamente usado no caso da falsa conspiração entre Donald Trump e o regime russo, é “desovar” o material – no caso o dossiê mentiroso – numa publicação menos comprometida com regras éticas. No caso do complô russo, foi a revista Mother Jones. A partir daí, a porteira abriu.

Agentes do FBI entraram de madrugada na casa de James O’Keefe e o levaram algemado, só de cueca.

Por mais que ele seja odiado por toda a imprensa progressista americana, é impossível ignorar o fato de que muitas das maiores reportagens da história americana foram baseadas em documentos obtidos ilegalmente por “whistleblowers”, os informantes que passaram para Julian Assange, por exemplo, uma enorme quantidade de informações sigilosas nos ramos diplomático, militar e de inteligência.

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O caso que antecedeu todos foi o dos Papéis do Pentágono, de 1971, quando o New York Times lutou na justiça até ter validado o direito de divulgar documentos militares secretos sobre a Guerra do Vietnã. Ironicamente, o jornal está envolvido numa batalha jurídica com o Projeto Veritas e um juiz estadual o proibiu de divulgar contatos da organização com seus advogados e até de mencionar o fato. A briga jurídica promete.

Qual o interesse jornalístico na vida privada de Ashley Biden? A resposta é complicada. Quando Biden era vice, o New York Post recebeu e entregou à polícia um vídeo em que ela, ou supostamente ela, aparece cheirando cocaína. Em 1999, Ashley foi detida por posse de maconha.

Agora, trechos aparentemente tirados de seu diário mostram que ela escreveu ter sido “hipersexualizada” quando criança e provavelmente foi molestada – “não lembro detalhes, mas lembro do trauma”.

Ela também escreve que fez “sexo com colegas” numa idade precoce e também se lembra de “banhos com meu pai (provavelmente não apropriado)”.

São anotações de teor extremamente íntimo que acabam circulando mesmo com todas as precauções. Podem expressar fatos ou apenas impressões. Ou podem ainda nem ser autênticas.

A família Biden é marcada pelo vício. Um levantamento feito pelo Daily Mail apontou cinco membros da família que já fizeram tratamento: Hunter, Ashley, o irmão Jim, a sobrinha Caroline e Hallie, a viúva do adorado filho mais velho do presidente, vítima de câncer no cérebro, que teve um caso com o cunhado depois da morte do marido.

Em vários trechos de mensagens encontradas num computador que Hunter largou para consertar e nunca mais foi buscar – um problema de segurança em si-, Joe Biden sempre aparece dizendo que tem amor incondicional pelo filho e muito orgulho dele por enfrentar tantas batalhas. Numa mensagem, ele parece atribuir a adição a uma herança genética proveniente “da mamãe e de mim”.

Como Donald Trump, Biden não bebe. Trump porque viu o irmão mais velho, piloto de avião, ser levado pelo alcoolismo. Biden, segundo disse certa vez, porque “já tem alcoólatras suficientes na minha família”, principalmente pelo lado da mãe.

Ashley tem 40 anos, é casada com um cirurgião plástico ultimamente distante, trabalha numa organização que ajuda vulneráveis a encontrar emprego e aparece pouco ou quase nada na Casa Branca. É a única filha de Biden com Jill. Os irmãos são do primeiro casamento, marcado pela terrível tragédia do acidente de automóvel em que a mulher de Biden e a filhinha bebê morreram, deixando os meninos gravemente feridos.

Detalhe: o Projeto Veritas tinha o diário, mas não publicou seu conteúdo. É melhor continuar assim em favor do direito à privacidade de alguém que não escolheu ser filha de quem é? Existe algum interesse público na sua divulgação? Uma organização jornalística podem usar material que foi vendido ou obtido ilegitimamente? São perguntas complexas cujas respostas nunca agradam a todos.

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