Inacreditável: Arábia Saudita sem petróleo e sem apoio dos Estados Unidos
Príncipe está acuado pelos maltrapilhos hutis, que estão sufocando o trajeto dos petroleiros num momento em que Trump não quer interferir
Os ataques estão vindo de todos os lados, desfechados pela coleção de aliados xiitas que o Irã cultivou (e financiou) no Oriente Médio, e os americanos não estão querendo ajudar, num momento em que seria altamente negativo, do ponto de vista da opinião pública, qualquer coisa que pareça ampliar a impopular guerra. Este é um resumo rápido da situação da Arábia Saudita – uma situação complicada e quase sem precedentes, considerando-se a força da aliança que tem com os Estados Unidos.
Tudo isso, claro, com as previsíveis consequências: qualquer coisa com o já prejudicado fluxo de petróleo saudita piora a situação de preços e abastecimento do mundo inteiro. Os mais pessimistas chegam a falar num petróleo a 120 dólares o barril. Ironicamente, o mais afetado seria justamente Donald Trump, com popularidade em baixa e perspectiva de levar uma sova nas eleições legislativas de novembro, perdendo a maioria na Câmara e possivelmente no Senado.
Trump não quer, como deixou claro em dois telefonemas com o príncipe Mohammad Bin Salman, se envolver na repressão aos hutis. Com um estranho detalhe, não confirmado: os hutis pediram a Trump para ficar de fora.
Rápida memória: os maltrapilhos guerrilheiros tomaram quase todo o Iêmen e seguem, em geral, a ordem do Irã de tumultuar tanto quanto possível o fluxo de petróleo dos vizinhos árabes. Odeiam os sauditas, que apoiam o outro lado na luta pelo controle do país e os bombardeiam há anos. De chinelo, camisolão e Kalashnikov (fora mísseis e drones dados pelo Irã), são capazes de causar um estrago considerável, como voltaram a demonstrar ao tomar ilhotas na entrada do Mar Vermelho, rota de passagem alternativa ao Estreito de Ormuz.
POSSIBILIDADES ESTONTEANTES
Somada ao bombardeio de um importante oleoduto, a situação ficou grave. “Os sauditas estão realmente frustrados. Em vários sentidos, é o pior cenário para eles”, disse ao New York Times um ex-embaixador americano no país, Michael Ratney.
Tão frustrados que chegaram a sondar Israel sobre como poderiam ajudar. O país também está próximo de eleições e sem vontade de agir sozinho numa situação em que o conflito, temporariamente suspenso, poderia se agravar.
Resumiu o Times: “Nos primeiros meses de hostilidades, a Arábia Saudita saiu relativamente ilesa dos ataques retaliatórios do Irã. Agora, sem nenhum fim das hostilidades à vista, o Irã está procurando pressionar mais os Estados Unidos e a Arábia Saudita – o maior produtor mundial de petróleo antes que a guerra a empurrasse para baixo na lista – se tornou um alvo primário”.
Que diferença do tempo em que MBS parecia o melhor amigo de Trump, disposto até a brigar com jornalistas americanos por fazerem perguntas “constrangedoras” (tipo por que mandou mandar matar e esquartejar um jornalista incômodo) ao todo-poderoso príncipe saudita, na prática um monarca absolutista que pode tudo e tinha colocado todas suas notáveis capacidades para transformar o país numa potência de negócios e turismo na era pós-petróleo.
Como esta era não chegou e o que dá dinheiro mesmo continua a ser o ouro líquido sob seus areais infinitos, a Arábia Saudita está ficando cada vez mais sem saída. Conseguirá demover Trump? Poderá se jogar nos braços da China? Irá tentar um acordo separado com o Irã? Negociará uma surpresa inesperada com Israel? São possibilidades estonteantes. Mas o príncipe Bin Salman pode ser acusado de muita coisa, menos de pensar pequeno.







