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História vira hit: o povo quer saber

Sucessos como 'A Odisseia' mostram sede por conhecimento

Por Vilma Gryzinski 13 set 2026, 08h00
História vira hit: o povo quer saber Priorize VEJA no Google

Vale a pena dar uma olhada mais atenta a alguns fenômenos culturais que estão acontecendo no mundo e o que eles representam. O filme A Odisseia, por exemplo, faturou 1,5 bilhão de dólares, mostrando a curiosidade universal por uma obra de quase três milênios. Alguns espectadores já ouviram falar remotamente do épico de Homero, nem que seja somente através dos inúmeros personagens de culturas populares que emulam a engenhosidade de Ulisses, o herói perdido. Outros querem conhecer melhor o clássico dos clássicos. E tem, claro, o apelo do cinema, insubstituível quando bem-feito, como instrumento para contar grandes histórias.

Mas uma grande, fenomenal história também pode ser contada através de humildes bordados, uma arte feminina que narra os acontecimentos muito masculinos da conquista da Inglaterra pelos normandos, a reviravolta mais existencial da história do país. Os ingleses estão fascinados com a exposição, no British Museum, da tapeçaria de Bayeux — na verdade, uma tira de 70 metros de linho com bordados em seda, eterna inspiração das histórias em quadrinhos e até de artistas pop como Keith Haring. A história, obviamente, é contada do ponto de vista dos vencedores, com a vitória do duque da Normandia, Guilherme, o Conquistador, sobre Harold, o rei dos anglo-saxões. Como já se passaram 1 000 anos, existe distanciamento suficiente para ver o extraordinário artefato como um dos elementos de um enredo complexo, sobretudo sabendo como os conquistadores acabaram se fundindo aos conquistados, mudando a dinâmica de oprimidos e opressores.

“Existe um público enorme na busca de conhecer mais, em última instância, sobre si mesmo”

Os ingleses também não resistem às pequenas vinhetas, acima e abaixo das cenas principais, inclusive as sexuais, com um total de cinco homens nus. A exuberância peniana explode nos magníficos cavalos, dos quais 88 são dotados de aparatos genitais tanto mais impressionantes quanto é importante o cavaleiro, culminando no animal exaltado do normando Guilherme. Conhecer mais a própria história, e de maneira leve e curiosa, sem as recriminações do pensamento politicamente correto, é outra vantagem da tapeçaria de Bayeux, a cidade francesa de onde saiu para o British. Hoje, na Inglaterra, qualquer palavra sobre história tem que vir acompanhada da autoflagelação em relação ao período colonial. Em escala bem menor, a sede por conhecimento também acontece na França com o sucesso do documentário sobre Charles de Gaulle. O líder monumental que fugiu de seu país ocupado para Londres levando na mala um par de calças e quatro camisas e voltou como libertador (com certa ajudazinha de americanos e ingleses) é mostrado sem o ar reverencial de costume.

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A ânsia por histórias sem as lições de moral do pensamento woke nem a ridicularização de personagens, como é frequente no Brasil, mostra que existe um público enorme que quer saber mais sobre, em última instância, si mesmo. Interesse pelo passado e respeito por líderes que não despencam para o abuso de seus cargos são valores conservadores, mas não necessariamente de direita. Valem em qualquer lugar do mundo. Precisamos desse tipo de reafirmação quando vivemos momentos históricos estupefacientes. Quando tudo parece perdido, a arte nos traz esperança. “Sabedoria para resolver e paciência para executar”, nos diz Homero através dos tempos.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012

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