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Funeral do líder iraniano: precedente teve até corpo de Khomeini virado

Devido à tradição xiita de manifestações explosivamente emocionais, cerimônia descambar ao exagero e mostrar imagem de apoio em massa

Por Vilma Gryzinski 3 jul 2026, 06h57 | Atualizado em 3 jul 2026, 06h57
Funeral do líder iraniano: precedente teve até corpo de Khomeini virado Priorizar nos meus resultados Google

Ali Khamenei foi morto por sucessivos bombardeios israelenses nos segundos iniciais da guerra aérea desfechada em fevereiro contra o Irã. Agora, o regime certamente quer mostrar, força e apoio popular com as cerimônias fúnebres que começaram ontem e durarão seis dias, com o cortejo fúnebre passando até por outro país, o Iraque, um importante centro da religião xiita. Certamente haverá multidões gigantescas, evocando o último grande cerimonial do gênero, o conturbado enterro do aiatolá Khomeini, o fundador do regime teocrático.

Os números que entraram para a história – embora sem comprovações hoje mais fáceis – mencionam dez milhões de pessoas nas ruas, lamentando dramaticamente a morte, em 1989. A certa altura, o corpo foi tomado pela multidão, com a mortalha rasgada mostrando uma perna muito branca. Teve que ser levado para novo ritual de purificação e depois transportado de helicóptero para o local de sepultamento, hoje um centro de peregrinação, com uma construção grandiosa em volta.

Tudo isso faz parte do xiismo, o ramo minoritário da religião muçulmana, onde manifestações assim são não só aceitáveis como incentivadas. Os sunitas acham um horror e cumprem o mandato de enterros simples, sem túmulos enfeitados. A própria estrutura vertical da religião, com um líder religioso no topo, algo remotamente parecido com um papa, só existe entre os xiitas. E só no Irã existe um regime em que política e religião se fundem, com o líder supremo tendo a palavra final em tudo.

Em 47 anos de regime, o país teve só dois desses líderes, homens com sobrenome parecido, Khomeini e Khamenei. Todos estarão atentos para ver se o terceiro, Mojtaba, o filho de Khamenei, aparece no enterro do pai. No mesmo bombardeio de fevereiro, ele sofreu ferimentos de extensão ainda ignorada fora dos círculos mais fechados do regime e não é visto em público desde então. Sua mulher morreu e foi sepultada na quarta-feira.

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DEMONSTRAÇÃO DE FORÇA

As circunstâncias das cerimônias fúnebres são excepcionais, com o país tecnicamente ainda em guerra com os Estados Unidos e Israel, sem defesas aéreas nem aviões que impeçam uma incursão estrangeira. Israel já teve uma situação similar: o enterro do líder do Hezbollah, Hassan Nazrallah, quando chegou a ser discutida a hipótese de um ataque localizado ou até um bombardeio com algum tipo de tinta. No fim, jatos da Força Aérea apenas sobrevoaram a multidão em Beirute.

Ironicamente, quem garante a segurança no enterro de Khamenei são os americanos. Donald Trump quer que a trégua se transforme num acordo de paz, premido pela impopularidade da guerra entre a opinião pública americana e pela necessidade de controlar os preços da gasolina e do custo de vida em geral. Se os republicanos perderem a maioria na Câmara dos Deputados, certamente haverá um processo de impeachment – o terceiro – para Trump.

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O maior risco para os entendimentos, em outra das muitas ironias do Oriente Médio, vem das alas mais fundamentalistas do regime iraniano, contrárias a qualquer acordo. Figuras políticas como o presidente e o ministro das Relações Exteriores, estão sendo intensamente criticadas. O funeral de Ali Khamenei será uma oportunidade para as duas alas mostrarem força.

E os iranianos que execram o regime e gritavam “morte ao ditador” quando eclodiram as manifestações de janeiro? Estarão trancados em casa, impedidos de se manifestar e, infelizmente, quase esquecidos pelo resto do mundo. As imagens que ficarão serão as do luto coletivo em massa, com multidões talvez chegando a 20 milhões de pessoas.

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No enterro de Khomeini, quando o corpo ficou numa caixa de vidro com ar condicionado, oito pessoas morreram pisoteadas pela multidão descontrolada e milhares foram hospitalizadas. Agora, as manifestações, embora enormes, deverão ser menos extremadas, embora passando a a impressão, errada, de que o país inteiro está em surto de luto por um homem mau, cruel, e repressivo, responsável em última instância pela morte de 36 mil pessoas nos protestos de janeiro, mas venerado por seguidores como um santo.

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