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França: o quadro presidencial está montado – e cheio de surpresas

Valérie Pécresse como candidata de centro-direita finaliza o plantel de candidatos, mas eleitores ainda estão dominados por dúvidas

Por Vilma Gryzinski 6 dez 2021, 07h36

Os franceses andam caprichosos, ainda tateando em busca de candidatos que correspondam às suas expectativas.

O último sinal disso foi as ascensão da ex-ministra Valérie Pécresse como candidata dos Republicanos. Sua vitória no congresso do partido (que mudou de nome, como outros, mas é fundamentalmente o mesmo gaullista de sempre) superou candidatos que, até recentemente, pareciam mais bem cotados, como Xavier Bertrand ou Michel Barnier, dois nomões que rodaram nas urnas.

Pécresse é uma candidata fraca, da mesma forma que os esquerdistas tradicionais. Tem cerca de 10% das preferências, no momento. Para complicar, à sua direita, há dois candidatos fortes, Marine Le Pen e Éric Zemmour. 

Segundo as pesquisas, Zemmour deu uma refluída para a faixa de 14% depois de desbancar, temporariamente, Le Pen e de anunciar sua candidatura num vídeo meio sinistro, ao som da Sétima Sinfonia de Beethoven, no qual se lançou como o salvador da França em risco de ser tomada por imigrantes, sua narrativa mestra. Até o nome escolhido para seu partido evoca uma grande gesta do passado contra o domínio muçulmano no que viria a ser a Espanha: Reconquista.

Marine Le Pen (MLP, simplificam os jornais) voltou ao segundo lugar, passando em décimos dos 18%. Emmanuel Macron continua em primeiro lugar, com 25,8%, o que não é mau para um presidente submetido ao desgaste natural do poder e de uma pandemia que não dá ao mundo mais do que momentos passageiros de alívio.

Juntos, os candidatos da direita dura somam 32% do eleitorado – mais, se forem incluídos os 5,5% de simpatizantes de  Éric Ciotti, aspirante dos Republicanos derrotado por Pécresse, com um discurso nacionalista forte.

A força da direita dura é um fenômeno francês sem paralelos na Europa Ocidental, mas não basta para ganhar uma eleição em segundo turno, onde todos os outros partidos, com exceção da esquerda mais empedernida,  farão o que sempre fazem: apoiar o candidato que se opõe à linha dura.

Valérie Pécresse, que ocupa um cargo equivalente ao de governadora da Île-de-France, o departamento onde fica Paris, apresenta-se como a direita civilizada – e talvez algo imodesta. “Sou dois terços Angela Merkel e um terço Margaret Thatcher”, descreveu-se, com notável autoestima.

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Mas ela sabe que precisa ciscar no terreno onde MLP e Zemmour vicejam, o da insatisfação popular com as populações de imigrantes não assimilados. Já disse que vai “acabar com a imigração descontrolada”, uma promessa fácil de fazer, dificílima de cumprir.

Um discurso mais duro pode atrair os franceses que não têm coragem de cravar o voto em Marine Le Pen e muito menos em Éric Zemmour, mas alimentam exatamente o mesmo tipo de preocupação que turbina esses dois candidatos. Episódios de violência como no primeiro comício de Zemmour, onde até o candidato sofreu uma agressão de um grupo antirracista, podem reforçar a posição de uma figura política menos rejeitada.

Pécresse tem a vantagem de ser uma candidata sem bagagem. Como enarca, a designação dos que cursaram a Escola Nacional de Administração, é do topo da elite, mas não tem a imagem de prodígio mimado, como Macron. Foi ministra – do Ensino Superior – de um presidente que não conseguiu a reeleição, Nicolas Sarkozy, mas não sofreu a contaminação espalhada por ele, até hoje às voltas com a lei. A posição centrista a aproxima de Macron, detalhe que Marine Le Pen destacou ao dizer que “Valérie Pécresse é talvez a mais macronista dos candidatos”.

Ela teria chances de deslanchar a virar a adversária a ser enfrentada por Macron no segundo turno, em abril? Ou então, se entrarmos no campo da especulação ambiciosa, disputar a presidência com Marine Le Pen? Duas mulheres de direita – apesar de todos os graus de diferença – numa briga de foice no escuro seria uma novidade formidável.

Os franceses já se mostraram dispostos a arriscar quando elegeram não só Macron mas também todo o partido que ele criou praticamente do nada.

É fácil admirar Macron, com sua mente privilegiada que domina todos os assuntos, e difícil gostar dele – talvez, exatamente, pelo jeito de geniozinho que mal consegue esconder o desprezo pelos humanos comuns.

A popularidade dele conseguiu uma recuperação impressionante: 44% dos franceses acham que Macron é um bom presidente; isso depois de chegar perto de um único dígito de aprovação.

Já estaria reeleito – se os franceses não andassem tão caprichosos.

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