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Fotos falsas, fatos falsos e drama real: a fuga de muçulmanos

Em Mianmar, minoria religiosa sofre com expulsão em massa. Por que tentam aumentar com mentiras um sofrimento verdadeiro? E esconder motivos?

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 30 jul 2020, 20h44 - Publicado em 18 set 2017, 11h21

Em todos os países ocidentais, a imagem do budismo é de uma religião pacifista, altamente espiritualizada, desligada da posse e do ego. Nada surpreendentemente, virou moda a partir da grande onda de mudanças comportamentais dos anos sessenta.

Nas elites bem pensantes, o Dalai Lama provoca muito mais entusiasmo e até veneração do que o papa. Qualquer papa. A causa perdida do Tibete, incorporado pela China sem nenhuma porta de saída, virou mantra em Hollywood.

De repente, budistas de um país específico, Mianmar, a antiga Birmânia, viraram sujeitos perversos.  Até um desconhecido fundamentalismo budista foi descoberto.

A mulher que era venerada como heroína internacional,  Aung San Suu Kyi, que com mais de uma década de resistência pacífica em prisão dominiciliar, havia obrigado o regime militar de Mianmar a fazer uma abertura, virou uma vilã atacada pelos mais desavisados dos repórteres. Até o prêmio Nobel da Paz querem que devolva.

Mianmar é um dos países da aquela “ponta” do Sudeste Asiático em que ficam países onde o budismo é muito forte, incluindo Tailândia, Laos, Vietnã e Camboja. Já fez parte do que era a Índia colonial, antes das subdivisões que criaram Paquistão e Bangladesh.

Tem um grupo étnico majoritário, o Bamar, e mais de 130 etnias menores. O budismo, adaptado a crenças locais, incluindo astrologia, quiromancia e vidências em geral, de certa maneira funciona como fator unificador dessa complicada colcha de retalhos.

Exceto, evidentemente, no caso da minoria muçulmana, os rohingyas, ou ruaingás. Eles vivem em Arankan, uma região fronteiriça.

EXÉRCITO DE SALVAÇÃO

Uma parte deles tem raízes há muitos séculos na Birmânia, outra veio mais recentemente do lugar original, Bangladesh, uma das regiões do subcontinente indiano onde as muitas ondas de domínio muçulmano provocaram no passado as conversões em massa ao Islã.

Como minoria com cidadania contestada, os ruaingás birmaneses são rejeitados e discriminados, considerados de forma geral como bengaleses invasores.

Na onda de renascimento fundamentalista do Islã, surgiu também um Exército de Salvação dos Ruingás de Arankan. O líder do grupo armado é conhecido como Ata Ullah. Nasceu no Paquistão e foi criado em Meca, na Arábia Saudita, o lugar santo do Islã.

No fim de agosto, este grupo invadiu postos policiais e matou doze pessoas. O exército birmanês lançou represálias em massa, com intimidações e incêndios de vilarejos para expulsar os ruingás de volta ao lugar ao qual acham que pertencem, Bangladesh.

O sofrimento das famílias em fuga, muitas andando por mais de duas semanas no meio da selva ou de plantações de arroz,  é terrível.

Mas existe também uma campanha de propaganda para exagerar as perseguições sofridas pelos ruingás e fazer com que pareçam parte de um inexistente movimento mundial contra a religião muçulmana.

Muitos instrumentos são toscos: fotos de conflitos, incidentes ou tragédias que aconteceram em outros países, são usadas como se mostrassem casos ocorridos com ruingás.

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A foto acima, da imolação pública de um homem jovem, aconteceu na Índia. Ironicamente, foi um protesto de exilados tibetanos, portanto, budistas.

Outra foto, chocante, mostra monges budistas com seus trajes vermelhos  e máscaras na boca no meio de fileiras de corpos nus amontoados. Pretende indicar a indiferença dos monges às vítimas muçulmanas. Na verdade, é do terremoto que atingiu regiões da China e do Tibete em 2010. Os monge estavam conduzindo a cremação das vítimas.

O primeiro-ministro da Turquia, Mehmet Simsek, retuitou uma série de fotos mentirosas, mostrando corpos num rio (vítimas de um ciclone de 2008) e uma mulher de véu chorando diante de um morto amarrado numa árvore (Indonésia, tsunami de 2003).

DAMA DAS ORQUÍDEAS

Aumentar, exagerar ou mentir sobre o sofrimento de muçulmanos faz parte da narrativa de vitimização usada para contrabalançar fatos reais.

Fato número 1: os maiores horrores sofridos por populações muçulmanas decorrem de conflitos entre grupos e correntes da mesma religião. A Síria é o caso mais flagrante.

Fato número 2: mas de 90% dos atentados terroristas na Europa são cometidos por fundamentalistas muçulmanos, alegando perseguições e sofrimento, por exemplo, das criancinhas sírias.

Fato número 3: países ocidentais bombardeiam áreas sob controle do Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Realmente há vítimas civis. Se não houvesse o conflito na Síria, não haveria nada disso.

Fato número 4: a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003, foi uma das maiores besteiras cometidas pelo país e deixou um número absurdo de vítimas iraquianas (174 mil, segundo um dos cálculos).

Por que os iraquianos não aproveitaram, depois que o ditador foi derrubado e os americanos foram embora, para fazer um país que funcionasse para as duas correntes religiosas, xiitas e sunitas?

Não existem, evidentemente, respostas simples. Mas exagerar ou distorcer conturbações reais não ajuda a entender situações complicadas.

Aderir voluntariamente à máquina de propaganda que tem um único botão –  “ islamofobia”, inclusive ou principalmente, quando um “jovem” taca fogo no metrô ou atropela pedestres – enfraquece os argumentos quando acontecem perseguições reais.

Aung San Suu Kyi, a “Dama”, sempre digna e elegante com as tradicionais orquídeas nos cabelos, já percebeu que perdeu rapidamente o capital acumulado durante os anos em que escolheu ficar presa em Mianmar a viver com o marido em Oxford.

Amanhã ela vai falar publicamente sobre o assunto: tem um caminho bem estreito entre o mínimo de justiça para os ruingás minoritários, o desejo da maioria da população, que quer vê-los pelas costas, e os riscos reais da insurgência do Exército da Salvação, num panorama geral de fundamentalismo desenfreado.

Governar um país com encrencas ético-religiosas  e administrar uma questão inflamável, com séculos de conflitos de baixa ou alta intensidade, são assuntos mais complexos. Sem ter o ônus do governo, o Dalai Lama já foi correndo dizer que Buda ajudaria o ruingás. Sacudiu o sininho da meditação bem na cara da ex-colega de resistência pacífica.

Quem imagina que os budistas vivam numa esfera isolada de alta espiritualização e distanciamento de desejos está pensando na versão hollywoodiana. E não conhece o mínimo da realidade em Mianmar.

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