Extrema esquerda americana: contra Thanksgiving e até dia dos namorados
Parece piada, mas nomes ascendentes no mapa político, como Francesca Hong, promovem ideias absurdas e extremistas.
Polícia? Deve ser abolida. Prisões, idem. Fronteiras, obviamente, são abertas a quem quiser entrar. Impostos devem ser confiscatórios. Datas que todo mundo celebra, como Natal, Thanksgiving, Quatro de Julho e até o dia dos namorados, o São Valentim pelo calendário americano, (“O capitalismo dizendo como mostrar afeto”), são condenáveis e também não deveriam existir. Parece coisa de diretório acadêmico, mas são bandeiras já defendidas, apesar da tentativa de eliminação, por alguns dos nomes em ascensão na política americana, com ideias de extrema esquerda como parecia inconcebível nos Estados Unidos.
Em geral, são filhos de imigrantes e, em lugar da adesão entusiasmada aos princípios do país dos livres e da terra dos bravos, abominam o que faz os Estados Unidos ser os Estados Unidos, incluindo, ou acima de tudo, o capitalismo.
Um dos mais comentados do momento é o médico sanitarista Abdul El-Sayed, filho de imigrantes egípcios, escolhido em eleições primárias para disputar um lugar no Senado pelo Partido Democrata no estado de Michigan.
Entre as maluquices que foram recuperadas nas redes sociais, ele já chamou o futebol americano de sinônimo de “masculinidade tóxica”. E elogiou o futebol europeu, como os americanos chamam o futebol futebol, por ser mais “igualitário”. É, evidentemente, coisa de quem não tem a menor ideia do que está falando, mas faz sucesso com um público igualmente desantenado da realidade do mundo futebolístico. Ele também já reclamou da queima de fogos no dia da independência.
MODELO MAMDANI
El-Sayed é bonitão, malhado e fala com grande eloquência, insistindo num ponto discutível da sociedade americana, a falta de cobertura universal de saúde (dependendo do estado). É praticamente uma cópia do modelo usado com grande sucesso por Zohran Mamdani, o prefeito de Nova York que estarreceu o mundo ao ser eleito no berço de Wall Street.
À mesma fornada pertence Francesca Hong, descendente de imigrantes coreanos que atribui todos os males do mundo ao capitalismo. Hong perdeu por pouco as primárias para ser candidata a governadora pelo Wisconsin, mas já virou uma personalidade nacional. A candidata (com o nome pronunciado à italiana, Franchesca), além de implicar com o dia dos namorados, acha que o Thanksgiving, o Dia de Ação de Graças, é um instrumento usado para “manter a supremacia branca” e celebrar o colonialismo.
Entrevistada, com grande simpatia, num programa da CNN, Francesca não gostou de uma pergunta e deu uma resposta maluca, imitando o sotaque de uma manicure coreana, querendo dizer que estava sendo discriminada. Foi uma das cenas mais alucinadas da história das entrevistas políticas. Ela parecia realmente estar surtando.
Os mais preocupados com a ascensão da extrema esquerda, um fenômeno praticamente sem precedentes, são os próprios políticos democratas tradicionais, não os republicanos. Vários acham que o partido está tomando um rumo radical que o afasta da maioria dos eleitores americanos e pode fazer os democratas perder votos, mesmo que candidatos pontuais sejam eleitos. Também acham absurdo que os autodenominados socialistas democráticos usem o partido para construir feudos próprios. Muitos têm medo de expressar estas ideias em público, um sinal de como o debate está distorcido.
NAVE-MÃE CAPITALISTA
Em vários sentidos, a ascensão dos socialistas democráticos (com tudo da primeira parte e quase nada da segunda) pode ser atribuída a uma reação pendular à eleição de Donald Trump, mas o fenômeno vai além disso.
Nada menos que um terço dos eleitores que votam no Partido Democrata se identificam como socialistas democráticos, geralmente na faixa etária mais jovem. Virou moda, por mais absurdo que soe no país que venceu a Guerra Fria e derrotou, sem sangue nem guerra, o socialismo real, representado pela União Soviética e seus satélites europeus.
Como toda moda lançada pela nave-mãe capitalista, será copiada mundo afora. Até nos países que já têm, de longa data, seus próprios radicais de esquerda.
A esperança é que o sistema seja mais forte e absorva eventuais excrescências. Por exemplo, a pioneira desse modelo político, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, entrou na política com o mesmo discurso radical, mas na semana passada, enquanto não se falava de outra coisa que não fosse a ascensão dos novos radicais, apareceu transmitindo nas redes detalhes de seu processo de congelamento de óvulos. Ela tem 36 anos e um companheiro fixo, poderia muito bem ter um filho agora, pelo método natural. Mas está pensando “naquilo”, na Presidência.
Hoje, pelos padrões dos novos radicais, ela é considerada praticamente uma moderada. E uma forte candidatura presidencial de AOC começa a soar um pouco menos estapafúrdia. Kamala Harris que se cuide.







