Está Zelensky sabotando a si mesmo com mudanças na cúpula da defesa?
No momento em que a Ucrânia alcança avanços importantes na guerra, o presidente provoca protestos e revolta por demissão do 'gênio dos drones'
Na Rússia, houve comemorações. Blogueiros militares celebraram a demissão de Mykhailo Fedorov, o ministro da Defesa que levou um olhar totalmente novo, antenado com a era digital, para a guerra com a Rússia. A forma como multiplicou a produção de drones, deixando os militares na frente de combate com liberdade para escolher equipamentos e o modo de empregá-los, mudou o equilíbrio de forças. Mesmo sem condições de forçar recuos, tendo pela frente uma força mais numerosa e poderosa, a Ucrânia causou danos consideráveis, dentro do espírito de eventualmente levar a Rússia a um acordo de cessar-fogo.
“Por que tirar o seu artilheiro quando ele acabou de marcar um a zero?”, comparou no Telegraph o analista Roland Oliphant.
A Ucrânia inteira faz a mesma pergunta. A resposta mais à mão: Fedorov entrou em choque com o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o general Olexander Syrsky, um militar convencional, formado na mesma escola russa de seus inimigos, herdeira do estilo soviético. Os dois mediram forças e Fedorov saiu perdendo. “Não posso permitir que o ministro da Defesa e o chefe do Estado-Maior briguem entre si enquanto o país está em guerra. Idealmente, os dois seriam substituídos. Mas não posso fazer isso ao mesmo tempo”, disse Zelensky a um grupo de parlamentares.
Note-se que Fedorov era amigo de Zelensky desde antes da guerra, quando sua empresa de marketing digital prestava serviços à produtora de televisão do comediante que viria a ser eleito presidente, numa espécie de último recurso de um eleitorado farto com as opções convencionais. O ator de programas satírico viria a se revelar um fenomenal presidente em tempo de guerra – embora não absolutamente livre de críticas, como está acontecendo agora, talvez num nível nunca visto antes.
‘ELON, SEU AMIGO CAIU’
Teria Mykhailo Fedorov, que levou para a Defesa os conhecimentos desenvolvidos como ministro da Transformação Digital, também incorrido no pecado de se tornar popular demais? A hipótese não pode ser excluída. Com 35 anos e boa aparência, ele conquistou muitos admiradores jovens. A tática de usar drones em massa também causa mais estragos entre os inimigos e poupa vidas ucranianas, certamente um excelente argumento para sua popularidade.
Como ministro, um de seus maiores feitos foi convencer Elon Musk a restringir o acesso ao Starlink de forças russas na frente de combate, deixando seus drones “cegos”. Fez uma considerável diferença, a ponto de blogueiros russos agora provocarem: “Elon, seu amigo está fora. Devolva o Starlink”.
O uso de empresas particulares para produzir drones agilizou a guerra e permitiu ataques profundos em território russo – com armas fornecidas por aliados ocidentais, isso era impossível, pois não havia autorização para um ataque que poderia significar guerra entre os dois grandes blocos militares. Todas as 21 refinarias russas foram atingidas, provocando cenas inéditas: no maior país do mundo, com seus fantásticos recursos energéticos, apareceram filas nos postos de gasolina.
Outro sucesso bélico: a destruição de navios cargueiros no mar de Azov, uma tática usada para isolar a Crimeia sob controle russo. Em uma semana, foram atingidos 116 cargueiros, um número espantoso.
‘CONTINUAR NO TIME’
Drones também explodiram a “Amazon russa”, a maior empresa de e-commerce do país, atacada por fornecer componentes de uso bélico e nuvens de fumaça se espalharam sobre Moscou, num sinal de que não dá para manter a ilusão de Vladimir Putin de uma guerra isolada e distante.
“Fedorov, Fedorov”, entoaram algumas centenas de manifestantes, levando cartazes de protesto improvisados em pedaços de papelão – um certificado de autenticidade. Os protestos continuaram por vários dias, numa situação sem precedentes. Muitos manifestantes agora estão pedindo a cabeça de Siysky.
Conflitos entre líderes civis e comandantes militares são comuns em qualquer guerra, ainda mais na Ucrânia, com uma eterna nuvem de suspeitas de corrupção e péssima gestão. Mas teria Zelensky avaliado mal a reação à demissão do jovem mestre dos drones? “Eu quero que Fedorov continue a ser ministro”, disse ao Kiev Independent o veterano Masi Nayyem, um dos participantes das manifestações. “Eu quero que a refinarias russas continuem queimando como aconteceu quando ele era ministro”.
Zelensky disse que o amigo, ou ex-amigo, “vai continuar no time”. Muitos ucranianos estão descrentes. E furiosos, de uma forma nunca vista antes.







