Está Trump isolando Netanyahu? Gradualmente, Israel vai ficando só
Presidente americano não deixa o país aliado voltar a atacar o Irã e força retirada de tropas israelenses da Síria e do Irã
“Eles não querem saber de vocês lá. É melhor remanejar”. A frase de Donald Trump foi rapidamente vazada por fontes certamente interessadas em espalhar que o presidente americano está intimando Benjamin Netanyahu a sair da Síria e do Líbano, numa guinada que deixa o primeiro-ministro israelense crescentemente isolado.
Mais fontes anônimas disseram que países árabes próximos de Trump, como o Catar, além do presidente turco Recep Erdogan, ao qual sempre cobre de elogios, estão convencendo o presidente de que Netanyahu é uma força negativa. O fato de que Israel não está tendo autorização de atacar o Irã, enquanto os Estados Unidos retomaram os bombardeios, indica que as palavras não estão caindo em ouvidos moucos.
Há também em meios da inteligência israelense uma suspeita de que veio dos colegas americanos a informação sobre a estarrecedora – e fracassada – operação do Mossad para recrutar como espião o ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Seria uma forma de solapar a credibilidade do Mossad. O que é mais difícil: acreditar na ousadia quase insana da operação ou ver digitais da inteligência americana nos detalhadas vazamentos, dados em forma de furo pelo New York Times?
Já que estamos no campo do inacreditável, lembremos declarações espantosas de ontem do vice-presidente JD Vance, dizendo que é alvo de uma campanha de difamação e que “figuras” do governo israelense estão manipulando a opinião pública americana para continuar a guerra no Irã por tempo indefinido.
“Minha resposta a isso é: vão para o inferno”, detonou Vance, que é o nome mais importante do governo Trump a defender a linha isolacionista e foi deslocado por Trump para negociar um acordo com o Irã. Negociou mal, fez concessões excessivas e nem assim conseguiu alcançar um entendimento, como mostram as bombas que voltaram a cruzar o espaço em torno do Estreito de Ormuz.
REVIRAVOLTA NAS RELAÇÕES
O presidente obviamente está vendo seus planos não darem certo e passou a agir por impulso. O maior erro foi a súbita declaração de que os Estados Unidos cobrariam 20% sobre a carga dos navios que transitam por Ormuz. Um abuso tão absurdo, e em tudo exatamente ao que defendem os Estados Unidos, que ele recuou no dia seguinte, depois de ouvir os argumentos de “emires e reis” da região, que ligaram oferecendo bilionários investimentos nos Estados Unidos.
Foi um dos piores momentos de Donald Trump.
Mas o fato é que, ao se afastar progressivamente de Israel, ele está seguindo os humores da opinião pública americana. Gaza teve um efeito extremamente negativo para Israel. E a visão propagada à direita e à esquerda de que Trump bombardeou o Irã por influência dos israelenses só piorou a impressão de que o presidente cedeu demais ao aliado do qual agora parece se afastar cada vez mais.
As declarações de JD Vance culminam a impressão de afastamento. O suposição de que o vice-presidente – obviamente pensando naquilo, a Casa Branca – esteja cultivando a ala do trumpismo que não quer saber de guerras, principalmente quando acha que está atendendo mais aos interesses de Israel do que dos Estados Unidos, são um sinal muito claro de que está havendo uma reviravolta nas relações entre os dois países. E uma reviravolta que só traz más notícias para Israel.







