Esta mulher envenena a América: teorias conspiratórias afetam sociedade
Laura Loomer, uma voz maligna da direita, é a maior propagadora de versões absurdas e deletérias sobre tudo e todas as coisas da política
“Ele foi envenenado por um adversário estrangeiro, no exterior ou ao voltar para os Estados Unidos?”. A pergunta lançada no ar por Laura Loomer, afastada por assessores ajuizados do entorno próximo de Donald Trump, mas ainda enormemente influente, insuflou todo tipo de especulação sobre a morte súbita do senador Lindsey Graham.
A morte foi explicada como uma ruptura de aorta, emergência médica que pode ter efeitos fulminantes, principalmente quando a ajuda é protelada – Graham, um viciado em política de 71 anos, falou com Donald Trump por telefone e queria dar uma última a entrevista a um programa de televisão antes de procurar atendimento –, mas as suspeitas só aumentaram com o motivo oficial. O fato de que ele havia acabado de voltar da Ucrânia, um país que defendeu com paixão até literalmente o fim, foi considerado altamente suspeito.
Simultaneamente, corria o caso de outro senador republicano, Mitchell McConnell, que fez a famosa “prova de vida”, uma foto de hospital tentando explicar que estava tudo bem com ele, depois de um tombo. A maioria esmagadora concluiu que não somente estava tudo mal, mas a própria foto tinha sido forjada. “Por que o texto no jornal que a assessoria de McConnell diz que ele está segurando parece ter sido criado por Inteligência Artificial?”, sibilou Laura Loomer.
McConnell, vítima de pólio na infância, tem um histórico de quedas, está com 84 anos e a foto – com jornal e tudo – foi certificada via análise de metadados. Adiantou? Obviamente não.
Todos os políticos procuram amenizar problemas de saúde e é natural desconfiar de explicações oficias. Mas o que está acontecendo nos Estados Unidos em matéria de teorias conspiratórias é um disparate: o volume e o exagero das versões solapam os fundamentos de confiança que devem sustentar as sociedades saudáveis.
POLÍTICA PARANOICA
Alimentar as teorias absurdas virou uma profissão lucrativa para pessoas como Laura Loomer e até um instrumento de serviços secretos como o russo para espalhar a desconfiança generalizada. Atenção: não é uma teoria conspiratória, mas um fato comprovado pelo exército de “soldados” digitais que espalha mentiras pelas redes, usando táticas clássicas da desinformação russa. Um exemplo: um tabloide russo disse que o catastrófico evento cardíaco de Lindsey Graham havia sido “o beijo da morte” de Volodimir Zelenski, a última pessoa com quem o senador foi fotografado.
Detonar Zelenski é uma atividade permanente do serviço secreto russo, mesmo quando plantando “ïnformações” ridículas. O pior é que muita gente leva a sério e personalidades como Laura Loomer alimentam sem parar o clima de suspeição. Ativista de base que ascendeu no mundo Maga, ela já foi muito próxima de Trump, a ponto de acompanhá-lo em viagens no avião presidencial, obviamente provocando uma boataria sobre algum tipo de relação sentimental. Assessores de Trump fizeram uma espécie de cordão sanitário para evitar a proximidade excessiva e a contaminação pelas maluquices propagadas por ela. “Não entendo por que falam em conspiração”, disse Laura sobre o caso de Lindsey Graham. “Existem indícios mais do que suficientes sobre uma causa provável.”
Obviamente, não está sozinha. “Nossa era de política paranoica produziu uma série de teorias nas redes: ele morreu em Kiev. Foi apagado por Israel. Envenenado pelo Irã. Detonado pela Rússia”, escreveu o Washington Post. Trump, a última pessoa a falar com Lohan antes da crise, desmentiu o conspiracionismo. Claro que não adiantou nada.
As teorias são alimentadas pelo sentimento de superioridade que dá “saber” a explicação real sobre fatos importantes, e não ter uma desconfiança saudável das versões oficiais. A imprensa tradicional tem sua parte de culpa por ter pedido a credibilidade quando permitiu que a politização saísse das colunas de opinião e contaminasse as reportagens. É uma perda que prejudica toda a sociedade: sem a imprensa qualificada, com seus mecanismos para apurar fatos, estamos perdidos. E explorados pela tribo onde Laura Loomer é considerada para autoridade para dizer o que é verdade e o que é mentira.







