Ele vivia da fama dos outros e foi devorado pela própria celebridade
A autoimolação de Perez Hilton, transmitida ao vivo por rede social, simboliza uma enorme ironia: o blogueiro transformou a fama em arma letal
A fama, e as demandas que cria, podem matar. Ironicamente, o blogueiro que criou um novo estilo, agressivo e impiedoso, de cobrir a vida das celebridades, disseminando-o pelo mundo, escolheu uma rede social para transmitir chocantes automutilações, equivalentes a uma tentativa de suicídio ao vivo. Vivendo da fama dos outros, Perez Hilton quase foi devorado pela sua própria. É impossível não pensar em como o destino dá voltas mais ousadas do que as clássicas das tragédias gregas. E em como a fama tem uma capacidade devoradora, algo rememorado especialmente esta semana, com o aniversário do suicídio de Marilyn Monroe, em 5 de agosto de 1962.
Com seu pseudônimo inventado para emular, em espanhol, o nome da socialite Paris Hilton, o blogueiro de origem cubana criou um estilo infinitamente mais cruel do que o da colunista de celebridades Hedda Hopper, responsável por escavar e ironizar as tragédias pessoais de Marilyn, incluindo os abortos espontâneos e os distúrbios mentais.
Perez cobriu com muito menos escrúpulos as crises bravas vividas por Britney Spears e Lindsay Lohan. Quando o ator Heath Ledger morreu de overdose, criou uma camiseta com os dizeres “Por que não foi Britney? ”. Sendo ele próprio gay, se especializou em “tirar do armário” famosos que não queriam assumir publicamente a homossexualidade, como todas as pessoas têm direito de fazer. O cantor Clay Aiken disse que chegou a sofrer ataques de pânico por causa disso. Perez também fazia comentários cruéis sobre a aparência de filhos de famosos.
Ireland Baldwin, filha de Alec Baldwin e Kim Basinger, resumiu como foi alvo da crueldade de Hilton durante sua conturbada adolescência: “Perez Hilton humilhou publicamente minha família durante anos, me sexualizou desde jovem, comentou sobre meu peso e meu corpo (quando criança), fez comentários imperdoáveis sobre minha família e sempre foi um ser humano desprezível”. Mas acrescentou: “Seus filhos merecem algo melhor e um pai com saúde. Espero que receba a ajuda de que precisa e se recupere”.
EXPERIÊNCIA DE MORTE
Perez Hilton, cujo nome verdadeiro é Mario Armando Lavandeira Jr. , tem três filhos nascidos de barriga de aluguel, sem dividir a paternidade com nenhum parceiro.
Seu estilo profissional agressivo coincidiu com a era da onipresença dos celulares e a profunda influência que isso teve sobre a cobertura da vida de famosos, visados por qualquer pessoa com um telefone na mão e não mais apenas pelos paparazzi. Ele também mudou a maneira de agir dos repórteres de celebridades, em geral dependentes do relacionamento com os agentes dos famosos, inclinados a dar notícias em troca de uma cobertura positiva.
Perez Hilton pôs fogo nesse modus operandi, mas manifestou arrependimento mais recentemente, em especial depois de um grave problema de saúde – septicemia decorrente de uma úlcera provocada por um remédio antigripal. Durante a experiência de morte iminente, também disse ter reencontrado a religião católica.
Seu chocante episódio de automutilação transmitida ao vivo sucedeu em poucos dias o anúncio da cantora Ariana Grande de que iria sair da vida pública, depois de ser massacrada pela reação às imagens em que mostra a assustadora magreza.
Como tantos antes dela, depois de dedicar tudo, desde criança, a perseguir a fama, Ariana está sendo devorada por ela.
Tragicamente, os cortes que Perez Hilton infligiu a si mesmo lembram o vídeo de divulgação em que a cantora aparece com linhas de sangue cenográfico no rosto e nos braços.
Ariana, com quem ele quase chegou a trabalhar, havia sido um dos alvos prediletos de Perez Hilton.







