De islamista a estadista: dá para acreditar que o líder sírio mudou?
Os Estados Unidos estão apostando que sim, e até suspenderam sanções contra a Síria, mas minorias religiosas denunciam perseguições
Os americanos estão levando tão a sério a aposta em trazer a Síria para seu lado, sob administração do presidente Ahmed al-Sharaa, que forçaram até um encontro difícil de imaginar: o chefe do Mossad, Roman Gofman, se reuniu na Jordânia com o ministro das Relações Exteriores da Síria, Asaad al-Shibani. Formaram um grupo de trabalho para tentar distensionar conflitos, como os provocados por ataques israelenses a bases em território sírio.
Nenhuma das partes acredita minimamente na outra e só estão agindo sob pressão dos americanos, tão dispostos a atrair a Síria que tiraram o país da lista de patrocinadores do terrorismo. Também sob pressão, um grupo curdo sírio aceitou se integrar ao Exército nacional, reformulado depois que os islamistas comandados por Sharaa conseguiram o impossível e derrubaram o regime de Bashar Assad, em 2024. O nível de confiança mútua é igualmente zero, mas todos se sentem na obrigação de acatar os planos americanos.
E estes são ambiciosos: transformar a Síria numa aliada, com um regime afastado do islamismo militante do passado bem recente, quando Sharaa comandava um grupo chamado Hayat Tahrir al-Sham e rezava por uma cartilha muito parecida com a da Al Qaida.
Dá para acreditar que ele e sua turma mudaram, aceitando agora um regime inclusivo para as múltiplas minorias religiosas e étnicas da Síria, incluindo cristãos, alauitas, curdos e outros?
Com tudo o que tinha de abominável, o regime de Assad ainda contava com apoio de parte dessas minorias por temer que a alternativa seria o modelo islamista que se propagou entre a maioria muçulmana sunita.
Os múltiplos episódios de matanças entre alauitas — visados por serem da seita de Assad — e cristãos indicam que não estavam tão errados. Episódios horripilantes se repetem: islamistas atacam os “inimigos”, provocam mortes de inocentes e as tropas enviadas para protegê-los colaboram com os agressores.
O MAIOR FIADOR
A islamização progressiva é notada também em detalhes que parecem menores, como a proibição de trajes de banho nas praias públicas. O álcool também vai batendo em retirada. Mulheres que, na era Assad, andavam pelas ruas à moda ocidental, agora estão cobrindo os cabelos. O governador de Latakia, a única província onde os alauitas são maioria, proibiu que funcionárias públicas usem maquiagem.
“A introdução gradual de leis restritivas parece ter dois objetivos: primeiro, testar os limites da tolerância interna e internacional; segundo, implementar mudanças políticas e sociais que podem se tornar permanentes justamente porque são aplicadas aos poucos, não abruptamente”, comentou o Middle East Forum.
O maior fiador do novo regime sírio é Donald Trump, que se entende bem com o grande patrono de Sharaa, o turco Recep Erdogan. Ele vive fazendo elogios ao novo presidente sírio, chamando-o inclusive de bonitão. Numa visita à Casa Branca, Sharaa deu risada quando Trump perguntou quantas esposas tinha — “Com vocês, nunca se sabe”, comentou jocosamente.
Uma Síria alinhada com o Ocidente, ou pelo menos não amiga de seus inimigos, é obviamente muito melhor. Só falta convencer os principais interessados. É difícil encontrar um único israelense que acredite na “conversão” do presidente sírio e sua turma, espertos o suficiente para mudar de imagem, mas não para persuadir os recalcitrantes.
Sem o freio das sanções, o novo regime tem a chance de melhorar as condições econômicas — e consolidar seu próprio poder, num país em que continuam a operar múltiplos grupos armados. A recompensa — ou o castigo — da aposta americana está por vir. O “canário na mina” talvez seja representado pelos cristãos sírios, com suas confissões remetendo ao início do cristianismo. Se seu êxodo continuar, as promessas de Ahmed al-Sharaa se mostrarão enganosas, como tantos desconfiam.







