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Chefe de inteligência de Israel ouviu a filha sendo morta em 7 de Outubro

Mulher com posição mais elevada no Shin Bet, o serviço de segurança interna, não pode sair de casa, sob ataque, para socorrer a própria filha

Por Vilma Gryzinski 18 set 2026, 07h03
Chefe de inteligência de Israel ouviu a filha sendo morta em 7 de Outubro Priorize VEJA no Google

“Eu levei um tiro”. A frase da sargento Ofir Shoshani nas mensagens trocadas com os pais parecia resumir o que de pior podia acontecer no fatídico 7 de Outubro de 2023. Mas o pior ainda estava por acontecer: terroristas do Hamas entraram nos aposentos de Ofir e a mataram na cama. A mãe ouviu tudo, sem conseguir fazer nada.

Parece um episódio da Fauda, a sensacional série israelense que mostra agentes do Shin Bet, o serviço de segurança interna, especializados em se passar por palestinos em missões de tirar o fôlego. A série é boa porque tem nuances e mostra a humanidade de todos os envolvidos – e a brutalidade também. Sem contar, claro, os lances de tirar o fôlego, sempre envolvendo risco de vida para os personagens.

E risco de vida era no que pensava Mira Shoshani. Como mulher com mais alta patente no Shin Bet, principal responsável por monitorar líderes do Hamas no exterior, ela sabia que era uma fonte valiosíssima de informações. “Passou pela minha cabeça várias vezes que, se eu fosse levada para o cativeiro, eles teriam que me matar”, contou ela ao Canal 12. Quando disse “eles”, estava se referindo aos israelenses e ao fato de que não poderiam correr o risco de que a chefe de divisão cedesse sob tortura.

A família Shoshani morava num kibutz bem próximo da fronteira com Gaza, chamado Kfar Aza. A filha Ofir, de 22 anos, já tinha um aposento na ala dedicada aos jovens. Pelas regras desse tipo de comunidade, inicialmente uma experiência radical de vida comunitária, aos 18 anos os moradores deixavam a casa dos pais.

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CERTEZA E ARROGÂNCIA

O ataque a Kfar Aza foi brutal. O Hamas matou 80 moradores e demorou dias até ser controlado. O marido de Mira, Shai, arriscou ir buscar a filha de carro ao saber que ela estava ferida. Ziguezagueou entre disparos dos atacantes, mas acabou atingido no braço. Ficou escondido até a noite, quando foi resgatado por soldados israelenses que ainda combatiam para expulsar os invasores.

Não deu tempo para poupar a vida de Ofir. “Não consegui salvar a minha menina”, contou Mira. Como outros ocupantes de postos altos na estrutura de segurança, ela se confessou completamente enganada. Achava que o Hamas jamais desfecharia um ataque como o de outubro.

A certeza, tingida por arrogância, vinha, justamente, da alta capacidade de infiltração dos israelenses. Mira, por exemplo, acompanhava todos os movimentos de Ismael Haniyeh, o líder do Hamas que vivia no bem bom do Catar. “Eu sabia quando ele acordava e quando ia dormir e com quem havia se encontrado durante o dia”, relatou Mira.

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(No ano seguinte ao ataque, ele seria morto por uma bomba colocada debaixo de sua cama numa casa de hóspedes do governo iraniano; Haniyeh estava no país, e num lugar considerado de extrema segurança, para a posse do novo presidente, quando foi fotografado ao lado do representante brasileiro, o vice Geraldo Alckmin).

‘FALHEI NA MISSÃO’

O ataque contra as comunidades do sul de Israel começou com uma chuva de mísseis às 6h29 da manhã de sete de outubro. Às 10h15 ela contou aos pais que havia sido ferida. Ficou no telefone com a mãe, enquanto o pai saía para a frustrada tentativa de resgate. Mira ouviu quando os terroristas chegaram à casa da filha e começaram a quebrar coisas. Às 11h46, a jovem enviou uma mensagem de texto, para não ser ouvida. “Mamãe, eu te amo”. Mira pediu que a filha não dissesse isso, que as forças israelenses estavam a caminho. Perdeu o contato com a jovem.

Os invasores se aproximaram de sua casa e Mira acabou salva por forças israelenses. Tinha prioridade, como ocupante de um alto cargo no Shin Bet. Depois circulariam boatos de que havia sido retirada de helicóptero e até acusações de traição, porque alvos prioritários como ela haviam sido resgatados primeiro.

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São as reviravoltas que deixariam os espectadores em suspense se fossem em Fauda. Como aconteceram na vida real, vale a pena conhecê-las para ter uma ideia da rede de fatos que levou Israel a reagir como reagiu ao ataque que deixou 1,2 mil mortos, entre estupros, desmembramentos, execuções de crianças e outras barbáries.

“Eu falhei na missão da minha vida”, disse Mira sobre não ter conseguido salvar a filha. A linguagem é dos operadores de missões de espionagem, mas o sentimento é de mãe que ouviu as horas finais da própria filha sem poder fazer nada. Num momento em que não só israelenses, mas judeus em geral, são execrados e muitos se sentem heróis da resistência por boicotar um show de Ed Sheeran, vale lembrar como as coisas são complicadas.

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